APRESENTAÇÃO


O conjunto de trabalhos que o amigo leitor encontrará adiante foi produzido ao longo de alguns anos. Não posso aqui precisar quantos, talvez uns vinte. A grande maioria deles foi publicada no jornal A TRIBUNA SANJOANENSE, o semanário mais antigo de São João del-Rei, minha terra natal. Obviamente há uma cronologia de publicação associada aos acontecimentos que inspiraram as respectivas produções. Depois de muito pensar, se deveria mencionar datas, resolvi aboli-las, pois achei que correria o risco de tornar seu passeio um tanto dirigido e até cansativo. Posso imaginar alguém lendo algo retratando fato acontecido há anos! Talvez se sinta desmotivado. Então, no intuito de instigá-lo, apresento uma miscelânea de trabalhos recentes e antigos, a fim de lhe subtrair, de propósito, qualquer direcionamento e deixá-lo livre para pensar, buscando no tempo, por si, tal associação. Acredito ainda que dessa forma esteja incitando sua curiosidade à medida que avance páginas adentro. Sua leitura poderá inclusive ter início pelo fim ou pelo meio, que não haverá prejuízo algum para a percepção de que as coisas no Brasil nunca mudam. Ficará fácil constatar que a vontade política é trabalhada para a perpetuação da incompetência administrativa, obviamente frutífera para algumas minorias. Penso que, se me dispus a estas publicações, deva estar antes de tudo, suscetível a criticas e, portanto, nada melhor que deixá-lo, valendo-se unicamente das informações contidas no texto, localizar-se na história. Caso não lhe seja possível, temo que o trabalho perca qualidade perante seu julgamento pessoal. Por conseguinte, acredito que isso não acontecerá; a não ser que não tenha, a seu tempo, tomado conhecimento dos fatos aqui retratados. Procurei selecionar de tudo um pouco; certamente sempre críticas, porém algumas muito sérias carregadas de um claro amargor. Outras, mais suaves, pândegas e até envoltas num humor sarcástico. Noutras retrato problemas da minha São João del-Rei. Até cartas para congressistas em Brasília há. E em alguns pontos, para abusar da sua paciência, introduzi coisas muito particulares. Críticas à parte, nessas, apenas falo de mim, afinal, apesar de amigos, talvez nunca tenhamos trocado impressões sobre coisas tão pessoais. . .
Aqueles que me conhecem há tempos, sabem que sou um obstinado por política, apesar de jamais tê-la exercido diretamente. Motivos houve de sobra e numa oportunidade poderei explaná-los. Todavia, do fundo do coração, afirmo que tal paixão tem como motor um doloroso inconformismo por ver o Brasil tão esplêndido e tão vilipendiado; vítima inconteste dessa cultura avassaladora de demasiada tolerância à antiética imoral na administração pública. Comprovadamente este é o pior dos tsunames com potencial para ter retardado nosso progresso mais de três séculos e grande responsável pela perpetuação da pobreza de metade da nossa população, pelo analfabetismo total e funcional, pela violência social e pelo abismo intransponível que aliena gigantesco contingente, maior que um quinto da população do continente. Diante do inaceitável absurdo, impossível me conformar em silencio diante dos atos e fatos que vão vergonhosamente enxovalhando nossa história e nos deixando como um gigante deitado sobre o escravismo que a Lei Áurea não foi capaz de abolir. O título? Esse, talvez, seja o mais difícil explicar. Gritos sem ecos representam uma espécie de pedido de socorro do náufrago, que sabe que de nada adiantará espernear, pois não há interlocutores, não há socorro, não há saída, não há conscientização; mas, assim mesmo, grita-se.

Será um prazer receber sua visita e ler suas opiniões, elogios ou críticas.

Forte abraço!



quarta-feira, 13 de abril de 2011

BRASIL; POTÊNCIA IMPOTENTE NO CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU


            A cada dia mais me convenço da ingenuidade da diplomacia brasileira, cuja maior crença no presente momento é a de que o Brasil deva ser admitido como membro permanente no Conselho de Segurança da ONU.
            O atual governo, assim como o passado, animou-se nesta questão embarcado nas idéias mirabolantes e na pirotecnia político discursiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula, refinado protótipo do homem de sorte e do brasileiro bonachão, que leva tudo na valsa, inveterado contestador, capaz de colher dividendos da própria leniência;  tendo passado os primeiros quatro anos do seu duplo mandato assistindo ao Brasil apresentar um dos menores índices de crescimento do hanking mundial; reeleito embarcado nos bons ares do populismo assistencialista, aproveitou-se para afiar as garras do imposto de renda e capitalizado aprimorou  ainda mais o populismo eleitoreiro. Mais um vez sua estrela brilhou conduzindo o Brasil para o limbo progressista propiciado pela bolha do desenvolvimento mundial, que, mais tarde, levaria o mundo à banca rota e deixaria o Brasil a salvo no barco da pujança da sua economia movida a commodities, no incentivo ao consumo interno e na gastança governamental desmedida, irresponsável e eleitoreira baseada em empreguismo e “programas de aceleração do crescimento”, que jamais visaram setores cruciais e estratégicos, tais como antigos gargalos portuários, aeroportuários, rodoviários e suas incipientes logísticas. Enfim, o país continua capenga em suas estruturas básicas, multiplicando custos (“custo Brasil”), inviabilizando empresas nacionais, incitando inflação de demanda e ainda criando milhares de  empregos em países concorrentes.
            Mesmo assim e sob críticas dos setores industriais mais importantes do país ele foi em frente  e munido da sua singular falastronice, desmedido otimismo e ouvidos de mercador, tentou por todas as maneiras transformar-se no grande lider político latino americano por  levantar voz em defesa de ideais socialistas ultrapassados  e às custas de rusgas e críticas contundentes aos Estados Unidos, incentivo ao mercosul e aproximação com a China. Conseguiu promover a China ao posto de maior parceiro comercial do Brasil pelo fornecimento de commodities em alta escala àquele país, por outro lado renunciando o mercado americano que era também forte comprador de produtos de média e até alta tecnologia “made in Brasil”, gerava empregos no mercado interno e principalmente incentivava o investimento e a expansão da indústria nacional  a médio e longo prazos.
            Teria sido mais prudente, se não tivesse esquecido do velho conselho das nossas vovozinhas: “não vá nem tanto ao céu, nem tanto à terra”, afinal mesmo sob os efeitos negativos da mais profunda crise econômica da história, os Estados Unidos aínda é responsável por um quarto do comércio mundial e de quebra é a maior potência militar do planeta, tendo a sua forte influência econômica e cultural tentáculos espraiados por todas as atividades humanas.
            Lula vociferava contundentemente contra a velha prática subsidiária dos países ricos sobre uma extensa lista de produtos, principalmente contra os Estados Unidos. Ora, que perda de tempo! Os produtores de lá há décadas contam com essas benesses governamentais com o único fim de lhes dar competitividade. Tratam-se de conquistas arraigadas no campo comercial e até cultural, portanto, quase impossíveis de serem suprimidas, mesmo que os governos assim o desejassem.  Certamente, se Lula esbravejasse menos e desonerasse os produtores nacionais através de uma substancial redução tributária associada a saudável política de juros suportáveis para aquisição de bens de produção e insumos, daria ao Brasil condições de afinar sua competitividade colocando seus produtos em qualquer mercado do mundo, mesmo nos mais estreitos, como é o caso do  americano.
            O boom de crescimento que hora vivenciamos é apenas a ponta de um ice berg do bem que se fosse realmente emergido nos criaria condições de crescer a mais de 10% ao ano por várias décadas. O mundo reconhece e sempre reconheceu as potencialidades brasileiras e reza com fé para que os governantes brasileiros continuem sofrendo de cegueira crônica, de incapacidade gerencial, de falta de ética e desonestidade, de irresponsabilidade com os ideais de um povo que sonha em ser grande e feliz. Possuimos um território quase tão grande quando o da China, rico em recuros naturais, não estamos submetidos ao rigor das intempéries e desastres naturais chineses, somos um povo criativo e livre, temos conhecimento, tecnologia e célebros de alto nível espalhados pelo mundo. Por que então vimos assistido a China apresentar crescimento astronômico anos a fio e há quem diga que em 15 anos seu PIB ultrapassará o dos Estados Unidos? Simplesmente porque faz respeitar as leis com rigor, estabeleceu e cumpre a grande meta de se transformar numa grande potência industrial e tem imensa capacidade gerencial; o que não é o caso do Brasil. Balela a justificativa de que os custos de produção das industrias chinesas é baixo porque sua mão de obra é quase escrava ou porque a dinâmica administrativa numa ditadura é mais ágil. Prova da inconsistência dessa afirmativa é que os Estados Unidos e outras potências de sucesso sempre praticaram os mais altos salários do mundo, exatamente porque sabem que a economia é uma via de mão dupla. Quanto mais as pessoas ganham mais consomem e quanto mais consomem novos empregos são criados; dando origem a um círculo virtuoso aonde se investe sem temor na expansão industrial, assim afastando-se o risco do desequilíbrio entre oferta e procura, dispensando-se o excesso de tributação pelo maior giro macro econômico e de quebra robustecendo-se os cofres do estado. Além disso atota com afinco medidas gerenciais capazes de multiplicar a competitividade dos meios de produção internos frente à concorrência externa. Enfim, todos ganham de uma ponta a outra.
            O dia que os governantes brasileiros aprenderem gerenciar com eficiência e abrandarem sua ânsia atávica do imediatismo midiático, o Brasil realmente merecerá assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Esse galardão não será ganho no grito, pelo simples fato de sermos centenas de milhões em um território continental. Respeitabilidade internacional é um fenômeno endôgeno que refletirá nos olhos do mundo com constância depois de longos anos de crescimento sustentável, incluindo aí não somente invejáveis PIBs ou grandes reservas cambiais, mas um maior comprometimento educacional com resultados práticos, histórico de conquistas cietíficas amplo reconhecido e respeitável, melhores índices de qualidade de vida, liderança política regional incontestável, políticas públicas verdadeiramente comprometidas com processos sustentáveis e algo muito importante: arsenal  militar com capacidade de intervenção em missões de defesa e/ou ataque. Nesse dia o Brasil não precisará do apoio dos Estados Unidos ou de quem quer que seja; será convidado...

