APRESENTAÇÃO


O conjunto de trabalhos que o amigo leitor encontrará adiante foi produzido ao longo de alguns anos. Não posso aqui precisar quantos, talvez uns vinte. A grande maioria deles foi publicada no jornal A TRIBUNA SANJOANENSE, o semanário mais antigo de São João del-Rei, minha terra natal. Obviamente há uma cronologia de publicação associada aos acontecimentos que inspiraram as respectivas produções. Depois de muito pensar, se deveria mencionar datas, resolvi aboli-las, pois achei que correria o risco de tornar seu passeio um tanto dirigido e até cansativo. Posso imaginar alguém lendo algo retratando fato acontecido há anos! Talvez se sinta desmotivado. Então, no intuito de instigá-lo, apresento uma miscelânea de trabalhos recentes e antigos, a fim de lhe subtrair, de propósito, qualquer direcionamento e deixá-lo livre para pensar, buscando no tempo, por si, tal associação. Acredito ainda que dessa forma esteja incitando sua curiosidade à medida que avance páginas adentro. Sua leitura poderá inclusive ter início pelo fim ou pelo meio, que não haverá prejuízo algum para a percepção de que as coisas no Brasil nunca mudam. Ficará fácil constatar que a vontade política é trabalhada para a perpetuação da incompetência administrativa, obviamente frutífera para algumas minorias. Penso que, se me dispus a estas publicações, deva estar antes de tudo, suscetível a criticas e, portanto, nada melhor que deixá-lo, valendo-se unicamente das informações contidas no texto, localizar-se na história. Caso não lhe seja possível, temo que o trabalho perca qualidade perante seu julgamento pessoal. Por conseguinte, acredito que isso não acontecerá; a não ser que não tenha, a seu tempo, tomado conhecimento dos fatos aqui retratados. Procurei selecionar de tudo um pouco; certamente sempre críticas, porém algumas muito sérias carregadas de um claro amargor. Outras, mais suaves, pândegas e até envoltas num humor sarcástico. Noutras retrato problemas da minha São João del-Rei. Até cartas para congressistas em Brasília há. E em alguns pontos, para abusar da sua paciência, introduzi coisas muito particulares. Críticas à parte, nessas, apenas falo de mim, afinal, apesar de amigos, talvez nunca tenhamos trocado impressões sobre coisas tão pessoais. . .
Aqueles que me conhecem há tempos, sabem que sou um obstinado por política, apesar de jamais tê-la exercido diretamente. Motivos houve de sobra e numa oportunidade poderei explaná-los. Todavia, do fundo do coração, afirmo que tal paixão tem como motor um doloroso inconformismo por ver o Brasil tão esplêndido e tão vilipendiado; vítima inconteste dessa cultura avassaladora de demasiada tolerância à antiética imoral na administração pública. Comprovadamente este é o pior dos tsunames com potencial para ter retardado nosso progresso mais de três séculos e grande responsável pela perpetuação da pobreza de metade da nossa população, pelo analfabetismo total e funcional, pela violência social e pelo abismo intransponível que aliena gigantesco contingente, maior que um quinto da população do continente. Diante do inaceitável absurdo, impossível me conformar em silencio diante dos atos e fatos que vão vergonhosamente enxovalhando nossa história e nos deixando como um gigante deitado sobre o escravismo que a Lei Áurea não foi capaz de abolir. O título? Esse, talvez, seja o mais difícil explicar. Gritos sem ecos representam uma espécie de pedido de socorro do náufrago, que sabe que de nada adiantará espernear, pois não há interlocutores, não há socorro, não há saída, não há conscientização; mas, assim mesmo, grita-se.

Será um prazer receber sua visita e ler suas opiniões, elogios ou críticas.

Forte abraço!



quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

BARCELONA ENTRA DE GUARDIOLA E O SANTOS SAI DE PADIOLA


 
            Enfim, chegou o grande dia! Manhã de domingo, nada prá fazer, ansiedade toma conta e na contagem regressiva, minuto a minuto, cresce a expectativa do duelo arrebatador entre os ases Messi e Neymar. O time espanhol, pela precisão estratégica e intimidade com a vitória, já se tornara velho conhecido aqui na terra do futebol e nos demais quadrantes do mundo. O Barça e seu esquadrão internacional, em algumas décadas, se tornou lendário não só pelo talento dos jogadores, como também pelas somas astronômicas dos custos administrativos, mega-salários e todo o aparato midiático que o assedia na certeza de clicar, ainda que em mínimos furos, quaisquer segredos que venham reforçar a certeza de que o futebol, sem dúvida, é o mais belo e emocionante esporte dentre tantos. O Santos, ao seu lado, diante da inebriante mistura de sucesso e riqueza apresentou-se como David diante de Golias. A seu favor o brilho histórico dos fantásticos dribles do atleta do século, o rei Pelé; dois campeonatos mundiais, o título de Campeão da Libertadores 2011 e mais a presença esperançosa do garoto Neymar, sob sua monumental crista de galo e equipado da leveza do futebol moleque, zombeteiro, encantador, oferecido como dom inexplicável, talvez, pelo anjo do futebol de várzea, que protege e abençoa os garotos pobres que vicejam nos longínquos e invisíveis cafundós do Brasil.
            Como era de se esperar, pelo favoritismo e mesmo pela superioridade técnica, David fora à lona, esmagado como mosca. Quatro a zero e podia ser mais se o Barça estivesse nos seus melhores dias. A imprensa brasileira estarrecida com a letargia do Peixe, que mais parecia um time de pinóquios da quarta divisão, resolveu lançar a brilhante idéia de que o Leão da Vila, seu professor Murici e todos os brasileiros receberam uma aula de futebol e que daqui prá frente nossos mambembes futebolistas iriam se esforçar para lutar em campo nos mesmos moldes dos gigantes espanhóis.
            Particularmente confesso que, além do estarrecimento que golpeia minh’alma brasileira, ainda luto contra a terrível dúvida que paira na memória de quem já viu tantos shows de futebol, tão ou mais belos que este apresentado pelo Barça. Aí me pergunto: - teria sido melhor ser um jovem e acreditar nas aleivosias que estão cometendo com a mais brilhante história de sucesso futebolístico vista pelo mundo, tomando como base apenas o show de habilidade tática contra um peixe morto, tremendo de medo, sem a menor vergonha de concordar que precisaram ir tão distante, com custos tão altos, diante de bilhões de telespectadores, para tomar aula de futebol ou ser um velho, coroado das neves do tempo, para bendizer a honra de ter assistido aos shows apresentados pelas tantas seleções brasileiras que alçaram a Bandeira Auri-Verde ao podium cinco vezes, fora os vice-campeonatos, terceiros e quarto lugares, mais o contra peso das fileiras incontáveis de ases como, Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Gerson e tantos que a memória fraca e irreverente da nossa imprensa desportiva parece já ter se esquecido?
            Diante dessa dolorosa dúvida, tremo diante de mim, pelo asco de ser brasileiro e, além de ser obrigado a conviver com a lama escatológica que tomou conta da nossa sociedade, ainda ter que engolir graves injustiças contra aqueles que ofereceram seu trabalho honesto em nome do engrandecimento da imagem do Brasil. Urge, portanto, que se faça justiça àqueles gigantes do futebol, que há décadas veem alegrando a alma sofrida desse povo massacrado, por enfrentarem com garra, ginga, muita arte e responsabilidade as seleções mais fortes do mundo, aguerridas e muito focadas no objetivo de defender, não só a honra de sua pátria, como também a esperança alegre de seu povo.
            Não é necessário entender muito da arte do futebol para enxergar que o time espanhol joga futebol compacto concentrado no velho “todos por um e um por todos”, baseado no superpreparo físico possibilitando passes curtos quase que unicamente em dois toques rápidos e precisos, cuja marcação implacável é feita homem a homem e, até mesmo, três contra um; que aproveitam a saída da bola no campo adversário numa clara “operação abafa” e que a estratégia básica e simples é que todos devem servir ao Leopardo Messi. O combalido professor Murici e seus pupilos já estavam cansados de saber disso e claramente foram lá tão somente para cumprir a agenda e fazer compras natalinas na Terra do Sol Nascente, privilégio de poucos dos idiotas que levantaram cedo para assistir àquela ovação ao toureiro que arrebatara o touro dependurado.
            Mas o futebol brasileiro é assim: por duas vezes demos de mãos beijadas o campeonato mundial para a França por causas obscuras até hoje inexplicáveis, tal como os verdadeiros por-quês da letargia do Peixe Morto jamais terão explicação. Não é admissível que o torcedor brasileiro aceite a desculpa amarga de que precisamos de aulas de futebol, quando na verdade a matéria deveria ser outra: aulas de vergonha na cara, de profissionalismo, de patriotismo, de maior comprometimento e respeito com o patrimônio que nossos memoráveis atletas do futebol construíram para a posteridade.
            Portanto, preciso é que cuidemos, e esta deve ser uma das aulas que nossa imprensa desportiva deve tomar, para que não desçamos do pedestal de penta campeões do mundo, nem enxovalhemos nosso respeitável histórico e fiquemos aí a discutir questões de baixo calibre que comparam Pelé a Maradona, Messi a Neymar ou que o senhor Guardiola tenha inventado nova maneira de jogar futebol. Lembro aos nossos jovens torcedores e professores da bola nos pés, que as melhores aulas de futebol que o mundo já assistiu aconteceram, quando, na copa do mundo de 1970, a seleção brasileira, capitaneada pelo rei Pelé, sagrou-se campeã invicta e em 1974, quando a seleção holandesa temida “laranja mecânica”, também, àquela época, reconhecida como “o carrossel holandês”, praticante do “futebol máquina”, capaz de fazer gols até por encomenda e capitaneada pelo maestro Johan Cruijff perdeu a invencibilidade na partida final aos pés da Alemanha Ocidental, esquadrão que havia feito campanha muito menor, mas que se valendo de muita garra e determinação conseguiu desmontar o Carrossel.
            Mais do que sabido é que o mérito pela invenção do futebol é dos ingleses e quem mais aproveitou e também esnobou oportunidades fomos nós brasileiros. Além do mais, o combustível, para que continuem a obra dos nossos heróis é deixarem de tratar do futebol com puro sensacionalismo e como fonte de altas rendas. Em qualquer atividade humana, quando o dinheiro se transforma em objetivo primaz a finalidade central entra em decadência, portanto, que o exemplo do massacre ao Santos sirva de lição, não para que aprendamos a jogar futebol, mas para que os cartolas entendam que dinheiro é importante como conseqüência e mérito pelo trabalho sério com objetivos definidos, planejamento adequado, disciplina, focagem contínua, liderança forte,  respeito à nacionalidade e obstinação pela vitória.
           