SANTOS E HERÓIS; CADA QUAL NA SUA EXATA MEDIDA.



Finalmente descansou o herói José de Alencar! Longos e longos anos de luta aguerrida contra a implacável doença e o espontâneo sorriso matreiro como que a desafiar confiantemente um inimigo invencível enlevaram a imagem de réles e impotente mortal à indelével condição de quase santo.
            Bom, pelo menos é assim que historicamente o imaginário popular cria seus heróis. O homem comum, cidadão anônimo, atônito, pobre, ignorante, místico, sem esperanças, explorado e espoliado por um sistema cruel imposto pela pátria hostil; eternamente enjaulado em si mesmo, indefeso diante das dezenas de dentes das tantas bocas que querem cada qual lhe abocanhar um naco; não tendo melhor opção, cria heróis imaginários e bondosos, habitantes generosos de um mundo fantástico, onde tudo se resolve num passe de mágica e vilões não têm vez diante da clarividência de uma justiça celeste e etérea, que nunca existiu no seu mundo real. Alencar, em breve, beatificado aliviará o corpo e o espírito dessas vítimas da insana crueldade desse sistema exploratório mantido pelo Estado brasileiro perdulário, desorganizado e voraz.
            Mas a biografia histórica desse paladino nos delineia ainda outros parâmetros a considerar. Empresário de sucesso, homem dos mais ricos num país aonde setenta por cento da população vive de salário mínimo e não tem nem o primeiro grau completo, foi a nota que serviu de afinação para que o mundo acreditasse em Lula; o nordestino torneiro, pobre, sem formação, socialista, que virou presidente estadista do Brasil ultra capitalista. Alencar e Lula formaram a dupla com peso e estatura exatos para estabilizar o Partido dos Trabalhadores, encantar o povo e acalmar as elites. Protagonistas dos contrates, ambos souberam magistralmente domar feras tradicionalmente avessas uma à outra. Capitalistas e trabalhadores assentaram do mesmo lado da mesa regidos pela batuta de dois maestros tão diferentes nas origens e tão iguais nas dissimulações políticas. Enquanto Lula, o Robin Hood tupiniquim, dava sustentação ao torniquete dos juros mais altos do mundo, cobrados inclusive dos tantos pobres que sempre o apoiaram e alegrava banqueiros e outros sortudos, Alencar vociferava contra tamanho despropósito, agradava seus pares empresários e, de quebra, arrebanhava novamente fortuitos dissidentes que porventura pudessem querer abandonar o barco do governo e dos partidos que o sustentavam. Esses dois foram tal qual mão esquerda e direita, uma lavava a outra, uma dançava com a outra a valsa do vem cá meu bem sem nunca saírem do compasso.
            O Brasil; uma das maiores potências econômicas do mundo como também uma das maiores impotências no campo social com seu IDH (índice de desenvolvimento humano) comparado ao de alguns países africanos, que cobrou bilhões de CPMF para a saúde dos cofres públicos, porque a saúde dos pobres de Lula vai de mal a pior e continuam morrendo nos corredores dos inospitais brasileiros; assistiu ao sofrimento do seu vice-presidente José Alencar, o homem de grandes exemplos, cuidado por uma das melhores equipes médicas do mundo, num dos melhores hospitais do mundo. Ele era sim um homem admirável, honesto, trabalhador, vencedor, corajoso, tenaz; fortaleza inabalável diante das garras afiadas da moléstia incurável, mas não podemos nos esquecer que para um homem das suas posses e do seu status tudo ficou muito mais fácil. Qual dos brasileiros, desses tantos pobres miseráveis tratados como animais nos hospitais públicos, que se encantaram com sua postura remida diante da dura realidade, choraram e se lamentaram por seu sofrimento e desaparecimento, poderia contar com a logística gigantesca, translados aéreos, a dedicação sobre humana de tantos médicos a tempo e a hora e ainda arcar com os custos astronômicos com diárias hospitalares de primeiro mundo, medicamentos, aparelhos e tecnologia importados de última geração e vanguarda?
            Obviamente que a resposta é esta que todos estamos pensando. Mas deixemos que nosso povão inocente, mal informado, incapaz pelo menos de juntar idéias e fatos que aí estão à disposição de qualquer um portador de inteligência mediana continue acreditando em fadas, duendes e santos do pau oco, pois as próximas eleições batem às portas e os políticos fichas limpas e sujas precisarão de generosos votos.

DEUS EXISTE?