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

QUE SAUDADES DO MARMELO DA MAMÃE!

            Para os mais jovens que certamente não tenham ouvido falar no marmelo, resolvi satisfazer a curiosidade ou, talvez, facilitar a pesquisa e anexei a seguinte definição:        O marmeleiro (Cydonia oblonga), é uma pequena árvore, único membro do gênero Cydonia, da família Rosaceae, cujos frutos são chamados marmelos. É originário das regiões mais amenas da Ásia Menor e Sudeste da Europa. Também é conhecido pelos nomes de marmeleiro-da-europa, marmelo e pereira-do-japão; segundo Caldas Aulete.
            Para os mais vividos, entre os quais me incluo, a definição vai muito além da científica entrando pelo campo da convivência familiar e indo parar nas canelas e coxas dos garotos travessos que fugiam para soltar pipa e largavam os cadernos sobre a escrivaninha esperando pela feitura do dever de casa. Podia ser também que viajasse pelas costas de algum adolescente mais afoito que atrevidamente roubasse um furtivo beijo da filha do vizinho. Essa coisa terrível, comprida, preta como cobra surucucu de lacinho na cabeça, ficava dependurada atrás da porta e atendia pelo assustador nome de: “vara de marmelo“.
             Toda horta que se prezasse ostentava um marmeleiro bem viçoso para fornecer às mamães aquela ferramenta fundamental capaz de arrefecer a coragem de meninos traquinas que ousassem contradizer uma ordem ou até mesmo um olhar fumegante, ardente como fogo, embalado por um limpar de garganta que mais parecia um trovão, para refrescar a lembrança da varinha de marmelo pendurada atrás da porta.
            Falta leve podia valer uma simples conversa amigável com explicação da importância de se respeitar os mais velhos, do valor dos estudos ou até mesmo da necessidade de ir dormir mais cedo como maneira de preservar a saúde e o rendimento escolar. Segundo erro era falta muito grave e, conforme as circunstâncias podia custar umas duas varadinhas sem muita dor, mas que nós gritávamos para fazer chantagem emocional com a mamãe e ela dar por encerrada a reprimenda o mais rápido possível. Mas, se nem assim nos emendássemos e fosse necessária a terceira correção, aí; ah meu Deus! Entrava em ação a cobra surucucu zoando no ar que nem a esquadrilha da fumaça deixando riscos vermelhos nas pernas, tão doloridos quanto um abraço do Godzila, capaz de não deixar o infrator se esquecer da imediata necessidade de não mais fazer jus a um novo encontro com o dragão de trás da porta. Por vezes, fortuitos pensamentos nos invadiam a imaginação e vingativos impulsos floresciam borbulhantes, a fim de dar um sumiço na varinha de estimação. Mas não adiantava nada tirá-la do trono de trás da porta, pois lá estava, no fundo da horta, o marmeleiro frondoso como ele só, cheinho de novas surucucus tão ou mais venenosas quanto a primeira. E pior; era impossível atentar contra aquele Gigante Adamastor reinando dentre o arvoredo, pois mamãe lá estava a lhe aguar e chegar terra adubada ao pé todos os dias. Vez por outra, orgulhosa, dizia: - esse ano vai dar muito marmelo! Mas nossa sede em destruí-lo era grande e certa vez, um grande formigueiro surgiu nas proximidades. Aquilo foi um achado dos céus: logo nos veio à cabeça a brilhante idéia de fazermos um caminho de açúcar até o tronco do monstro para ver se as cortadeiras davam um jeito no desaforado. Mas logo mamãe o acudiu com uma dose de “Formicida Shell” que foi tiro e queda... Adeus saúvas!
            O tempo passou, foram-se as saudosas mamães a se encontrar com Deus para serem abençoadas pelas boas varadas que nos aplicaram. Juntamente com elas extinguiu-se a psicologia da surucucu de trás da porta, a única que funcionou por séculos com indiscutível eficiência. Naquela época a lembrança dos vergalhões vermelhos nas pernas impedia que garotos imberbes batessem em professores dentro da escola, que pressionassem os pais pelo carro que não sabiam quanto trabalho custou ou que se calassem ao presenciar filhos viciados lhes roubando utensílios domésticos a fim de pagar a indispensável dose diária de crack.  A força do canto da cobra surucucu parecia mágica e fazia a vida pacata e tranqüila bastante poética. Os filhos passeavam calmamente com os pais e no frescor aconchegante da noite iam à sorveteria, ao cinema, ao teatro e logo voltavam à casa a tempo de dormir deixando a atividade noturna para os adultos aproveitarem sem se preocupar com essas hordas modernas de bandidos de toda classe e idade a atazanar a vida e a ordem pública.
            Que incrível paradoxo é esse que nos faz lembrar com saudades de velhos tempos considerados bizarros pela incipiência tecnológica, quando psicólogos não palpitavam na educação dos filhos, conselhos tutelares canhestros, se existissem, era para tutelar, se necessário, cachorros e gatos vadios e políticos tinham outras coisas mais importantes a fazer que ficar legislando sobre as tantas e quantas palmadas podem ou não ser aplicadas em crianças travessas!?
            Saudosos tempos passados conhecidos como “tempos do amarrar cachorro com lingüiça”, quando pais eram donos das suas palmadas, chineladas, beliscões, varas de marmelo e senhores absolutos da conduta educacional da família, muito competentes em produzir futuros cidadãos contidos nos padrões da melhor conduta e convivência social. Mau sinal esse em que o tal Estado Democrático precisa se meter na conduta intima das famílias! Que democracia é essa a ser sustentada por um Estado policialesco procurando se intrometer em tudo que não é da sua conta? Obviamente que não estamos aqui a defender pais truculentos, espancadores ou torturadores. A esses que se aplique as tantas leis já disponíveis.
            Não é possível imaginar uma criança entrando numa delegacia para denunciar o pai que lhe deu boas e merecidas palmadas, porque cuspiu na cara da tia. Certamente o delegado vai dizer à tia caruda que tirasse o carão da frente, porque o pimpolho precisa ter o direito de cuspir quando bem entender e na cara de quem merecer. Afora isso estar-se-ão estimulando o denuncismo entre vizinhos xeretas, cujos ouvidos ouvirão a mais do que é da sua conta para depois fazer uma denúncia vazia, sem provas cabais dos motivos justos ou injustos das palmadas que ouviram na noite anterior através das paredes. E como agirá a autoridade diante de fatos obscuros sucedidos na intimidade do lar, se o ônus da prova cabe a quem acusa? Certamente pesará mais a palavra do pimpolho que a dos pais!...
            Psicólogos dirão: - não precisam bater, basta dialogar e o rebento entenderá tudo, letra pos letra, assim como temos visto nossos jovens cibernéticos ultra-modernos entendendo de tudo, menos da lei da boa convivência e do respeito. A esses dignos senhores técnicos dos sentimentos humanos declaro, com certeza, apoiado por todos os contemporâneos dos cachorros que não comiam a lingüiça do laço, que morremos de saudades das benditas chineladas que nos aplicaram as mãos santas dos nossos saudosos pais e que a única revolta que nos permeia é a de não tê-los mais ao nosso lado para nos ajudar a compreender melhor a vida, a maneira moderna de educar e seus pífios resultados. Certamente nossos saudosos e sábios velhos ainda os aconselhariam a dar uma lida lá no Livro dos Provérbios 13:24 onde esta escrito que:Aquele que poupa a vara aborrece a seu filho, mas quem o ama a seu tempo o castiga”.
             E finalmente eles ensinariam que o problema fundamental do insucesso na criação moderna de filhos é que os pais devem sim dialogar e que carinho é fundamental, mas nunca podem prescindir de autoridade. Não se pode esquecer da nossa condição básica de animal e como animal homem as relações, inclusive entre pais e filhos, devem basear-se no mesmo respeito hierárquico existente até entre os irracionais. Há pais que ao dialogar ou mesmo na convivência diária descem do seu lugar superior e se transformam em adultos crianças ou adultos retardados, prejudicando a hierarquia. Assim, sem autoridade, não conseguem se impor na ordenança da orientação das crianças e se transformam em reféns de filhos tiranos. Afinal obedecer é difícil, quando se enxerga no outro um igual, mas muito fácil, quando se considera o outro um líder, pois liderar filhos implica em muito amor, maior conhecimento, inspira segurança, implica confiança e requer respeito, ainda que pelo medo da surucucu de trás da porta.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

AS AVES TEEM NA BOCA UM DENTE CHAMADO BICO

             Pasmos pela afirmativa hilariante que encabeça o texto, não há nada a fazer além de soltar boas gargalhadas e perguntar quem foi o autor da aberração. Preferível não acreditar que este libelo da cultura científica brasileira tenha sido enunciado por um estudante desses formados nas nossas escolas públicas e particulares e pinçado de uma das provas do ENEM. Se alguém ainda continua rindo e nem pensou em chorar; diante da próxima, certamente terá uma síncope mental: “Os pagãos não gostavam quando Deus pregava suas dotrinas e tiveram a idéia de eliminá-lo da face do céu".
            Diante dessas alegorias que não serviriam nem para se estampar numa faixa do “bloco do boi da cara preta” no carnaval, todos da esfera governamental se manifestam lenientemente e a imprensa se mantém muda e surda ou talvez o inverso calasse melhor: “surda e muda” porque quem não ouve não fala. O problema é que existem dois tipos de surdos: os de nascença e os dissimulados, sendo que os segundos são os perigosos.
            Obviamente que não seria ajuizado ou justo minorizar a atuação da imprensa na sua função sagrada de funcionar como espírito da democracia. O ato de informar é a seiva que mantém viva a cultura democrática pelo seu poder de conscientizar os cidadãos em vista dos problemas que o acercam contribuindo ainda, para manter aplacada a ação de corruptos ou de pretensos ditadores, que, porventura, venham a se arvorar ao poder pela força do golpismo. Por isso a aversão dos ditadores à ação da imprensa com seus holofotes indiscretos e perscrutadores.
            Contudo é preciso que a sociedade esteja atenta, pois nem a imprensa esta imune às investidas sutis dos donos do capital, que, muitas das vezes, são também detentores do controle dos meios de comunicação e é exatamente a esse viés comercial ao qual me refiro. Objetivos capitalistas nem sempre viajam ao lado da ética e por isso muitas das vezes se esquecem de respeitar o tênue limite entre os interesses da sociedade democrática e os interesses próprios, que normalmente envolvem a ânsia de ganhar dinheiro através da massificação da opinião pública em torno de valores pobres que não acrescentam nada ao desenvolvimento cognitivo das crianças nem ao aprimoramento da consciência cidadã. O virtuoso pensador Nelson Rodrigues certa vez alertou que: “toda unanimidade é burra” isso porque nesse contexto ninguém faz diferente, ninguém cria, ninguém discute, ninguém é instado a pensar, pois as idéias são fornecidas previamente trabalhadas e prontas; só cabe às pessoas aderirem como burros tracionando a carroça. Criam-se então os modismos no vestir, no andar, no proceder, no falar e é aí, nesse campo fértil, que os capitalistas jogam suas cartas com programas de baixa qualidade carregados de impulsos à manipulação comportamental dirigida ao desenvolvimento da ânsia consumista, esquecendo-se de que todo empreendimento antes do lucro deve ter como meta precípua o bem comum, que neste caso é fiscalizar, denunciar e educar. Contudo educar não é interessante sob o ponto de vista econômico, pois seria como remar contra a maré, enquanto que exibir o que esta em consonância com a moda encaixa exatamente com o que as pessoas querem ver, deste modo não requerendo grande investimento em qualidade e tornando-se menos dispendioso proporciona maior lucratividade. O sinal mais forte desse sintoma é que todos os bons programas da televisão e do rádio brasileiro são exibidos em horários de baixa audiência – de madrugada, noites de sexta feira ou nas primeiras horas da manhã – faixa que esta fora do foco dos grandes anunciantes. Os horários considerados nobres, pelo contrário, estão poluídos do lixo eletrônico capaz de embotar consciências despreparadas e mentes em formação. Aí prevalece um contra-senso, pois diante do conhecido baixo nível educacional da sociedade, haveriam de exibir programas com potencial para educá-la. Do contrário fazem-se eco com a pobreza intelectual.
            Todavia os controladores da grande mídia ainda não estando satisfeitos com tamanha distorção e liberdade de ação, ainda querem mais. Estão em tiroteio cerrado contra a censura que exige horários adequados para a exibição de programas inadequados e outro dia a nação brasileira e os homens de bem desta tiveram o desprazer de ver juizes da suprema corte defenderem convictamente, em entonação populista inapropriadas àquela tribuna, a supressão da censura com o argumento de que “não cabe ao estado arbitrar sobre a liberdade alheia e que aos pais deve-se atribuir a missão de escolher o que seus filhos devem ver”; e ainda mais: “que o povo brasileiro é cônscio dos seus direitos e responsabilidades, não necessitando do arbitramento estatal”.
            Nós cidadãos de bem, os quais pagam àqueles juízes vultosos salários para defenderem a Constituição, declaramos que concordaríamos com esse ponto de vista, se todos os cidadãos brasileiros, independentemente de raça, sexo, cor, credo e ideologia política fossem governados por um estado plenamente cumpridor dos preceitos constitucionais que rezam igualdade de direitos e deveres para todos e a todos fosse oferecida educação de qualidade, com professores ganhando salários de juizes pela sua nobre missão de educar – não menos nobre que a de julgar – pois, aí sim, teríamos pais verdadeiramente preparados para selecionar o útil e conveniente para seus filhos. Por outro lado, ninguém em sã consciência pode afirmar que o escalonamento de horários seja tão forte e repressora censura capaz de cercear duramente a liberdade de alguém. Se os níveis de liberdade devessem ser assim tão amplos, o estado não deveria cobrar impostos, nem as rodovias deveriam se dividir em duas mãos e as esquinas não teriam semáforos. Afinal o estabelecimento de limites é um remédio salutar ao convívio e ao desenvolvimento mental e social comprovado cientificamente. E é bom que não se esqueçam que o mercado de trabalho, destino final de todos os jovens, em nenhuma circunstância, tem limites de tolerância tão elásticos quanto a democracia libertina que estão tentando implantar no Brasil, aonde se tem observado muito maior preocupação com o conjunto de direitos do que com o de deveres.
            Penso ainda que deixar os jovens filhos de país despreparados ao sabor do bombardeio mental precoce possa se configurar num sórdido tipo de exclusão, que poderá perpetuar-se por décadas e que o maior sintoma desse despreparo seja as pérolas científico-teológicas acima citadas. Lembro que a parcela da sociedade que esta incomodada com esse nível de censura é muito pequena e que a esmagadora maioria gostaria mesmo é de ver os políticos fichas sujas atrás das grades, banidos de vez do direito de ocupar cargos públicos e se possível mídias que respeitassem mais a formação cívica, ética e mental dos seus filhos.
            Portanto, o Supremo Tribunal Federal cometerá grave equívoco, se, apenas baseado num devaneio utópico e populista de que a totalidade da sociedade brasileira esta preparada para escolher seus destinos, vier a ordenar o banimento da censura a programas inadequados no exato momento em que os índices estatísticos apontam uma terrível carnificina na faixa etária entre doze e vinte e cinco anos tendo a violência como efeito colateral do tráfego de drogas, da fome, da miséria, do desemprego; triste realidade agravada pelo desestímulo, baixa estima, alta evasão escolar e ainda, pelo abandono de filhos por pais ineptos, que um dia também foram crianças abandonadas pela família e pelo Estado.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A NOVA TORRE DE BABEL NAS PROFUNDEZAS DA INSANIDADE