             Crer em Deus é nada mais que um ato de fé. Ter convicção na existência de algo que ninguém nunca viu, nem tocou constitui-se num exercício de pura subjetividade, que, certamente, o homem pela sua capacidade de pensar e conseqüentemente questionar, necessite para explicar o que não pode compreender. Deus então, seria a personificação de algo intrincado e mágico. Simples e confortante, para aplacar a ansiedade humana diante do que foge ao entendimento e controle.
            Tamanho simplismo, no entanto, é incondizente com a insaciável satisfação humana, como também com a grandeza que a entidade Deus encerra. Surge então, a associação da idéia de Deus com o medo. O medo, um dos gigantes da alma, associado à grandeza de um Deus punitivo, capaz de controlar a natureza – às vezes revoltosa e assassina – ao seu bel prazer, introduzir doenças mortais e devastadoras e castigar com desventuras e azares de toda ordem.
Nessa torrente imaginativa entra em cena o maquiavelismo humano e cria-se a conveniente imagem do Deus político que comprava a fidelidade dos homens com indulgências e que, por outro lado, também podia condenar às chamas ardentes do inferno aqueles que não cumprissem à risca as determinantes do poder estabelecido. Estava instituída a forma mais sórdida de controle humano de que se tem notícia e em nome desse Deus seletivo e mal, os poderosos condenavam sumariamente aos horrores da fogueira ou da guilhotina aqueles que, pelo menos, não lhes fossem simpáticos.
            Felizmente com a instituição do código internacional dos direitos humanos, com o aprimoramento democrático e o burilamento cultural, a humanidade vem se libertando desses grilhões mentais de que foi vítima por milênios e crer ou não em Deus deixou de ser um ícone de conduta ou de comportamento passando a ser um valor de foro íntimo e nada mais. 
            Mas as igrejas, e quando falamos delas nos referimos em cheio à igreja católica, pois é a mais influente e antiga; ainda têm em seus quadros homens que conservam ou, pelos menos tem saudades, daqueles velhos tempos em que Deus era a corda da guilhotina ou a lenha da fogueira. A tudo condenam como se fossem os donos da verdade, pouco se importando com os impedimentos que suas doutrinas falaciosas interpõem ao desenvolvimento humano-social da humanidade. São contra o controle da natalidade num planeta que não tem condições de manter índices populacionais crescentes; talvez porque sejam a favor da fome, da violência social e da indignidade a que a miséria submete o ser humano. Ou ainda, sejam a favor da perigosa destruição da natureza pelo pressionamento sobre as reservas naturais por absoluta falta de espaço e de opção de trabalho onde as oportunidades de executá-lo já tenham se esgotado. Se pudéssemos contatar aqueles que ainda estejam por nascer e lhes mostrássemos a realidade da sociedade cruel e seletivista e lhes fosse dado o poder de escolha, será que quereriam, mesmo assim, vir para o vale de lágrimas e ranger de garfos em panelas vazias ou de costelas debaixo de pontes? Segundo a lógica que vem governando o universo há, pelo menos, uns quinze bilhões de anos, acho que não; contudo, segundo os espíritas, eles viriam mesmo sem querer, a fim de expiar as faltas que cometeram na última passagem. Quando me refiro à lógica universal é porque ela é inteligente e racional e o sincretismo que nos vitima é débil e irracional.
            “Graças a Deus” no meio de tantos cegos sempre há alguém com boa acuidade visual. Outro dia, numa celebração ouvi um sermão em que um padre sábio e inteligente criticava aqueles que vão sempre às missas dominicais e que durante a semana não praticavam o amor, este sim aconselhado pelo Deus bom no qual acredito. Dizia ele: “...a melhor missa é a convivência fraternal. De nada adianta estar aqui todo dia ou todo domingo comungando com carinha de santinho e no caminho passar por um irmão esfomeado e não lhe estender a mão. Cristo é aquele que lhe pede socorro. Quem não for capaz de enxergá-lo que fique em casa que lá é o lugar dos egoístas e falsos cristãos...”
            Deus, portanto, existe nessa filosofia da fraternidade e na sintonia que ela tem com as leis que equilibram o universo. Quando deixarmos de temer Deus pelos castigos e malvadezas que ele possa nos impingir e passarmos a amá-lo e até enxergá-lo na arte universal que nos acerca figurada no irmão que passa, na flor que desabrocha, nos astros que povoam o universo aos bilhões separados por distâncias descomunais, na dinâmica da química que transforma elementos lhes dando múltiplas formas e cores, na sinergia dos átomos diminutos que  formam os gigantes do universo, na natureza mantenedora da vida que nada mais é que o próprio espírito de Deus, que abrigamos em nosso corpo temporal e mortal; estaremos aptos a nos libertar da “miséria humana”.
            A vida, esta sim, a própria imagem de Deus. Um fenômeno metafísico. Não podemos considerá-la uma ficção porque mantém nosso corpo ativo no espaço e no tempo. A ciência moderna com toda sua miríade de conhecimento não pode explicá-la. Talvez ouse apenas conceituá-la. Os cientistas não reconhecem tacitamente, porque temem críticas e preferem abstrair-se deixando aos colegas do futuro a tarefa de fazê-lo. Mas sabem que nunca farão, pois a ciência atua baseada em elementos concretos e a vida, apesar de ser uma realidade concreta, não é um elemento, mas um dom. Uma vez que não existam dons físicos, obviamente é um dom abstrato e, portanto, divino. A ciência conhece a composição físico-química de qualquer ser vivente. Ela poderá, e já está fazendo, manipular células e, no futuro próximo, até os genes, mas com a vida ela não se envolve. Seu espectro permanece um fenômeno que se transfere espontaneamente de um meio a outro, quando há condições para tal. Se assim não fosse estaríamos fabricando ovos capazes de originar novas aves ou mesmo produzindo sementes férteis como as naturais.
            Deus existe! Devemos acreditar piamente nisso porque existimos, e na sua sublimação maior Ele ainda nos dotou de razão e de liberdade de ação e escolha. O homem ser uno no universo com estas características. Nem os corpos ciclópicos do cosmos são dotados dessa capacidade, e estão obedecendo a uma prévia ordenação.
Partindo dessa premissa devemos concordar com a preocupação das igrejas com a preservação da vida, mas devemos discordar dos seus métodos manipuladores de amedrontamento diante de um Deus retalhador. Concordamos com a preservação da vida no seu ninho, ou seja, no ventre; mas discordamos, quando se trata da sua indução irresponsável e inconseqüente. Condenar o uso responsável e asséptico de métodos anticoncepcionais é também condenar a vida a um reles lugar no altar universal. 

EXTRA! EXTRA! CASAMENTO NO CÉU!




            Depois de longo namoro, os galãs ITAU e UNIBANCO resolveram se unir em matrimônio e, ao que tudo indica, para sempre. Afora a paixão inicial e as doces emoções dos primeiros beijos e trocas de carícias, sem contar, obviamente, as inconfessáveis emoções e particularidades das primeiras noites passadas juntas; as únicas dificuldades que encontraram foram apenas duas: primeiramente o receio de macular os sólidos valores sob os quais foram criados, severamente implantados e cultuados pelos nobres vovôs e depois a incerteza da reação dos amigos diante da estrondosa notícia. – Um casamento gay entre dois cavalheiros acima de qualquer suspeita. – Como pode a natureza, por vezes tão dadivosa, pregar essas peças difíceis de entender e, quando mais, aceitar?!  Dois supostos espadas, belos, nobres, cultos e bilhardários; se entregarem a essas paixões pueris, ainda por cima homossexuais; próprias dos mortais de carne e osso sempre carregados de banais emoções.  
            Tão difíceis decisões capazes de revelar antigos e quase inconfessáveis conflitos existenciais, sempre geram muita polêmica no mundo financeiro, tradicionalmente um reduto de machões. Mas depois que nuvens benfazejas e cores de rosa da modernidade pairaram sobre as cabeças desses cavaleiros sisudos e monossilábicos, trazidas pelos ventos da união dos também recém-casados Santander e Real; era chagada a hora da retumbante revelação. Afinal de contas, sob o som da trovoada da quebradeira mundial a oportunidade se revelou e o faro comercial vislumbrou oportunidades imperdíveis. Diante do cavalo encilhado Setúbal e Moreira Salles correram lado a lado, a fim de revelar orgulhosamente ao mundo, o matrimônio benfazejo. Agora a ordem é esquecer tudo e ser magnânimo:
“ – Sabemos que não poderemos ter netos, mas em compensação nossos filhos poderão adotar um bando de banquinhos quebrados abandonados em algum orfanato americano por lá ou aqui mesmo”.
            Há outros lugares onde também se encontram muitos banquinhos quebrados. Basta uma incursão em algumas praças urbanas ou em muitas escolas estaduais, que estão mesmo é com tudo quebrado. Existem banquinhos negros, brancos, mulatos e até albinos. Com aquela dinheirama toda não sobrará banquinho, nem prá reclamar da má sorte.
            O Jorge W Bush ficou feliz quando soube da intrépida união e como já sabe que ficará desempregado e esta morrendo de medo do Bin Laden, mandou currículo e já adiantou que está aceitando emprego até de babá de qualquer banquinho, que, por ventura, seja adotado pelo jovem casal. A única coisa que não abre mão é de um salário igual ao de presidente dos Estados Unidos. O casal, obviamente mandou seus assessores polidamente dizerem que será muita honra ter uma babá ex-presidente americana.
            Com toda essa movimentação na alta esfera bancária sentimental agora o ministro Meirelles esta às voltas com o Banco do Brasil que não se conforma com o segundo lugar do hanking e cismou de se casar com o Bradesco, que, com todas as letras se declarou heterossexual. Se fosse o caso toparia juntar os dinheiros com a Caixa Econômica Federal. A Caixa, por sua vez, levantando-se da cadeira com aquela sua grande poupançona de dar inveja em qualquer banco gay, saiu requebrando e disse que seu coração já tem dono. Esta apenas esperando o Salvatore Cacciola sair do xilindró para se juntar com o Marca; aquele banquinho quebrado sem vergonha do tempo do Proer.
            Falando em Proer o FHC logo entrou na conversa e quis saber do que se tratava. Logo foi recebido com toda pompa, pois ninguém ainda esqueceu quanto bem fez sua maxidesvalorização; aquela do real, na véspera da sua reeleição, quando uma avalanche de dez bilhões de dólares rolou Brasília abaixo enchendo os cofres dos banquinhos quebrados da época em que o Brasil vivia esmolando no Fundo Monetário Internacional e que os neoliberais se diziam sociais democratas.
            Aliás, esse FMI não manda mais nada e o Brasil, que agora só pede dólar emprestado para o Federal Reserve, o popular FED. – fede sem ‘E’ no final, lógico, senão ninguém agüenta – declarou, pelo seu ministro da fazenda, o Sr. Manteiga Sem Sal, que não conversa com banquinho quebrado, muito menos com Fundo sem fundo.  Imaginem um fundo raso que dispõe de pouco mais de trezentos milhões de dólares para emprestar, navegando numa maré de prejuízos mundiais da ordem de quarenta trilhões de dólares!
            O presidente Lula retornando, todo feliz, de mais uma aula de socialismo roto em Cuba foi logo dizendo ser o responsável pela solidez do mercado financeiro brasileiro e comemorou a nova parceria que a Federação Nacional dos Produtores de Frutas Tropicais está para fechar com a Bayer. A dupla esta lançando no mercado internacional o ‘extrato de viagra com banana’, que promete ser um sucesso de vendas. A bananada brasileira nunca mais ficará mole! O garoto propaganda será o vovô republicano John McCain e seu bengalão trepador velho de guerra, mesmo tendo perdido as eleições americanas.              


SÃO FIDEL E O POPULISMO HIPOCRITA

 
       
  Em breve o povo cubano estará comemorando um século de ditadura. Cinqüenta anos sob a batuta do ditador Fulgêncio Batista, um pró-americano; e outros cinqüenta sob os ditames do pau furado do mocinho rico e bem intencionado Fidel Castro; um pró-soviético.
            Os ditadores e suas histórias são sempre a mesmas. Surgem como salvadores da pátria em momentos de fragilidade política extrema, quando a ordem social esta cambaleante, a esperança exaurida e a sociedade se encontra perdida pela carência de confiança em seus líderes.  Como não podia ser diferente, Fidel seguiu a mesma cartilha. Vindo das matas de Sierra Maestra sobre uma coluna de tanques ele e seus camaradas partiram sobre Havana, com o apoio do povo, depuseram o ditador e se instalaram a fim de restaurar o estado de direito e a esperança.
            Mas o que ninguém podia imaginar é que ele trazia na cabeça o vírus da filosofia Leninista do “cala quem tem juízo” e na manga a carta cruel da traição à confiança dos camaradas companheiros e do sofrido povo cubano. Assim que assumiu o poder, rompeu com os Estados Unidos, alinhou-se ao comunismo soviético e institui a lei do paredão de fuzilamento para todos que pudessem colocar em risco a hegemonia das suas idéias de autoritarismo e de massacre aos ideais de liberdade que o conduziram ao poder.        
            Fora a sombra ameaçadora dos pelotões de fuzilamento e da imposição de condenações sumárias, cassou direitos básicos de liberdade, transformou-se no maior falastrão dos tempos da guerra fria colocando em rota de colisão, por algumas vezes, as duas super potências e paralelamente a isso, transformou seu país numa das nações mais pobres e alienadas do planeta.
            Mas Fidel, com aquela sua cara de general pestalose, sempre foi um homem de sorte. Conseguiu tudo que quis na vida. E ainda como recompensa da sua história macabra é quase que venerado por um bando de acadêmicos mauricinhos de barriga cheia, que aqui são contra qualquer tipo de controle, mas que adoram viajar a Havana e da janela dos hotéis de luxo para turistas, admirar a cidade com ares de metrópole dos anos cinqüenta, vitimada pelo pior tipo de censura: o cerceamento ao desenvolvimento tecnológico e cultural. Deveriam aproveitar a proximidade e dar um pulo em Miami, a fim de visitar os exilados cubanos que lá vivem e conhecer histórias infernais de vida daquelas pessoas que perderam até o direito de enviar e receber cartas, mas que pelo menos, vivem felizes pela conquista da liberdade e da dignidade.
                        São Fidel hoje é um octogenário e esta à beira da morte. Ainda bem que com o tempo e o câncer ninguém pode. O povo cubano esta ansiosamente esperando seu fim, para comemorar torcendo para que o fiel escudeiro e herdeiro, Raul; tenha um pouco mais de compaixão e um pouco menos de ambição pelo poder totalitário. E vejam, que mesmo diante de tantos maus exemplos, o populismo sempre mal intencionado e desta vez inspirado no estilo castrista de governar e até de se expressar, vem crescendo na América Latina a cada dia. O método é o mesmo: incendiar as classes menos favorecidas contra o domínio capitalista para depois impor o domínio comunista. Infelizmente a América Latina é assim mesmo. Estamos fadados a ser o quintal do mundo para sempre. Quando vamos entender que essas idéias marxista-leninistas mirabolantes e falsas faliram até o estado soviético e que a China esta de mãos dadas com o capitalismo e sua benfazeja evolução educacional e tecnológica, pois enxergou que a única forma de sair do atraso milenar é tomando esse caminho? Quando  vamos nos lembrar que a Coréia do Sul, já ultrapassou sua irmã do norte e hoje está em pé de igualdade com as grandes sociedades capitalistas do mundo, simplesmente investindo maciçamente em educação, em probidade e no bom relacionamento com o resto do mundo e que a receita foi a mesma usada pelo Japão e pela Alemanha depois de serem totalmente destruídos? Quando  vamos entender que esses políticos portadores de ideais atrasados de igualitarismo através do sensacionalismo, da perseguição ou do assistencialismo são mentirosos e aproveitadores da carência material e cultural da sociedade e que o mundo moderno e tecnológico exige que as pessoas sejam cultas e bem informadas, diante de sistemas de produção que há muito dispensaram a foice e o martelo, porque os substituiu pela cibernética, pelo computador e pelo cérebro capacitado para interagir nos meandros da alta tecnologia?
            Daqui a algum tempo Fidel estará morto e esperamos que com ele seja enterrado seu estilo obsoleto e que nossos políticos compreendam que o populismo travestido de cordeiro deve fazer parte apenas dos ornamentos do seu jazigo. É imprescindível ainda que o esqueçam e que pelo menos não induzam as massas a transformá-lo em santo, porque aí será duro agüentar. Aliás, já basta termos agüentado vê-lo por aqui várias vezes comendo acarajé recepcionado carinhosamente como se tivesse mãos limpas e fosse o paladino da democracia que tanto lutamos para conquistar. Apesar da nossa “imprensa livre” não ter tecido maiores comentários sobre o abandono dos jogos olímpicos pela delegação cubana sem motivo aparente - toda com cara de cachorrinho com medo do dono - ficamos indignados com a atitude desrespeitosa, mesmo sob os holofotes do mundo e pudemos imaginar o que estava aguardando aquelas pessoas ao desembarcarem em Cuba. Foi demais ver outros dois cubanos serem deportados pelos populistas brasileiros pelo simples crime de almejarem a liberdade. É sempre muito duro ver seres humanos acuados em embarcações precárias tentando se livrar das garras de Fidel e seu comunismo roto correndo o risco de virar petisco de tubarão. Ë um “holocausto” tolerado porque ninguém se atreve a criticar as ações de São Fidel. Pelo menos abaixo do equador os populistas só enxergam o que lhes interessa.        



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HERÓICOS ESTUDANTES BRASILIENSES