              Segundo a Bíblia, a Torre de Babel foi construida com o intuito de alçar o homem ao patamar divino. Deus então parou a obra e como castigo fez com que todos falassem linguas diferentes, de modo que não pudessem se entender, assim impossibilitando a execução do projeto.
            Interessante a lenda encontrada lá no livro do Genesis e que pode muito bem ser adaptada aos tempos modernos. Nossos dias teem estado mesmo repletos de fortes emoções. Notícias há para todos os gostos e nervos. Numa ponta, países do primeiro mundo, coroados com sua história suja de exploração predatória sobre os eternos quintais da América Latina, África e Ásia, que nunca valeram nada a não ser para baixar a cabeça ou como destino de pedófilos endinheirados em busca de prostitutas impúberes abandonadas pela sociedade. Hoje, na tabua da beirada, lutam contra o rolo compressor criado por eles mesmos; bem alimentado no cocho da ganância por altas lucratividades sem a devida contrapartida em produção, criação de empregos e distribuição eqüitativa da renda.
            Na outra ponta vê-se o Dragão Chinês e suas montanhas de dinheiro embarcado na mesma ânsia expansionista que o caracterizara desde há milênios, armado com sua foice e martelo, símbolos do autoritarismo sanguinário, para no futuro bater na cabeça dos mesmos idiotas que hoje o toleram de olho no seu bilhão e meio de consumidores; a maioria deles miseráveis escravos de um regime comunista, cuja ditadura excomungada aqui, há muito reina por lá. Torçamos para que a crise mundial dure pouco, porque se o mundo continuar lhe cedendo a dianteira, quando acordar será tarde demais e haverá choro sem ladainha, pois ele não é chegado a protestos, mas ao domínio puro e simples.
            Na terceira ponta do quadrado se debatem as milenares ditaduras árabes contra a nuvem libertária aspergida pela grande broadcast com suas salas de bate-papo e sites de relacionamento, que não respeitam fronteiras e assolam as consciências cansadas da eterna ordem unida cadenciada pelas mordidas daqueles governantes que se dizem contra tudo que o ocidente possa oferecer de desenvolvimento social, mas enviam seus filhos para estudar em Harvard, Oxford e Sorbone, investem os bilhões de dólares roubados do povo nos grandes bancos internacionais, bebem Dom Perignon, andam de Rolls Royce e usam Cartier. Peçamos a Deus para que as violentas conturbações sociais provenientes da luta por liberdade não venham contaminar a paz mundial.
            E na última ponta vê-se o Brasil, agora mais do que nunca, cheio de vitalidade, armado até os dentes com seus bilhões de dólares na reserva cambial, levantando-se do sono profundo no berço esplêndido alçado pelo elegante título de “celeiro do mundo” com o pé direito nos bilhões de barris de petróleo, que nos aguardam lá nas profundezas do pré-sal e o esquerdo na lama de um arranjo político retrogrado insistindo em manter o país refém do sistema tributário antiproducente, uma vez que manieta a iniciativa privada derrubando sua competitividade e, por outro lado, de um presidencialismo débil movido a nepotismo, aonde a autoridade máxima, o presidente da república, não tem autonomia nem para nomear ou demitir ministros, uma vez que os ministérios se transformaram em feudos partidários trabalhando em função de interesses paralelos, acobertando a corrupção, o banditismo, o desvio de conduta, engessando o fluxo decisório, perpetuando o status do Brasil doméstico como eterno moribundo colonial.
             O problema que antevejo é o risco do aumento da presença paternalista do estado ineficiente através do agigantamento de empresas estatais como a Petrobrás e o crescimento de uma economia focada na capitalização de reservas cambiais. Isso somado ao borbotão tributário sufocante e à política de juros estratosféricos, dará ao estado uma super-estatura de senhor do poder econômico em detrimento da iniciativa privada descapitalizada pela excessiva tributação e pela falta de competitividade. Esse poderá ser um tiro que sairá pela culatra capaz de sufocar o processo democrático que só se sustenta sobre o quadripé: educação, liberdade de expressão, liberdade de ir e vir e liberdade para investir. Se a sociedade entra numa camisa de força, onde o estado torna-se super-rico mantendo a massa popular ignorante se esbaldando nas bolsas assistencialistas com os empreendedores privados de chapéu na mão, estaremos experimentando uma espécie de bolchevismo à brasileira em pleno século XXI. Lembrando que essa foi a receita usada pela União Soviética, pela China e por Cuba no início do século passado e agora pelo Chavismo Venezuelano, obviamente com outras nuances políticas. A China e a Rússia estão acanhadamente tratando de reverter o processo com algumas colheres de chá para a iniciativa privada, que anda nas mãos dos apadrinhados, mas nada que desbanque o estado do seu rico pedestal e do trono centralizador. Lembro que quando faço referência à iniciativa privada brasileira estou excluindo desse grupo os gigantes com reportagem direta nos meandros governamentais e lobistas a postos no congresso, mas me referindo aos milhares de pequenas e médias empresas que não gozam do mesmo privilégio e que nem por isso deixam de gerar riquezas e mais de oitenta por cento dos postos de trabalho pelo Brasil afora.
            Como se não bastasse o espectro das más notícias temos a nova versão do grande vazamento de óleo no Golfo do México, felizmente de menor monta, mas com o mesmo potencial para provar ao mundo que a tecnologia de prospecção em regiões ultra-abissais demonstra-se sujeita a falhas mais freqüentes do que se imaginam, colocando em alto risco sistemas vitais cujos danos podem trazer conseqüências ainda desconhecidas para o planeta e sua mais tênue estrutura: a teia da vida.           
            Contudo os fanfarroneiros do governo federal anestesiaram a imprensa, a sociedade e os políticos com uma espécie de devaneio capaz de quase provocar um racha na federação pelas disputas entre Estados irmãos em vista de um eldorado gerador de impostos cujo sucesso operacional e econômico é duvidoso devido aos pesados custos da prospecção ultra-profunda, à instabilidade dos preços do petróleo capaz de, em certas condições mercadológicas, inviabilizar o investimento ou até mesmo a extração e aos altíssimos riscos ambientais concernentes a uma região quase inacessível que guarda segredos ainda desconhecidos mesmo para os mais experientes e aparelhados prospectores.  
            Incrível que diante de tantas incertezas ninguém se assuste com a grande possibilidade da torre de babel brasileira ruir permitindo que a seiva negra venha descontrolada à superfície para castigar nossos incautos governantes pela sua falta de responsabilidade e visão de futuro. Certamente, se investissem uma porcentagem desses bilionários investimentos previstos para o pré-sal em outras matrizes energéticas alternativas não poluentes, colocassem o Brasil na ponta para concorrer em condições de igualdade com as potências tecnológicas já empenhadas nessa conquista futurística. Nessa ode, além dos riscos, o Brasil vai correr de costas para o futuro e para a realidade de um planeta pequeno que não suportará muito mais as agressões que vem sofrendo. Mas os governantes brasileiros não se importam, porque, se algo der errado, podem punir com multas milionárias e encher seus cofres com mais dinheiro para custear as mordomias e os altos coturnos dos picaretas, deixando o povo a ver navios, pois se assim não fosse as cidades petrolíferas do Rio e do Espírito Santo não teriam favelas, nem hospitais públicos capengas, nem escolas caindo aos pedaços, nem professores ganhando miséria, nem ruas esburacadas, nem esgoto in-natura boiando nos rios.   


terça-feira, 22 de novembro de 2011

QUAL O SIGNIFICADO DE HONESTAMENTE?

                                     Outro dia um amigo remeteu-me uma dessas bobagens que diariamente recebemos pela internet com o seguinte relato: “A ONU enviou mensagem para cada país com a pergunta: Por favor, dêem honestamente vossa opinião sobre a escassez de alimentos no resto do mundo? A pesquisa foi um fracasso. Os Europeus não entenderam o que era 'escassez'; os africanos não sabiam o que era 'alimento'; os cubanos não entenderam o que era 'opinião'; os argentinos qual o significado de 'por favor' e os americanos, nem imaginam o que seja 'resto do mundo'. Quanto ao governo brasileiro, está debatendo o significado de 'honestamente’".
                                   Confesso que relutei em abri-la, mas vitimado pela curiosidade acabei apressadamente correndo os olhos pelo texto e sucumbi ao pé da criatividade de alguém, que aparentemente, como eu, vive acabrunhado diante dessas lamentáveis características que infelizmente rotulam os povos ou desonram o fato e o ato do exercício da política.
                                   Vergonhosamente o Brasil é qualificado como um dos países mais corruptos do mundo. Ou talvez fosse mais justo dizer que nós brasileiros somos um povo, cujas características culturais englobem também a conduta duvidosa, sempre tendente à impulsão incontrolável para levar vantagem a qualquer custo sem medidas de conseqüências? Parece-me que a resposta tem se configurado positiva em vista dos fatos que há séculos mancham nossa imagem através do mundo e da história. Não enumerarei tais fatos, pois seria impossível fazê-lo dentre os limites dessas parcas linhas, entretanto nos últimos dias novas informações recheadas de contundentes imagens vieram engordar nossa já inflada indignação com os corruptos que povoam a malta de homens sem escrúpulos e o quanto nos custa sua conduta antiética. Semana passada foi publicado relatório de alta confiabilidade, me enviado por um amigo, dando conta de que a corrupção custou ao tesouro nacional, num período aproximado de ano e meio, a fabulosa quantia de US$ 40 bilhões de dólares; equivalente ao PIB – produto interno bruto – da Bolívia no mesmo período. Ou seja, uma montanha considerável de recursos extraviada das engrenagens motoras brasileiras, que nos cobram pesadíssimos impostos, mas nos devem hospitais públicos menos parecidos com matadouros, estradas, portos, aeroportos e demais logísticas que atendam às demandas de uma nação pretendente à liderança mundial, salários à altura da nobre missão dos professores e escolas públicas que sirvam para algo mais que simplesmente gerar índices estatísticos maquiados. Mais marcante ainda foi ver os chefões do crime carioca tentarem passar, na pura cara lavada, pelas barreiras policiais, embarcados na certeza de que suas escoltas estreladas estariam incólumes ao crivo daqueles que não estavam dispostos a vender a honestidade. Forte sinal de que o expediente é comum e já rendeu sucesso noutras tantas vezes.
                                   Viver honestamente, portanto é o modus vivendi dos que, como aqueles policiais incorruptíveis cumprem seu dever sem intenções espúrias e se deitam em paz pousando suas cabeças sobre o travesseiro macio da honra, encarando seus filhos sem o peso do remorso a lhes sobressaltar o espírito. Lembrando que condutas dessa natureza custam menos em termos monetários, alavancam o progresso e minoram o sofrimento social.                     
                                   “Tenho vergonha de mim, pois faço parte de um povo que não reconheço, enveredando por caminhos que não quero percorrer. Ao lado da vergonha de mim, tenho tanta pena de ti, povo brasileiro”. Este célebre lamento foi proferido por Rui Barbosa no alvorecer do século passado, numa demonstração de que as coisas no Brasil não mudaram ou evoluíram desastrosamente para pior.
                                   Minha opinião sobre o desabafo de Rui Barbosa compõe-se de duas vertentes: Concordo com a verdade incontestável de que os justos devam se envergonhar da séptica lama onde estão obrigados a viver e conviver, entretanto não se deve esperar que rochas não se moldem à investida insistente das ondas; porquanto, por justiça, estes justos devem ser recompensados à altura das suas indeléveis atitudes em prol do bem. Foi triste e frustrante saber daquele policial, que rejeitou um milhão de reais em troca da sua honra, retornar ao lar localizado num subúrbio distante, obviamente sem demérito pelo local, mas embarcado num trem suburbano, que todos conhecemos a baixa qualidade devida à desídia governamental. Mau sinal e extremamente preocupante militares da força pública viverem vulneravelmente na camisa de força dos baixos salários, enquanto sabe-se quanto o Estado Brasileiro é perdulário e benevolente com outras classes e cidadãos ornamentados pelo indefectível colarinho branco sujo.
                                   Em segundo lugar, a crítica de Rui Barbosa não aponta solução para o problema, talvez porque, a seu tempo, o mundo ainda vivesse a utopia do socialismo marxista embalado na crença de que o paternalismo estatal fosse a solução para todos os problemas. Hoje, após o fiasco do marxismo, do socialismo bandeira branca e até mesmo do capitalismo carnívoro e excludente, concluiu-se que a solução mais eficiente está no maciço investimento em educação encarando-a como único meio de aperfeiçoamento do capital humano nivelando os cidadãos por cima, assim lhes garantindo liberdade de expressão, discernimento na escolha dos seus destinos, capacitação técnica e profissional, dignidade e respeitabilidade para o pleno exercício da cidadania.
                                   A administração, em todos os aspectos, inclusive a pública, no século XXI, será mais do que nunca, o encontro de imaginação e realidade. Através da alta velocidade da informação proporcionada pelas tecnologias de ponta em telecomunicações haverá cada vez mais integração entre os centros de decisão e os setores mais longínquos do tecido social. Nesta evolução morrem a ignorância, o assistencialismo cabresteiro e o favoritismo eleitoreiro; nascendo a conscientização, a interatividade, a coparticipação e a conseqüente diminuição da desigualdade entre ricos e pobres.
                                   Portanto, com o incremento da cultura, da informação, da participação social e do interesse político os cidadãos nunca se esquecerão que quando os gatos se ausentam, ratos sobem à mesa e que para combatê-los não bastam apenas ruídos, mas planejamento e ação com gatos bem treinados, honrados e alimentados.


EVANGELIZAÇÃO; NOVO ENFOQUE DA IGREJA CATÓLICA


           Cristo, nas suas célebres palavras: “Pedro, tu és pedra e sobre essa pedra edificarei minha Igreja” lançou o alicerce fundamental dessa, que, ao longo dos séculos, passaria a ser considerada a “Igreja Católica”. O termo católico é oriundo da palavra grega “Katholicos” que tem como significado: “total ou geral”. A Igreja de Cristo, mais tarde se constituiria em duas vertentes: A física; representada pela hierarquia, cuja cabeça é o papa sucessor do apóstolo Pedro, como também os monumentos edificados e utilizados a fim de abrigar encontros e comemorações dos cristãos católicos. A outra vertente, cujo objetivo primordial é a conversão ao ensinamento e à pessoa de Jesus Cristo, em vista do alcance do Reino de Deus, é a fundamental e a mais importante e, por isso mesmo, aquela que vamos retratar nesta reflexão.
          Naturalmente nos acostumamos a rotulá-la sob a ótica material necessária e muito importante, pois coexiste na materialidade e esta composta por homens tão fracos e falhos como outros quaisquer. Portanto, ofuscados nas brumas do enfoque crítico puramente mundano, tendemos a nos esquecer exatamente da questão principal, aquela que veio nortear a sua criação: a “FRATERNIDADE ENTRE OS HOMENS”; sua messe básica e único caminho para estar em consonância com a missão redentora de Cristo.
          Diante dessa afirmação a responsabilidade do cristão católico aumenta grandemente, pois a missão evangelizadora da sua igreja não deve e não pode estar unicamente depositada nas mãos da hierarquia que a compõe e representa, mas nos ombros de todos. Por isso mesmo a 5ª CONFERÊNCIA DE APARECIDA acentua a figura do leigo como verdadeiro discípulo de Cristo devido ao sacramento do Batismo. Se Cristo foi o grande missionário da mensagem de salvação, a igreja assumiu papel coadjuvante de natureza missionária e por isso todos devem incorporar sua personalidade missionária, não a atribuindo tão somente aos padres, aos bispos ou, até mesmo, ao Papa.
          No início a igreja compunha-se apenas de discípulos que viajavam com Cristo, amando-o, se aperfeiçoando e aprendendo na convivência diária, nas conversas com perguntas e respostas recheadas de explicações inteligentes sacadas da prática da vida e das escrituras. Hoje essa premissa é incitada a estar mais viva que nunca. A única e boa diferença é que a Igreja transformou-se numa legião de mais de um bilhão de católicos por todo o mundo.
          Na contrapartida da grande complexidade que caracteriza o mundo moderno, conturbado pelas controvérsias políticas visando tão somente poder e dominação e pelo grande número de homens que ainda sofre vitimado pela desigualdade ou por ditaduras sanguinárias, há, na conscientização humana e, portanto, nos horizontes futuros da humanidade, uma refrescante noção democrática que visa assegurar ao homem seu direito nato à liberdade em todos os aspectos, obviamente salvaguardando-se a ética. Segundo minha modesta opinião, a Igreja Católica, na esteira da sua missão evangelizadora de igualdade e fraternidade, está em perfeita sintonia no combate a esses problemas que fustigam o mundo moderno, com a filosofia democrática e com a dinâmica globalizante. Dentro dessa ótica ainda chamo atenção para um intrigante fenômeno atribuído mesmo ao poder máximo de Deus. A Igreja de Cristo é a instituição mais antiga na história da humanidade e por isso mesmo o mais emblemático exemplo de superação que se conhece. Da insignificância do seu nascimento, quando os primeiros cristãos eram jogados às feras e seu mentor supremo foi condenado à crucificação, chegou ao apogeu apoiada pelo imperador Constantino, que a promoveu como igreja oficial do Império Romano, para se impor sobre a mesma Roma que a execrara. Mais tarde, ao longo de séculos, denodou-se em disputas políticas, perseguições, condenações sumárias e guerras injustas promovidas por dirigentes inescrupulosos, mas finalmente reencontrou-se pelo restabelecimento da prática evangelizadora em nome de Cristo, como seu objetivo principal.
          Segundo o documento de Aparecida “A Igreja é chamada a repensar profundamente e a relançar com audácia sua missão confirmando, renovando e revitalizando a novidade do evangelho no presente e para a história. Entretanto isso não depende tanto de grandes programas e estruturas materiais, mas de homens e mulheres que abracem a missão de serem discípulos e missionários em diálogo ininterrupto, a fim de servirem-se mutuamente. Assim a Igreja católica e os cristãos são conclamados a assumir o papel de portadores da boa nova de Jesus, de preferência sem estrelatos, seguindo Suas atitudes, se lembrando de que Ele se fez servidor e obediente até a Morte de Cruz”.
          Jesus morreu na cruz para salvar a humanidade da subversão à justiça. Seu crime foi subverter a cultura da espoliação dos mais fracos pelos mais fortes. No entanto, hoje a injustiça social continua tão profunda quanto antes e a espoliação corporificada em fome, miséria, violência, corrupção, falta de oportunidades e outras desigualdades inadmissíveis numa era considerada como civilizada. Todos os católicos, portanto são convidados a trabalhar nessa missão evangelizadora moderna na sua roupagem, mas tão antiga quanto os pregos que prenderam braços e pernas de Cristo à Cruz, e abraçar com um amor incondicional, semelhante ao de Deus a todos, especialmente aos pobres e aos que sofrem toda ordem de injustiças. Mãos à obra é a nova ordem e deve estar acima de qualquer ação ou palavra crítica, pois os  críticos são os que menos trabalham e assim não merecerão a complacência, o perdão, nem o Reino de Deus.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

PROFESSORES; VÍTIMAS OU VILÕES?