           
            Há alguns meses este jornal publicou a crônica, também de minha autoria: BRASIL, CELEIRO DE CONTRAVENTORES. Pelo título emblemático não é difícil perceber a grande dose de indignação que permeia o coração de um brasileiro amante da sua terra e, por isso mesmo, preocupado com o caráter sistemático, até certo ponto banal que a prática de roubar vem sendo incorporada aos nossos costumes e, porque não reconhecer, também à nossa cultura.
            Será possível que todos nós carregamos o traço hereditário capaz de nos fazer atropelar todos os preceitos éticos sempre que estivermos diante de eventuais oportunidades? O caráter interpelador da questão pode até parecer desrespeitoso, entretanto qual a outra conclusão a que se pode chegar diante do show que temos diariamente assistido, praticado, não por pessoas desclassificadas que não tiveram oportunidade as quais temos o costume de rotular como de segunda classe; mas por homens da mais alta estirpe, detentores de prerrogativas principescas, salários astronômicos e pose de baluartes da moral e dos bons costumes?
            O cidadão comum no Brasil, transformou-se num palhaço diante do bombardeio diário de escândalos pipocando por toda parte. De um lado é espoliado sob um sistema tributário estrangulador e por outro estuprado por um bando de salafrários com eira, beira e muita cara de pau. Não respeitam nada e ninguém. Com que palavras conseguem explicar tanta picaretagem para seus familiares? Imaginem o filho reprovando o pai reitor:
- Eh papai da próxima vez, veja se pelo menos roube e agüente carregar.
E o outro questionando o pai juiz:
 -  Papai, por quanto você vendeu sua honorabilidade?
 - Valeu nossa casa em Miami, filhinho!...
            Contudo, para o cidadão comum, penso que pior ainda não é ver seu dinheiro extraviado, mas ter roubada sua confiança em seu próprio país. Como continuar vivendo, investindo, trabalhando, educando filhos, tendo esperança; numa sociedade de crápulas onde as punições na maioria das vezes são tênues, tendenciosas e facilmente dissipáveis diante do poder político-econômico, e de desculpas esfarrapadas e despidas da menor dose de lógica e bom senso? Este cidadão, diariamente assentado em seu sofá, é submetido a uma saraivada de sustos com os absurdos que vê e ouve; estupefato sente-se impotente, presa fácil diante do apetite voraz dos chacais da ilegalidade, confortavelmente estabelecidos em tronos que não lhes pertencem, mas que usufruem como se donos fossem. A verdadeira impressão que se tem é a de que “deu-se a louca no mundo”.
            Nossos marginais engravatados são profícuos em ponderações que não se sustentam diante da menor investigação e ainda por cima propagam que tiveram as contas aprovadas por este ou aquele tribunal de contas, como que se estivessem diante de tribunais de idiotas que nada fazem além de corroborar erros crassos displicentemente premeditados.
            O tal verbo “roubar” tem sido conjugado em todos os lugares, tempos e pessoas de forma tão descarada que ninguém mais acredita que possa existir alguém imune a sua contaminação. Outro dia, por incrível que pareça, ouvi alguém dizer a um velho aposentado pobremente, de forma incisiva e humilhante: - “Bem feito, a culpa da sua pobreza é sua. Quem mandou ser honesto a vida toda?” Aquele honesto pobre simplesmente chorou...
            Mas felizmente, há sinais de luz nas trevas, quando parte da nossa juventude demonstra-se bem consciente e aparentemente ainda não foi contaminada pelo gene da roubalheira. Tenazmente enfrentou o paredão de desrespeito àquela academia brasiliense, com a bravura característica dos donos da razão. Tanta razão que ninguém se atreveu a arrancá-los de lá!
            Honras ao mérito para aqueles intrépidos estudantes, imunes ao medo, certamente, por não estarem ainda submetidos às responsabilidades e pressões inerentes à vida adulta e profissional. Parabéns ao ministro da justiça que não permitiu que a truculência prevalecesse, a fim de acobertar os conluios de um dos ladrões da boa fé do povo brasileiro. Salva de palmas aos jovens promotores e ao Ministério Público que com uma simples nota fizeram lembrar o senhor reitor larápio que seu nome já constava na lista negra por outros crimes do mesmo teor, arrefecendo de uma vez por todas seu ânimo de assaltante oficial.

HOMEM A IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS - MEU PAI ANTONIO CECILIO



Certamente muitos de nós não tenhamos nos apercebido do quão profundo é o sentimento de sermos à imagem e semelhança de Deus. Confesso que demorei a entendê-lo e que o peso insondável da dúvida atormentou-me a consciência dolorosamente por muitos e longos anos. Seriam esses seres expugnáveis tão impuros, capazes de odiar, destruir, matar e desarmonizar; réplicas fieis de um Deus que Se sublimou no amor através do seu próprio sacrifício de humildade e de dor?
            Ora, na lógica pobre de um jovem imaturo tudo não passava de uma balela, fruto da imaginação humana pródiga em tentar dar formas físicas às subjetividades, ainda que divinas; aquela espécie de mecanismo psíquico a que o homem se vale para criar mitos e usufruir da falsa sensação de controlador de todas as coisas.
             No entanto, com o passar do tempo, auxiliado pela clarividência que nos proporciona a idade da razão, pude compreender, através do convívio com meu pai e sua inquebrantável determinação de honrar a verdade em prol do amor e da justiça aos mais fracos; que a pedra fundamental da existência humana é assemelhar-se a Deus pela solidariedade e doação de si próprio.
            Carrego na lembrança os indeléveis momentos que ele se fazia parecer com Deus, quando ruborizava-se ao ouvir agradecimentos efusivos de ex-alunos, clientes ou mesmo de um ou outro qualquer beneficiado pela sua eterna e terna atenção.
            Sua semelhança com Deus fazia-se notar através da conduta irrepreensível de um homem que acompanhou seus pais brandamente até o leito de morte e que jamais lhes desonrou o nome, o qual herdamos e que também aprendemos a honrar pela força do seu caráter e da sua moral cívica, a qual não relacionava-se à mentira, ao débito sem quitação, ao mimetismo político dos demagogos e falsários, ao adultério e nem muito menos ao proselitismo e ao pedantismo fútil cultivado pelos pobres de espírito.
            Nos anais da história de sua vida não constam grandes obras materiais, invejável espólio, saldos monumentais, nem acervos, nem coleções raras. Com certeza, e posso atestar oportunidades várias não lhe faltaram, as quais delicada e energicamente rechaçava. Construiu sua vida como fruto do trabalho honesto, franco, produtivo, estóico; baseada na dinâmica cristã do “é dando que se recebe”.
            Este homem, imagem de Deus, não perece. Sua lembrança vicejará nos corações dos amigos que o conheceram, nos dos que se beneficiaram da sua fiel atenção e nos nossos, a sua orgulhosa família. Até seus desafetos, com certeza, aqueles que não conseguiram demovê-lo de suas convicções nobres, serão obrigados a calar, pois passarão por mentirosos, caso neguem a verdade pública.

HOMENAGEM DE ANIVERSÁRIO AO PAPAI CECÍLIO em 21/06/2001.


Pois é, hoje mais uma vez aqui juntos em família, comemorando o seu aniversário! Que felicidade! À primeira análise tudo nos parece repetitivo. Todos os anos a mesma coisa. Parabéns para você, salva de palmas, abraços, uma pequena reunião e no fim do dia tudo se acaba. Estabelece-se novamente a rotina diária e a única coisa certa é que ficamos mais velhos, mais próximos do fim. Essa talvez deva ser sua avaliação sobre o círculo vicioso anual do tempo e do espaço.
            Pensamos e sentimos assim, porque erroneamente somos produto de uma sociedade superficialista e fútil, meio fértil apenas para o efêmero, onde somos ditatorialmente induzidos à valorização das aparências de quilate brilhoso da baixa temperança de caráter, um sistema onde tudo tem preço inclusive valores imemoravelmente sublimados como vida, honra, amizade e amor. A vigilância permanente é a única forma de nos mantermos incólumes às investidas contundentes e constantes desse sistema que se abastece e se farta da ignorância e da miséria material e espiritual.
            Estar, portanto, aqui e agora comemorando seu natalício e cumprindo a agradável rotina, cultuando nossos valores familiares é a forma mais eficaz de combate à contracultura. Estamos orgulhosos de tê-lo cada vez mais velho e saudável ao nosso lado. Poder comemorar esta idade é dádiva divina. Quantos sucumbem muito antes vitimados por doenças e outras desventuras? Haja visto nosso estimado irmão e cunhado Paulo, um jovem que lutara obstinadamente pela vida tendo-nos oferecido, através do seu sofrimento, grande oportunidade de amadurecer e valorizar o fato de poder envelhecer.
            Há setenta anos, nascia você num mundo prosaico para os parâmetros de hoje, sem parabólicas, celulares, computadores, jatos, bioengenharia e outras parafernálias tecnológicas, mas com certeza, muito mais humano e menos escravizante. Seus pais: um imigrante árabe e uma cabocla provinciana, folclórico e rude casal, vovô Ibrahim e vovó Maria; que apesar de desprovidos de qualquer burilamento intelectual, foram capazes de incutir em sua mente e em seu espírito grandes valores morais e espirituais, herança que você soube nos repassar com obstinada maestria. Temos muito orgulho da nobreza desse nosso tronco que nos ofereceu você, para que pudéssemos existir.
            Sermos seus filhos foi sempre grande honra. Lembro-me dos nossos tempos de infância, quando naquelas frias e brilhantes manhãs de domingo você surgia na porta da  cozinha cheirando a “água velva” enfatiotado em elegantes ternos de tropical inglês, pisando firme e barulhento nos saltos do “samelo” de cromo alemão. Era uma visão do quarto mosqueteiro! O homem mais forte do mundo, mais capaz, que todos respeitavam e que nos protegia contra tudo.
            Na minha visão de menino você parecia invencível, todo poderoso, o super-homem. Era confortável sentir e desfrutar da segurança que nos oferecia. Nosso passado ao seu lado é uma epopéia gostosa e divertida e daria um bom épico. Viagens, pescarias, sessões de seriados como “o imortal, corda bamba, o incrível hulk e kung fu”. Havia ainda os memoráveis farwests com aventuras incríveis dos mocinhos, que você dizia serem seus amigos.
            O tempo passou e não somos mais meninos sonhadores. Você do alto dos seus setenta anos é apenas um homem de dimensões normais, muitas das vezes vencido pelas frustrações e desilusões. Mas está aí, ainda, no seu posto de timoneiro desta família, ajudando, se preocupando, impertinente e apaixonadamente. Às vezes reclamamos um pouco, mas no fim aceitamos, porque sabemos que no seu peito há um reator atômico, que explode de amor por nós.
            Hoje sou um homem e como tal tenho momentos de fragilidade, fraquezas e incertezas. Mas nestes momentos de maior vulnerabilidade, saber que você existe é como um oásis. Um simples telefonema, uma troca de impressões, ainda que não compartilhemos do mesmo ponto de vista, é um alento, um parâmetro a mais e por fim, sei que mesmo errando o terei ao meu lado. A vida, com sua aridez, torna-se mais branda e amena com sua presença; sua casa sempre foi e será um porto seguro, refúgio para nossos corpos e espíritos cansados.
            Pai queremos que viva muito, que goste da vida, que se cuide mais, que se considere um vencedor. Tenha certeza disso olhando nos olhos dessas crianças, seus netos, sua descendência, seu sangue. Eles também precisam de você. Nós e eles o amamos. Mas, antes de tudo, gostaria que entendesse o verdadeiro sentido da afirmativa: – precisamos de você.   Não há aí nenhum sentido de compromisso, obrigatoriedade ou responsabilidade de sua parte. Há, sim, um sólido espírito de corpo, do qual seriamos muito menos capazes e vulneráveis às insolicitudes da vida sem você.
            Confesso que muitas vezes pedi a Deus que se tivesse que subtrair um de nós, que fosse eu o escolhido. Com certeza seria muito mais prazeroso morrer, que viver desprovido dos seus afagos, da sua presença, tal qual o filhote que perece no solo tórrido longe da brisa fresca que trespassa a árvore amiga.
            Não posso, nesse momento festivo, em que exponho os sentimentos mais indeléveis de minh’alma deixar de mencionar e exaltar Lúcia, minha maior amiga e amante leal, que muito também o preza e com certeza corrobora tudo que aqui menciono. Talvez a assuste um pouco a evocação da morte, mas desde já rogo-lhe perdão e sei que entenderá que digo isso porque sou movido a sentimentos tão profundos com relação a você e a esta família, que só um abraço bem apertado e um beijo em suas mãos poderão faze-la entender a extensão do que digo.
            Parabéns e muitos anos de vida.
            Do filho Antonio Kleber.

ELE PARTIU 8 MESES DEPOIS, NO DIA 24 DE FEVEREIRO DE 2002, VITIMADO POR COMPLICAÇÕES CARDÍACAS PROVENIENTES DA OBESIDADE, DA QUAL NUNCA ADMITIU SE TRATAR.

A EXAUSTÃO DA TERRA



            O princípio físico enuncia que dois sólidos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Aparentemente os gasosos se fundem, no entanto, nem neste caso há violação da lei física, pois ao microscópio as moléculas de ambos conservam-se integras e cada uma no seu lugar. Em assim sendo, toda vez que dois corpos se aproximam em velocidade se chocam e há deformação o que nada mais é que um afastamento de moléculas no ponto do choque, umas cedendo lugar a outras.
            O homem soube muito bem, através dos tempos, se aproveitar desse princípio físico e servindo-se dele criou engenhos capazes de facilitar sua vida. A compressão, por exemplo, responsável pela grande arrancada tecnológica que deu movimento às locomotivas, aos automóveis e alçou guindastes é o resultado do aprisionamento de um corpo em estado gasoso ou líquido que empurrado em um invólucro hermético para um ponto único pode movimentar pistões, engrenagens e rodas. O movimento, neste caso, é o primeiro estágio antes da explosão. Caso não haja movimento e a compressão se torne insuportável, em determinado momento haverá explosão e seqüente deformação. Este é o princípio básico de funcionamento das bombas bélicas.
            Assim também vem funcionando o processo de exaustão do nosso planeta por causa única de desrespeito àquele principio. Enquanto tem-se um espaço limitado e as previsões de desorganização natural iminente se anunciam calculam-se que daqui a três décadas a população mundial se aproxime dos dez bilhões de humanos. Prevendo-se que o maior percentual desse crescimento acontecerá nas regiões mais pobres, exatamente onde não se espera maiores providências preservacionistas e onde as populações tendem a viver cada vez mais do extrativismo natural; o bom senso diz que há necessidade premente da implantação de um eficiente controle do crescimento numérico da população humana no globo.
            Obviamente o avanço sobre importantes reservas naturais será proporcional à expansão do volume humano e não há nenhuma racionalização, ainda que todos os governos do mundo se unissem nesse sentido, capaz de reverter o caminho do caos, se não houver freio no crescimento das populações humanas nas próximas décadas. Um país como o Brasil, por exemplo, apesar de vir demonstrando tendência de queda nos índices médios de natalidade, deverá abrigar uma população próxima a 250 milhões de habitantes nos próximos vinte anos. Certamente haverá migração maciça para a Amazônia, Região Centro Oeste e Região Nordeste, exatamente onde se localizam os biomas remanescentes altamente sensíveis como é o caso da floresta tropical, do pantanal e do cerrado.
            O planeta somente suportará expansão populacional crescente, caso haja mudança profunda na função expropriatória a que o homem subordinou a natureza desde o início da era industrial. Isso, no entanto, não é tarefa fácil nem barata, pois demandará abnegação, tempo e caras pesquisas em novas tecnologias energéticas e de reaproveitamento de dejetos urbanos e industriais visando o equilíbrio auto-sustentável. As chaves que controlam a dinâmica natural, lentamente desenvolvidas desde os primórdios do planeta, já demonstram que sofreram alterações e que tais alterações trarão reflexos profundos, cuja intensidade o homem somente conhecerá com o passar do tempo. E à medida que conheça não estará preparado para enfrentá-los, uma vez que não pôde prevê-los, mesmo porque se caracterizam pela aleatoriedade de eventos e locais. Ou seja, são eminentes, e podem não acontecer aqui, mas acolá; ou mesmo não acontecer hoje ou amanhã, mas daqui a dez anos.
            Enquanto, por um lado, o tempo urge e a destruição dos sistemas vitais do planeta se configura no horizonte, as autoridades calculam o tamanho da freada financeira que precisam dar e os meios de comunicação colocam em debate iniciativas e providências cabíveis, por outro a população cresce a cada minuto em ordem progressiva tanto pelos recém-nascidos quanto pelo aumento da longevidade. Quando é que deixarão a hipocrisia de lado e passarão a informar aos novos candidatos a papais e mamães que o espaço e os recursos do planeta são finitos e que a compressão coloca a vida, que tanto dizem prezar, em sério risco. Não só a vida humana, mas a vida total. O planeta, talvez, sem vida fique menos divino e interessante, todavia em paz por mais alguns bilhões de anos. Ele não precisa de nós.

RESPOSTA A WAINER ÁVILA



Resposta à indômita luta deste idealista sanjoanense em prol do soerguimento do Panteão ao mártir herói Tiradentes.

            Amigo Wainer; tive o prazer de ler o texto de sua autoria; MEMORIAL DA LIBERDADE. Que obra prima! Algo de tal beleza e qualidade só mesmo poderia sair de cabeça e mãos da envergadura das suas. Você muito bem expressou a indignação pelo descaso com vulto histórico de tamanha importância; especialmente para nós, seus conterrâneos. É mesmo passada a hora de se fazer justiça àquele cujo gemido de agonia transformou-se no grito de liberdade, que certamente retumbará por todos os séculos.
O fato de tão justificada iniciativa não ter contado com ajuda governamental a abrilhanta ainda mais, pois demonstra que é possível cortar o pernicioso ciclo vicioso de dependência estabelecido desde tempos coloniais, aonde sobrevive a impressão de que sem a intromissão oficial nada é possível. Em assim sendo haverá maior lucro, pois não será possível aos demagogos de plantão tirar proveito imerecido.
            Sobre Minas; você foi simplesmente fantástico, quando diz que: “Minas não se explica, mas insiste em explicar-se”.  De pleno acordo, pois Minas não é nada sem seu povo; que se explica pela simplicidade, pela sabedoria nata, pela religiosidade e amor à política, pelo apego à família, pela mania de se fazer presente nas ausências de justiça. E sublimou-se, lá, naquele quase último parágrafo, quando oportunamente lembrou que: “... o que incomoda é a versão didática da conjura e a apresentação do Memorial dá ao público o direito de falar”. Exatamente o que os ditadores e muitos falsos democratas não gostam: ouvir a expressão popular.