            No momento em que volta à baila a falência do ensino brasileiro, mediante os fiascos do ENEM e de outros balanços negativos, ficamos estarrecidos com a inação das autoridades brasileiras! Ninguém mais agüenta ver e ouvir nossos governantes se debaterem com os mesmos problemas estruturais que atravancam o crescimento do Brasil e o mantém atrelado ao passado colonial. – Saúde, transporte, segurança, educação. – Se esse fosse o nome de um quarteto de violas, certamente suas cordas estariam rompidas de tanto soar mesmas notas e o som enfadonho da cantilena teria implodido os ouvidos da platéia. Mas felizmente a esperança é a última que morre e as eleições bienais brasileiras são o balsamo que alivia frustrações mal curadas. Promessas e mais promessas e o heróico povo espera e espera!...Trágico destino para uma nação que se auto-intitula “o país do futuro”.
            Por falar em futuro, certa vez Sêneca em um de seus encontros com discípulos lhes perguntou o que entendiam como futuro? Os noviços, depois de longo pensar, responderam que era tudo o que podiam fazer amanhã. Então, ouviram a seguinte correção: “futuro é o fruto da boa semente que plantamos hoje”. Diante de tal verdade dobrem-se joelhos culpados pelas colheitas dos frutos podres que nosso sistema educacional vem faturando ao longo de décadas de desmazelo e mentiras bem plantadas no passado e que continuam sendo regadas por quiméricos acadêmicos, os quais vivem tateando teorias vãs entre miragens de um processo falaz e duvidoso, cujo objetivo primaz é engordar salários de autoridades e avantajar com índices positivos relatórios manipulados, a fim de impressionar analistas incautos da Unesco e outros órgãos internacionais.
            Sob a sombra dessa incompetência proposital e antipatriótica padecem professores, escolas e o Brasil. Professores e seus salários de fome expostos na vitrine do ridículo como culpados imperdoáveis. Homens e mulheres donos da nobre missão de semear para o futuro, lutando desumanamente contra o tempo, as distâncias, as intempéries, o desconforto, a falta de recursos técnicos e ainda estrangulados pelo antidemocrático pressionamento imposto pelo medo do desemprego. Escolas; não fazendo jus aos nomes dos ilustres que as denominam; quebradas, desfalcadas, sujas, alagadas, pichadas, invadidas por malfeitores de toda ordem. E o Brasil; em apuros diante dos desafios das novas tecnologias cada vez mais exigentes, na procura de homens/mulheres aptos a produzir e concorrer em igualdade de condições com seus congêneres estrangeiros. Nesse mergulho ao abismo tecnológico e ao poço da vergonha criam-se empregos para estrangeiros bem formados, geram-se índices estatísticos mascarados e a invencionice campeia solta nos discursos parafraseados com a única intenção de justificar o injustificável lançando objetivos sem planejamento, nem vontade política, nem compromisso com as boas cepas exigidas pelo futuro.
            O célebre pensador americano Alvin Toffler em sua monumental obra “O Choque do Futuro” escreveu que: “O homem é efêmero; perenes sãos seus sonhos e realizações, porque através dos sonhos nascem as utopias e através destas a humanidade se move rumo ao progresso real”. Portanto, sonhos são frutos de conhecimento e inspiração. Se escolas ruins são incapazes de transmitir conhecimento, não haverá homens/mulheres cultos capazes de sonhar, nem inspiração, nem utopias, nem realizações e muito menos progresso.
            Por conseguinte, não basta ser culto para sonhar. Há ainda que ser feliz... E o que se pode entender como felicidade? Segundo Moacyr Scliar: “o mais completo bem estar físico, mental e social”. Pois bem, à luz de tal definição pode-se afirmar que o corpo docente do ensino básico e médio nacional é composto de elementos no pleno gozo dessas faculdades? Diante de tal pergunta pairam enfáticos “nãos”. Causas são fartas: basta alguma convivência com esses heróis anônimos para se perceber o quão atarantados estão pelos problemas familiares, frustrações profissionais, desafios de toda ordem impostos por um sistema caótico, desorganizado e desorientado em cargas horárias duplas ou até triplas e ainda indefesos contra agressões de alunos raivosos drogados, na sua maioria filhos de pais ineptos. Como se não bastasse tamanho sofrimento ainda percebem salários aviltantes, insuficientes para a gorjeta dos engraxates de nobres governantes inúteis que têm demonstrado não valer o que comem. Portanto, diante de tão obscuro pesadelo, existe possibilidade de essas pessoas transmitirem a outras em formação a capacidade de sonhar acreditando em si e na nação cujo dever é protegê-las? Claramente a resposta é negativa. Então, que se culpem os demagogos proxenetas do povo indefeso com seus salários milionários, sempre munidos de farto corolário de desculpas, a fim de empurrarem cabeças inocentes à guilhotina e absolvam-se esses pobres inocentes, cuja única falta é serem vítimas do sistema e não fazerem parte do esquema coronelista colonial tacanho, que teima em manter a nação de joelhos para o seu bel desfrute.
            Peter Drucker, filósofo do pensamento corporativo, pai da administração, cujas teorias levaram centenas de empresas ao absoluto sucesso e à liderança global, sempre enfatizou, na maioria das suas obras, que a administração moderna é “a ciência que trata sobre pessoas nas organizações”. Portanto preconiza que de nada adiantarão gigantescos investimentos em maquinário, equipamentos e instalações, se o fator humano ficar em segundo plano. Primeiro investe-se em pessoas, plantando em suas mentes a satisfação que gerará motivação, comprometimento e criatividade. Depois as ofereça campo fértil adubado com reciclagem pessoal e vasta tecnologia. Os resultados serão auspiciosos lucros sociais e financeiros. Portanto, o primeiro passo é motivar pessoas as recompensando com salários à altura das pretensões da organização, pois não se podem superestimar os objetivos da corporação à custa da subestimação dos objetivos pessoais dos colaboradores. Fácil concluir que se as teses de Peter Drucker funcionam no ambiente corporativo, por-quê não funcionariam no sistema educacional, uma vez que ambos os meios são movidos pela mesma gente, susceptível a estímulos, ansiosa por sucesso profissional e realização pessoal?
            Mas, pelo que parece, nossos débeis governantes nunca ouviram falar nessas preciosidades e acham que apenas com belos discursos, falsas promessas, ameaças ditatoriais e salários miseráveis vão conseguir tocar as quase intangíveis cordas que impulsionam o despertar humano. Certamente continuarão preferindo trilhar caminho inverso no intuito de defender interesses pessoais à custa do subdesenvolvimento desse país atrelado ao passado, que para competir no mundo global futurístico precisa substituir o proselitismo administrativo por ações concretas e investimentos maciços em capital humano, assim como fizeram a Coréia do Sul, a Austrália, o Canadá, o Japão, a Finlândia, e alguns outros; pois do contrário continuará sendo apenas o retrógrado país do futuro inalcançável; palco da violência social e guerras entre classes, abarrotado de analfabetos funcionais, pobres de espírito, infelizes mal informados e ignorantes; movidos a míseras bolsas governamentais e enganados pela falácia do assistencialismo eleitoreiro praticado pelos novos social-comunistas jurássicos.


domingo, 4 de setembro de 2011

MULHERES PERDOEM-NOS, POIS CONTINUAMOS SEM SABER O QUE FAZEMOS!

            Certo poeta, ao definir Deus, sintetizou que Ele é menina e menino. Bela e genial definição altamente representativa da suavidade do criador; capaz de refletir a plenitude da criação, conquanto posicione os seres homem e mulher em extremidades distintas, porém lhes conferindo status de igualdade e alteza máxima. E ainda mais: ao dotá-los de razão, capacidade de amar e plena liberdade para escolher seus próprios destinos, nomeou-os herdeiros, exploradores e transformadores a Sua imagem e semelhança. Temos aí o que reconhecer como perfeita dialética fundamentada nos opostos homem mulher, porém, diante da pura inocência infantil a discussão dialética perde fundamento na fusão dos opostos e assim, deposta da sua natural contraposição, ganha novo status genérico baseado na síntese benevolente do amor angélico de Deus, que a todos ama e considera sem distinção.
            Entretanto, diante da grandeza da criação os humanos insistem em ser estrábicos nos seus parâmetros comportamentais e culturais cometendo barbáries incompreensíveis como também incompatíveis com a racionalidade. As homenagens fúnebres pela passagem dos dez anos dos ataques às torres gêmeas são sintomáticas trazendo à lembrança, com grande acuidade, fatos, invisíveis no dia a dia, mas que têm profunda repercussão na consciência de quem ainda consegue indignar-se nesse mundo tecnológico efervescente, aonde parâmetros éticos a cada dia perdem mais espaço cedendo lugar à crueldade fria e pragmática sempre a serviço da dominação ou do lucro a qualquer custo. Enfim, guerra é guerra imperando o vale tudo sem medidas de conseqüências. Homens esmagam homens como se dentre nós houvessem alienígenas compostos de outra matéria mais ou menos valiosa que esses frágeis ossos e carnes que desconhecem raça, cor, cultura; que desprovidos de vida, não valem mais que nada.
            Matar por matar, morrer por morrer! Banaliza-se a violência mortífera em detrimento da vida e todos perdem. Mas há ainda os que perdem mais do que aqueles que dramaticamente morrem. Viver na morte é a pior das penas sendo essa a sina macabra de milhões de mulheres, que vivem mortas condenadas à escravidão mórbida ditada por valores culturais exóticos, ditatoriais e cruéis, que fazem questão de descaracterizar os legítimos valores ensinados por Deus em nome da paz, da concórdia, do respeito às diversidades, da conduta ética, da liberdade no gozo da felicidade de todos; independente de raça, cultura ou sexo.
            Felizmente diante do lamentável show de intolerância bilateral, um fato vem abrandar o vexame da humanidade e aplacar a nossa vergonha de representantes da única espécie pensante. As viúvas das vítimas do setembro negro foram a Cabul levar condolências às viúvas afegãs daqueles que morreram em batalha. Lá encontraram a miséria humana na essência da palavra: mulheres que não valem mais que a fumaça do espocar das bombas que estremeceram o solo ressequido. Mulheres analfabetas, subnutridas, precocemente envelhecidas, acuadas e assustadas pela violência. Seres humanos sensíveis, indefesos usados e descartados como figuras imorais, cujos gritos de clemência não encontram ressonância nos corações enrijecidos de homens truculentos que vivem a oprimi-las mordazmente, as mantendo cobertas para que não esparjam impurezas cuja fonte não esta em seus corpos, mas nas mentes traquinas daqueles que as observam desprovidos do devido equilíbrio pregado e aconselhado por Deus.          Mulheres exploradas em servidão sem paga ou sub-valorizadas por salários aviltantes, prostituídas nos descaminhos da miséria, do desemprego, da exploração sexual. Mulheres escravizadas e emudecidas pela mordaça do medo de violentos covardes ou segregadas nas barreiras da ignorância produzida pela discriminação injusta do capitalismo selvagem, sempre incongruente com os direitos básicos do ser humano.  
            Ora, mulheres santas; muito mais semelhantes a Deus do que tantos homens; perdoem-nos por continuarmos sem saber o que fazemos! Obrigado por existirem e nos parirem! Obrigado por nos criarem e amamentarem! Obrigado pela vossa santa maternidade que gera, educa e ampara em titubeantes primeiros passos e sabe perdoar pelas tantas vezes que a injustiçamos embarcados no trêfego egoísmo masculino! Obrigado por florirem os jardins infecundos das nossas almas que sem o vosso fértil adubo jamais floriria! Obrigado pela vossa beleza feminina, pela vossa pele macia, pelas vossas mãos e corpos santos que reproduzem, encantam e seduzem! Ó Deus justo e manso; livrai-nos dos cegos e ímpios incapazes de admirar e se curvar diante dessa pintura sacra do quadro da criação!


MINEIRIDADES DA SÃO VICENTE DE MINAS DO CORAÇÃO

           Vocês aí dessas cidades grandes com cara, onda e jeito de capital; barulheira infernal, fumaceira, ladroeira, carro pra todo lado, calor e corpo suado a dar com pau, com seus montes de edifícios sem limite de altura, bufando de gente cara dura que nem se conhece e mal se cumprimenta; demais apressada pra chegar e voltar, muito entendida de ganhar dinheiro e muito desentendida de perder tempo na construção de boas amizades e bater papo à toa na toada da prosa boa; que não sabe como é bom uma pinguinha da branquinha ou da amarelinha com tira gosto de canjiquinha com costelinha ou de galinhada e pão ao alho no caldo grosso com bastante tomate e cebolinha.

Vocês que não conhecem como é bom tocar viola, cantar, estufar peito como cantor profissional debaixo do luar prateado do sertão com ou sem afinação, não importa; importante é estar perto do mundão de amigos, olhar juntos os céus, as estrelas piscando bem pertinho dos olhos e quase que das mãos. Sentir o friozinho do giadão, esquentar os pés à beira da fogueira estalando e depois esperar o sol raiar bem lá na corcova das montanhas disputando com a lua cheia tanta beleza que dói de prazer a alma; e aí, vêm os passarinhos cantando e voando e rindo de tudo e do bruto ressacão. Hora de voltar, de descansar, curar a ressaca para trabalhar a semana inteira de tirar leite, de apartar a vacada, de tratar da cachorrada, de ver onde a galinha anda botando a produção e se as novas ninhadas já deram algum sinal de vida.

Vocês aí dessas imensas cidades que têm de tudo, muito desenvolvidas, hão de estar perguntando de onde eu sou. Pois é: sou mineiro, mais do cantinho do céu de São Vicente de Minas, do alto e dos fundos das montanhas, das beiras dos córregos limpinhos, desses ranchinhos de chão batido, dessas fazendas de gado leiteiro também de mangalarga marchador, desses rios que mais parecem cobras gigantes, que viram pra lá e pra cá, fingem que vão, mas voltam e depois vão mesmo; cheinhos de lambaris, piaus, dourados e mandis todos bons para comer fritinhos ou ensopadinhos. Aqui não tem edifícios altos que nem aí, mas há um mundo de casas cheias de gente boa, de gente prestativa, que corre nos pensamentos e nas intenções sempre de ajudar, mas anda bem devagarzinho nos rumos das outras coisas. Afinal, correr pra que, se nós já sabemos há muito tempo que correndo ou indo devagar vamos chegar do mesmo jeito?

Nessa nossa terrinha santa de São Vicente de Minas, nós temos mais progresso é nas gentes de bem que nem se comparam com as de vocês daí. Trancar porta e janelas aqui só é necessário para tapar o sol, a chuva, o frio e o vento. Ninguém fecha pra valer com trinco e chave, pois um amigo pode chegar e vai ficar muito mal não poder entrar da primeira. As visitas aqui são todas do peito e já de cara, logo na chegada, o que se escuta é a voz amiga dos de casa: - entra compadre. Vá chegando comadre! Senta, toma um cafezinho quentinho com pão de queijo e broa de fubá.

Enquanto vocês daí têm essas grandes avenidas cheias de problemas, entupidas de gente, ladrão, carro e sinal; nós daqui temos calçadão pra sentar, beber e prosear. Temos carnaval com desfile também fantasia, procissão pra rezar com fé, quadrilha nas festanças de São Pedro e São João, missa de sábado e domingo, enterro e sétimo dia, de mês, de ano e tudo. Também festa do Divino com missa e reza, procissão, barraquinha, leilão, forró ao luar com todas as gentes alegres mesmo no frio e na poeirada. Se chover, não há problema!

Temos exposição agropecuária de animação anual sem contar especial homenagem ao conterrâneo ausente! É festa quase duas semanas inteiras com trucada e boiada de qualidade nos leilões, disputa da vacada leiteira, bicharada, artesanato e cantoria das muitas duplas famosas desse Brasilzão afora. Ainda tem cavalgada pra Aparecida e outras bandas também. Ah, pra variar tem Macuco! Vocês sabem o que é isso? Podem ser duas coisas: um passarinho ou um bar bom de paquerar e dançar com aquela mulherada que vem de todos os lados. Se duvidarem, vão lá pra conferir; a Kátia não me deixará mentir.

Pra dormir, vocês pensam que temos barulhada? Nada disso! Nós aqui somos civilizados e muito respeitosos com sono dos outros. A não ser lá pelas bandas do Psiu Vem Cá, quando os fanqueiros botam pra quebrar ou a cachorrada vira-latas resolve latir a noite inteira; tem silêncio gostoso e o maior barulho que pode acontecer é a sinfonia dos sapos, dos galos, das corujas, o silvo dos morcegos e ao amanhecer bem cedinho, os bandos de pássaros, de maitacas passando bem apressados em busca de milho e jabuticaba docinha.