Parabéns! Estamos torcendo pela longevidade do Sr. Niemayer e pelo sucesso total da empreitada. Se possível sem ajuda governamental. Será mais doce e inodora.

"CHINA UM EXEMPLO DE DEMOCRACIA"

Carta em resposta à publicação intitulada “CHINA UM EXEMPLO DE DEMOCRACIA”


Sr. Giuseppe Tropi Somma:

            Antes de tudo, devo lhe pedir desculpas pela liberdade e invasão de privacidade. Posso lhe garantir que não o fiz tão somente pela indignação diante do bombardeio de incontáveis fatos grotescos que o mundo moderno nos expõe a cada instante, mas, simplesmente, pela divulgação do seu endereço eletrônico ao pé do texto “CHINA UM EXEMPLO DE DEMOCRACIA” assinado pelo senhor e publicado na revista Costura Perfeita ano X . nº 47 – ed. janeiro/fevereiro 2009.
            Caro amigo, se é que assim me permita tratá-lo, aprecio homens do seu calibre sempre preocupados com a dinâmica da vida moderna, tão cheia de predicados tecnológicos e, ao mesmo tempo, tão desprovida de moral, de ética e do salutar humanismo; há milênios recomendado para a conquista do mais sublime estado humano: a felicidade.
            Acredito que progresso nenhum se justifique enquanto houver um só homem vivendo aguilhoado, esfomeado e desprovido de direitos básicos que lhe garantam dignidade. E é exatamente por aí que lhe impetro minha crítica. Como pode o senhor, homem bem informado e certamente conhecedor da histórica carnificina impingida pela ideologia maoísta a qual ainda hoje inspira as diretrizes dos governantes chineses, parabenizar de bom grado aquela revolução industrial revestida de belezas exteriores, mas que escamoteia mãos sujas de sangue e joga para baixo do tapete o lixo da miséria secular em que ainda vive a maioria dos seus cidadãos?
            Obviamente esta coberto de razão ao criticar as democracias ocidentais pelo seu descaso histórico com os menos favorecidos e ainda por acusar nossa falta de competitividade comercial pelos entraves tributários, pelo sufocante paternalismo trabalhista e, mais recentemente, pelos retumbantes gastos governamentais com o populismo assistencialista promotor da dependência, da ignorância e da passividade em troca de polpudos lucros e votos. Nessas condições é mesmo impossível competir com quem quer que seja muito menos com um país como a China, que não garante, nem direitos trabalhistas, nem quaisquer outros.
            A alcunha capitalista chinesa carrega em seu bojo a mesma face desafiadora e contraditória que sempre caracterizou as relações políticas do estado chinês com o resto do mundo. Como bom exemplo cito a supressão de milhares de empregos ao derredor do mundo – fato já mencionado pelo senhor – na esteira de salários aviltantes da ordem de menos de US$ 20,00 (vinte dólares) por mês; na prática da baixa qualidade industrial; no incentivo e patrocínio à pirataria predatória, criminosa e antiética; na destruição da natureza pelo uso de combustíveis fósseis de alto poder poluente e na perduração da falta de negociações políticas que resultem em verdadeiras conquistas democráticas.
            Os comunistas chineses e sua política modernizadora estão praticando a brincadeira do gato e da onça. O dia que o gato lhe ensinou todos os seus saltos foi comido. Assim também acontecerá com o capitalismo, seus investidores e tecnocratas que fazem vista grossa à tendência carnívora daquele regime. Estão robustecendo um país que detém uma das maiores extensões territoriais do globo, mantém o maior exército do mundo em tempo de paz, possui arsenal nuclear e claramente apóia e pratica políticas dominatórias, terroristas e expansionistas.
            Vejo um grande contra-senso em certas políticas. Observe que os Estados Unidos, que se dizem guardiões da liberdade, carro chefe da economia e do capitalismo mundiais, foram à guerra com o Iraque porque temiam seus supostos arsenais químicos. Combatem ferrenhamente o Irã e a Coréia do Norte pelas ameaças que podem constituir à segurança mundial; mas fingem ter a China sob controle, porque estão de olho no potencial do seu bilhão de consumidores. Estão domando um leão e devem mantê-lo sempre de barriga cheia, pois os bons domadores sabem que com fome feras podem enfrentar frágeis relhos.
            Como é possível confiar em um regime totalitário intolerante ao diálogo e à diversidade de idéias, sendo que é exatamente nesse substrato que proliferaram as grandes conquistas humanas? O senhor, por exemplo, pelo seu encantamento com os chineses, segue a cartilha americana de brincar com feras sujas de sangue. Será que é só por causa dos bons lucros que tem proporcionado as relações comerciais da sua empresa com aquele país? Se for só por causa disso sua razão é pobre. Faça uma visita ao Nepal, informe-se quais sãos os métodos de dominação aplicados por lá e cuide-se, pois um dia poderá ser sua próxima vítima. E não adianta reclamar, porque, nem os chineses, nem o mundo lhe darão ouvidos. Chineses merecem, são bons de transa e de um grande mercado.
            Se o senhor ainda não se deu conta, leia alguma coisa sobre a histórica revolução russa de 1917, cuja orientação comunista é semelhante à dos chineses, e confira o que aconteceu com os investidores e suas propriedades privadas. Quem nos garante que um dia os herméticos e insondáveis comandantes chineses não farão o mesmo? E quem poderá reagir se, pelas previsões, em pouco mais de vinte anos, serão donos da nação mais poderosa do planeta?
            Lembro-lhe ainda que todos os grandes caudilhos, assassinos e facínoras que a humanidade conheceu, um dia entraram ovacionados pela porta da frente. Veja o caso da Alemanha Nazista, da Rússia Bolchevique, da Itália Fascista, de Cuba Castrista, do Iraque de Sadan, até da própria Coréia do Norte e de tantos outros menos conhecidos. Até quando a humanidade continuará repetindo esses erros grotescos?       
            Deus proteja os Estados Unidos da América; dos males o menor, o salve da recessão o quanto antes e abra os olhos dos amigos admiradores de chineses.


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TEM SANGUE VERMELHO NA CASA BRANCA