Vocês aí dessas cidades complicadas pensam que estão no mundo desenvolvido, que sabem de tudo melhor do que nós, mas estão muito enganados. Pensam que pra saber precisa estar aí nessa confusão?  Nós sabemos muito mais, porque temos muito mais tempo pra pensar e filosofar. Aqui na nossa São Vicente do coração e das Gerais, não usa falar muito, quando o caso é sério. Aqui funciona mais é a imaginação e cada um entende o outro e só num simples olhar. O povo é bom de imaginação e na complicação deixa ficar como está pra ver como vai ficar. Aí, quando menos se espera, vem a solução... Nós mineiros somos assim: resolvemos as coisas é na calma e na sabedoria. Afinal, onde é que mais se confia desconfiando? Mas os mineiros vicencianos desconfiam mesmo é desses que aparecem de uma hora pra outra, como quem não quer nada, e vêm com umas prosas e jeitos esquisitos de estranhar.


domingo, 28 de agosto de 2011

ABAIXO OS BARBUDOS BIGODUDOS

      
           Algumas passagens marcam por demais nossas vidas e figuraram de maneira profunda na lembrança, uma vez que novos fatos insistem em acontecer com tal semelhança, que, além de surpreender, insistentemente nos remetem ao passado de maneira a reviver cenas hilariantes e engraçadas.
            Certa vez, ainda na juventude, estávamos eu e alguns amigos adolescentes, todos ostentando longos cabelos, algumas penugens no rosto que orgulhosamente chamávamos barba, metidos naquelas monumentais calças Lee boca de sino e assim, em perfeito alinhamento com a moda ditada pelos Beatles e outros importantes ícones do sagrado rock and roll, ouvíamos músicas altas reproduzidas numa radiola portátil Phillips – esse era o nome do equipamento de ultima geração – que bem instalada numa soleira repassava os belos rocks lendários, enquanto dançávamos e cantávamos irreverentemente, ao passo que outros volteavam de bicicleta fazendo piruetas sobre a calçada num vai e vem frenético embalado nos arroubos calóricos da juventude. Quando, de repente, lá vinha o velho Chico Gato; figura esmaecida e cambaleante em alguns copos de cachaça. Na meia escuridão da rua pôde-se prever a eminente confusão. O dito cujo caminhava exatamente em nossa direção e já sabíamos que nenhum de nós estava disposto a lhe dar passagem. Muito menos o eternamente embriagado, tenaz implicante, pretendia desviar-se do catastrófico encontro. Chico Gato, então, agarrado nas suas ultimas forças, firmou o passo caótico e veio direto num decidido encontrão contra a parede compacta a sua frente. Levou logo um empurrão que o fez voar que nem pluma lá pelo meio da rua. Logo que se restabeleceu do vôo rasante, depois de ter batido a poeira da roupa surrada, voltou à carga, agora num falatório frenético e gritado, composto de algumas dezenas de frases desencontradas, recheadas de palavrões acompanhados de um discurso característico dos bêbados tresnoitados. Dizia ele:
- “seus interceptos, maconheiros, cabeludos, barbudos, bigodudos, corruptos, ladrões; vocês pensam que são donos da rua? Vocês não sabem com quem estão falando! Amanhã vou colocá-los todos na cadeia”. 
E assim terminou a noite do bêbado Chico Gato e dos cabeludos baderneiros, que ficou gravada na memória com certo orgulho e grande arrependimento.
            Mais adiante, passados tantos anos que não posso me lembrar, meu velho pai, que mantinha estreitas relações com um Regimento de Infantaria do Exército, chegou em casa solidário com a cólera do comandante profundamente indignado com a insubordinação de um praça. Se não me engano, sua patente era a de cabo. O simplório e insolente alfaia, logo depois de algum tempo de férias, meteu-se em seus aparatos militares e se apresentou para o serviço sob um vasto e negro bigodão, bravamente bem instalado numa cara sem vergonha que devia estar lisa como bundinha de neném, para o comandante passar o algodão de baixo para cima. O tenente oficial do dia, logo lhe meteu uma parte que foi parar direto sobre a mesa do coronel. Chamado a se explicar o bigodudo não titubeou em informar que preferia a morte à subtração daquela maravilha. E só não morreu, porque a cadeia foi mais dura que a morte e antes que ela viesse resolveu passar o rodo na sujeira sem tamanho.
            Passados tantos anos e diante dos fatos absurdos que assolam nosso governo abarrotado de larápios e pistoleiros de gravata em punho, essas estórias do passado me vêm à mente numa correlação perfeita. Se nosso Chico Gato fosse vivo, certamente seu discurso ganharia repercussão nacional. Afinal, quantos interceptos contumazes obstruem nosso caminho ao desenvolvimento e sujam os livros da nossa combalida história com sua ladroagem nacional? Outro dia um intercepto senador nordestino do PMPQP, um cara de pau, sem bigodão irreverente, porém demais desafiador, garantiu a um outro intercepto que seu partido, o velho de guerra PMPQP, esteve e estará ao seu lado em qualquer situação. Confesso que fiquei deveras emocionado com tamanha solidariedade entre interceptos de colarinho branco. Aliás, essa velha solidariedade é historicamente comum entre interceptos; por isso naquela memorável noite o velho Chico Gato voou como nossa paciência tem voado de raiva ao ver os insultos dos nossos suínos governamentais diariamente emporcalhando as edições dos noticiários nacionais.
            Afora tudo isso; agora, depois da saída do velho ministro da defesa, o Sr. Jobim; que nos defendeu de tudo, menos da ANAC e dos seus aviões e aeroportos sem relógio, outra incrível coincidência me vem fazer lembrar o cabo bigodudo. Aliás, cabo bigodudo pode ser também cabo de vassoura. O ex-ministro diplome mata Celso Amorin, comuna-democrata petista puxa saco de ditadores como Fidel, Chaves e Ahmadinejad; travestido com aquela barbicha e aquele bigodinho feiosos vai fazer os generais lhe prestarem continência. Se fosse eu, não prestava de jeito nenhum; preferia me mudar para Caracas e ficar lá tomando banho o dia inteiro para ver se acabava com todas aquelas favelas horrorosas que sujam a paisagem e o currículo do chaveiro comunista pestalose presidente Chaves. Por outro lado digo um sonoro “BEM FEITO” aos generais, porque se esqueceram daquela velha máxima do futebol: “Quem não faz, leva”.  Curvem-se para o barbicha, afinal quem manda é o PT mesmo! A Dilma? Essa pensa que manda, mas mandava muito mais no tempo do Lulinha Marolinha Maravilha. Agora?!...Mandam os barbudos bigodudos e interceptos.





          

domingo, 14 de agosto de 2011

ANIVERSÁRIO DE MARIA ESTELA - PAIOL - S VICENTE DE MINAS

Nesta importante noite em que tantos aqui se reuniram para prestar homenagem a esta grande senhora, nossa querida Maria Estela, me seria impossível deixar de marcar no mural da sua bela história de vida, algumas palavras, que, sinceramente acredito, configurem a opinião unânime de todos que aqui agora se encontram.
 O fato de se completar 80 anos é algo que na verdade paira em nosso íntimo como uma imensa interrogação. Como será chegar lá? A resposta certamente virá no embalo do tempo pela sua inexorabilidade. Quem não desembarcar do barco do tempo, um dia, com toda certeza, terá sua resposta. Positiva ou negativa? Eis a questão!... Mas o que é esse tal barco do tempo? A resposta é obvia: barco do tempo é a vida. Só chegam lá os agraciados por Deus pela longevidade. Vida longa é benção, é sorte, é vitória sobre a grande e perigosa aventura que é viver.
 Belo presente divino chegar aos 80 anos, cheia de vida, saudável, alegre, lúcida acariciada por dezenas de amigos prenhes de carinho, ternura e gratidão pela sua terna presença, pela paz que nos transmite seu cálido abraço, pela emoção que transborda em nossos corações o som da sua suave e amigável voz. Maria Estela vem lá, com seu indefectível sorrisinho, passinho por passinho, bem devagarzinho. Entretanto, como sempre aparências enganam, por detrás da imagem de mulher pequena e frágil, também a acompanha a gigante octogenária, sovada pelo tempo, carregada de experiências, de equilíbrio, da boa ética tão rara nos mais moços e nos tempos modernos. Um alicerce que jamais o tempo consumirá, pois aí está sua prole, que continuará trespassando as calendas do tempo levando consigo bons exemplos e o gene do tronco dadivoso.

Quem dera todos que aqui agora estão pudessem chegar nesses altos cumes dos oitenta anos! Quem dera todos que aqui estão, um dia, pudessem se acercar dessas dezenas de admiradores, dentre eles amigos vindos de distantes rincões, filhos orgulhosos, netos benfazejos; e todos de mãos estendidas acariciando nossos cabelos brancos, nevados pelo tempo e abençoados pelos bons desígnios de Deus!
 Mas há muito mais a considerar sobre a boa estrela dessa nobre senhora. Sem o intuito de querer mexericar, há quem diga que nas artes da canastra não há igual nestas paragens. Como boa oponente gosta de ganhar. Uns dizem que é na pura conta da sorte. Outros, simplesmente atribuem à brilhante competência. E outros!... Ah esses outros linguarudos!  Daqueles que têm mania de perseguição; dizem que ao perder, chora, esperneia e desconsolada bota culpa na parceira, que nunca da devida atenção na peleja. Dizem, não posso garantir, que, certa vez, ela e parceira não paravam de ganhar. Desconfiada, a dupla adversária contou as cartas e descobriu que misteriosamente o baralho de 52 cartas, pulou para 62. Maria Estela balançou os ombros e disse não saber explicar o acontecido e até hoje não encontraram explicação. Quem a souber, por favor, queira nos contar.
 Querida amiga, não se aborreça conosco. Já disse que isto é intriga da oposição. Sabemos das suas qualidades e o quanto é bom recebê-la em nossa casa nas tardes de domingo, quando sua presença vem alegrar e enriquecer nosso convívio e adoçar aquele mesão de café com leite pão, manteiga e queijo mineiro.
 Já falei demais! Agora o que esse mundão de amigos quer mesmo é lhe desejar um feliz aniversário, muita sorte, paz e bênçãos divinas.
            
             Parabéns e pinga na moçada!