            O imaginário em todas as épocas criou personagens habitantes de mundos utópicos, justiceiros capazes de voar, esbanjar super-poderes, combater sozinhos exércitos inteiros ou príncipes e belas adormecidas que com seus amores platônicos, proibidos e impossíveis, acabavam dando um jeito mágico, a fim do encontro do final sempre feliz. Essas são escapatórias que usamos toda vez que adernamos no mar das nossas fantasias, desilusões e frustrações. Então, se são estórias possíveis ou impossíveis, não importa; desde que estejam cumprindo seu papel de dar asas ao peso da sórdida realidade; às vezes, quase insuportável; são válidas. Assim funciona o mundo dos sonhos e sonhar é, certamente, a única seara humana a que os senhores donos do mundo nunca puderam, nem nunca poderão controlar.
            Mas a psicologia com suas teorias do pensamento positivo e outros segmentos científicos menos subjetivos têm nos provado com conquistas e realizações bastante concretas que sonhos não são apenas exercícios fantasiosos, utópicos e impossíveis e que associados à férrea força de vontade, à determinação, ao intelecto, à organização e à racionalização mais alguma dose de liderança e sorte; certos indivíduos podem transformá-los em realidades muito palpáveis e palcos de finais singularmente felizes.
            A história universal contemporânea tem registrados alguns exemplos antológicos dessa verdade. Lesc Walesa, o sindicalista polonês que enfrentou a cara feia do comunismo, pela coragem de fundar e liderar um sindicato de trabalhadores; inicialmente clandestino e resultado de um sonho fantástico de liberdade transformou-se no trapézio que o levaria à presidência da república libertando seu país das garras do Soviete Supremo. O líder negro sul-africano Nelson Mandela, desafeto dos brancos britânicos pelos seus sonhos de igualitarismo; nem a perseguição e os vinte e seis anos de clausura foram capazes de calar o grito de liberdade que retumbava em seu peito. Enfim, sucumbindo a pressões internacionais, os trogloditas brancos o libertaram e não puderam mais conter a vontade da maioria negra, que por voto direto o transformou no primeiro presidente negro da história daquele país. Mandela, hoje um nonagenário, ainda é voz ativa em prol da paz e dos  oprimidos. Há ainda exemplos menos emblemáticos, que caracterizam muito bem a força do sonhador no rastro de um ideal acontecendo também na América Latina com a ascensão de líderes como Lula, Morales na Bolívia e o ex-bispo católico D. Lugo no Paraguai.      
            Mas, outro dia, o mundo parou estupefato diante da vitória do zumbi americano, Barack Hussein Obama. Um negro mestiço, descendente de escravos importados à força, para compor a mão de obra e a escória daquela sociedade sectária. Homem do mundo, um protótipo universal, criado em vários países, quase cooptado pelo submundo. Estudioso, inteligente, detalhista, eloqüente, carismático, determinado e indignado com o status secundário dos seus iguais; em apenas quatro anos de vida pública partiu do anonimato à presidência dos Estados Unidos; cargo tradicionalmente ocupado por oligarcas brancos azedos* de sangue azul.
            Entretanto, no compasso do salutar ceticismo característico dos cautelosos, penso que por detrás de todo conto de fadas de final feliz, haja sempre boas lições a se contabilizar. A história comprova fartamente que o sofrimento é mola propulsora dos avanços humanos em qualquer área considerável e daí conclui-se que a sociedade azul americana jamais teria elegido um protótipo dos vermelhos, a sua presidência, em época normal. Aí entra o fator sorte; ele era o homem certo na hora certa. O lugar talvez não fosse o mais certo, se o país não estivesse caminhando de malas prontas para o abismo. Segunda prova disso é que mesmo diante da catástrofe criada pelo azul Jorge S Bush (S de stupid) a vitória democrata não foi tão arrasadora quanto devia ter sido. Penso que com a azul Hillary tivessem uma vitória mais substancial. Obviamente não estou tratando aqui de quem seria o melhor para os Estados Unidos, mas exclusivamente filosofando sobre verdades históricas e também sobre a lógica da ilógica estupidez humana.
            Outra conclusão óbvia a se chegar é que em qualquer sociedade, seja ela mais ou menos eclética, a segregação racial é sempre maior com os pobres e despreparados intelectualmente, ainda que sejam o fruto de políticas mal aplicadas e mal conduzidas. Barack Obama é um intelectual, rico e bem apessoado; negro, mas nem tanto quanto Jasse Jackson, Malcolm X ou mesmo o lendário Martin Luther King.
            Extrapolando do universo americano e vindo navegar nas praias da Terra Tupiniquim, aqui bem abaixo do equador, onde hipocritamente criticamos os azuis racistas americanos; não é muito difícil observar que a presença de vermelhos nos poderes públicos é vergonhosamente menor que lá. Nas fileiras do judiciário americano, há séculos, está presente o elemento negro (ou melhor, vermelho), sem contar o executivo com centenas de prefeitos e governadores rubros. O presidente Bush pai se utilizou dos serviços de um general negro, Colin Powell; assim como Bush filho teve como secretária de Estado a negra Condolissa Rice. Se suas excelências, caros leitores, têm melhor memória que a deste calculista que hora voz fala, por favor, lembrem-se de apenas um oficial general negro que tenha composto as fileiras das forças armadas do Brasil ou citem apenas um diplomata de terceiro escalão servindo o país mais africano do mundo depois dos africanos?
            E, para arrematar concluímos que o primeiro passo para se acabar com a segregação racial em qualquer parte do mundo deve ser dado rumo aos portais da escola, pois somente a cultura poderá purificar do estigma do tom da pele e arrefecerá brancos azuis carregados de culpa pelos genocídios históricos cometidos desde o arrastão escravista mantido por três séculos, cujos respingos nos emporcalham até hoje; a nós do sul e a eles brancos azedos azuis do norte. 


* azedo aqui não é pejorativo, pois está se referindo ao caráter britânico introspectivo, temperamental, fleumático, eternamente mal humorado.


UMA NO PREGO OUTRA NA FERRADURA


            Nós mineiros somos famosos pela maneira peculiar de falar, com sotaque caipira e palavreado rico em regionalismos, que, além de representarem muito bem a sabedoria popular e o caráter um tanto introspectivo do povo provocam certa pândega no forasteiro. Outro dia numa conversa informal com um amigo aqui dos cafundós, este usou um desses ícones do nosso vocabulário: - “pois é compadre, as coisas no Brasil são assim, dão uma no prego e outra na ferradura!”.  O forasteiro, paulista de aguçada atenção, mais tarde, longe do compadre, caçoou zombeteiramente: - lá em São Paulo, há muito, só batemos no prego, porque ferraduras já não mais existem.
            O amigo paulista riu-se do estranho simbolismo idiomático, mas finalmente esqueceu de chorar pelo ledo engano, pois no Brasil costuma-se mesmo perder tempo demais com “entretantos” em detrimento dos “finalmentes”, como diria Odorico Paraguaçu, o célebre prefeito de Sucupira. E Platão, que viveu há 2400 anos e nem chegou a conhecer os regionalismos mineiros, nem as paródias brasileiras, preconizou que a polêmica mal resolvida é prejudicial ao progresso e, portanto pode atrasar em muito os assuntos do interesse público. Assim vem acontecendo no trato da discriminação aos negros brasileiros. O Brasil é, com certeza, o único país do mundo que vem tentando limpar-se das vergonhas de um passado de massacre contra uma raça importante, que ironicamente compõe seu tripé étnico. Hoje sua população negra e branca encontra-se em equivalência percentual o transformando no país que abriga a maior população negra do planeta, superando todos os paises do continente africano. Entretanto no país mais mestiço do mundo ainda prevalece o preconceito velado e dissimulado e em combate a ele o governo vem bravamente introduzindo normas que reservem ao negro o lugar que merece. Campanhas educativas, cotas para afro-descendentes nas empresas públicas, nas universidades; incentivos fiscais para empresas privadas que empreguem negros, repressão severa aos maus tratos e atos discriminatórios, etc. A essas iniciativas poderíamos, sem sombra de dúvida, considerar a batida no prego; contudo, por outro lado, corre-se o sério risco de se prejudicar a eficiência do processo de conscientização e inserção pelas inúteis batidas na ferradura. É hilariante um branco numa matrícula universitária se declarar negro porque é afro-descendente. Ora, cor da pele é um estereótipo, que salta aos olhos, dispensando-se a necessidade do declarante se autocaracterizar. Obviamente um cidadão de pele branca deveria estar cometendo crime de falsidade ideológica ao se declarar negro apenas baseado na ancestralidade e na visualização de vantagens. Entretanto é o que vem ocorrendo com anteparo legal e potencial para causar atritos, alimentando a discriminação e incentivando o racismo no bojo da polemização de um processo que nasceu para cumprir objetivamente seu papel.
            Todavia o pior dos anacronismos ou o que poderíamos classificar como a maior das batidas na ferradura é o fato do governo não estar agindo da mesma forma na formação básica das populações negras. Apenas a minoria das crianças dessa origem reúne condições de se ingressar numa escola básica de bom nível; sobrando-lhes, portanto, a derradeira opção pela escola pública de má qualidade. Aí entra em ação a lógica elementar: quem começa mal termina mal e o futuro estará irreversivelmente comprometido. O jovem mal formado jamais competirá em igualdade de condições com aqueles embarcados na boa base adquirida na escola particular. Mesmo sob a proteção das cotas governamentais aplicadas tardiamente não atingirá o nível profissional exigido pelo mercado tecnológico e altamente competitivo; contribuindo sobremaneira para a perpetuação do círculo vicioso de despreparo profissional, discriminações, desigualdade salarial e conseqüentes frustrações pessoais.
            Infelizmente, no embalo do lamentável engano, a grande batida final será no prego do governo populista que engordará urnas pelos votos da comunidade negra impressionada com a bondade governamental.  Pois é, esses contos da carochinha serviram também para enganar os índios, que, por espelhos e enfeites baratos, perderam a vida, a liberdade e a propriedade da terra. Conclamo então nossos irmãos negros brasileiros a esquecerem dessas bobagens de cotas e outros penduricalhos e que exijam do governo menos batidas na ferradura e maior atenção com a qualidade no ensino básico; com mais disciplina, menos libertinagem, melhores salários, melhor logística, maior segurança, menos demagogia e menos hipocrisia; quanto aos resultados não serão imediatos, mas perenes. Para quem já esperou quatro séculos, que lute para corrigir a pontaria do governo e espere mais vinte anos.