APRESENTAÇÃO


O conjunto de trabalhos que o amigo leitor encontrará adiante foi produzido ao longo de alguns anos. Não posso aqui precisar quantos, talvez uns vinte. A grande maioria deles foi publicada no jornal A TRIBUNA SANJOANENSE, o semanário mais antigo de São João del-Rei, minha terra natal. Obviamente há uma cronologia de publicação associada aos acontecimentos que inspiraram as respectivas produções. Depois de muito pensar, se deveria mencionar datas, resolvi aboli-las, pois achei que correria o risco de tornar seu passeio um tanto dirigido e até cansativo. Posso imaginar alguém lendo algo retratando fato acontecido há anos! Talvez se sinta desmotivado. Então, no intuito de instigá-lo, apresento uma miscelânea de trabalhos recentes e antigos, a fim de lhe subtrair, de propósito, qualquer direcionamento e deixá-lo livre para pensar, buscando no tempo, por si, tal associação. Acredito ainda que dessa forma esteja incitando sua curiosidade à medida que avance páginas adentro. Sua leitura poderá inclusive ter início pelo fim ou pelo meio, que não haverá prejuízo algum para a percepção de que as coisas no Brasil nunca mudam. Ficará fácil constatar que a vontade política é trabalhada para a perpetuação da incompetência administrativa, obviamente frutífera para algumas minorias. Penso que, se me dispus a estas publicações, deva estar antes de tudo, suscetível a criticas e, portanto, nada melhor que deixá-lo, valendo-se unicamente das informações contidas no texto, localizar-se na história. Caso não lhe seja possível, temo que o trabalho perca qualidade perante seu julgamento pessoal. Por conseguinte, acredito que isso não acontecerá; a não ser que não tenha, a seu tempo, tomado conhecimento dos fatos aqui retratados. Procurei selecionar de tudo um pouco; certamente sempre críticas, porém algumas muito sérias carregadas de um claro amargor. Outras, mais suaves, pândegas e até envoltas num humor sarcástico. Noutras retrato problemas da minha São João del-Rei. Até cartas para congressistas em Brasília há. E em alguns pontos, para abusar da sua paciência, introduzi coisas muito particulares. Críticas à parte, nessas, apenas falo de mim, afinal, apesar de amigos, talvez nunca tenhamos trocado impressões sobre coisas tão pessoais. . .
Aqueles que me conhecem há tempos, sabem que sou um obstinado por política, apesar de jamais tê-la exercido diretamente. Motivos houve de sobra e numa oportunidade poderei explaná-los. Todavia, do fundo do coração, afirmo que tal paixão tem como motor um doloroso inconformismo por ver o Brasil tão esplêndido e tão vilipendiado; vítima inconteste dessa cultura avassaladora de demasiada tolerância à antiética imoral na administração pública. Comprovadamente este é o pior dos tsunames com potencial para ter retardado nosso progresso mais de três séculos e grande responsável pela perpetuação da pobreza de metade da nossa população, pelo analfabetismo total e funcional, pela violência social e pelo abismo intransponível que aliena gigantesco contingente, maior que um quinto da população do continente. Diante do inaceitável absurdo, impossível me conformar em silencio diante dos atos e fatos que vão vergonhosamente enxovalhando nossa história e nos deixando como um gigante deitado sobre o escravismo que a Lei Áurea não foi capaz de abolir. O título? Esse, talvez, seja o mais difícil explicar. Gritos sem ecos representam uma espécie de pedido de socorro do náufrago, que sabe que de nada adiantará espernear, pois não há interlocutores, não há socorro, não há saída, não há conscientização; mas, assim mesmo, grita-se.

Será um prazer receber sua visita e ler suas opiniões, elogios ou críticas.

Forte abraço!



domingo, 23 de agosto de 2015

O LULISMO E O MANICÔMIO BRASIL



O LULISMO E O MANICÔMIO BRASIL

Dentre as inúmeras obras Machadianas há uma que suplantou várias em qualidade descritiva e genialidade imaginativa. Estamos nos referindo ao conto “O ALIENISTA”, cuja personagem era certo médico, o Dr. Simão Bacamarte; uma espécie de cientista louco, que se metera nos estudos da mente humana. Quanto mais estudava, mais concluía que cada um dos moradores da cidade era um desmiolado e fazia jus a internação para tratamento mental. Até que um dia, quando quase toda a população da cidade se encontrava internada uma guinada caprichosa do destino fez com que o feitiço virasse contra o feiticeiro, sendo ele o último a ser internado.

Valendo-me de um paralelismo entre a ficção tão bem trabalhada pelo humor crítico do escritor, venho à tona para me debater de corpo, alma e muita indignação diante da dura realidade que hora vivemos no Brasil dirigido e dominado pelo Lulismo ou, porque não dizer, pelo Petismo?!

Há exatos onze anos, quando estávamos às vésperas das eleições presidenciais, que conduziriam Lula ao Planalto, meu amigo Ozires Valadão, um santista de coração, fez uma previsão ancorada na experiência desastrosa sofrida pela população da sua querida cidade de Santos, a qual havia sido governada pela prefeita petista Telma e seu bando de pelegos. Guardada a devida proporção, Telma era a Dilma santista e a cidade se encontrava mergulhada no caos e na estagnação. Não havia outra saída: PT fora era o sonho do indignado eleitor.

Ozires Valadão, baseado na sua larga experiência como velho advogado e anti-petista de carteirinha, a certa altura da conversa, lancetou um olhar de peixe morto para o infinito e decretou:
- "Você verá, se esse tal Lula ganhar, com quantos paus se faz uma canoa!
Esse cara é um alienado, o conheço desde outros carnavais; sempre mantém uma quadrilha a sua volta! Tem pavor de trabalhar, só pensa em greve e onde entra a confusão esta formada!".
Eu, do altar da minha inocência, achava que já conhecia o fantasma da ópera política, mas depois desse monte de macabras previsões dum cara que tinha no currículo defesas e acusações a favor e contra Deus e o diabo, um calafrio me trespassou a espinha, mas de nada adiantou. Algum tempo depois assisti ao Lula festejar, chorar de alegria e voltar a afirmar suas promessas de campanha:
 - "Farei desse país uma grande nação; obrigado meu povo por confiar em mim! Vocês não vão se arrepender!".

Com Lula na presidência o tempo passou, Telma sumiu, a prefeitura e a cidade respiraram aliviadas e o tempo continuou passando, passando, até que outro dia, no meio sonolento duma ressaca dominical, o telefone entrou rasgando como uma flecha lançada por Touro Sentado. Atendi como se pega num pescoço a fim de esganá-lo, e lá no fundo ouvi a voz raivosa e crítica do Ozires, que aos gritos me lembrou:
- "Eu te falei! Eu te falei! Taí a confusão! Quero ver agora o Brasil sair dessa bagunça!
Todo dia me lembro da Telma e desejo que ela esteja no inferno e é pra onde esse safado do Lula também merece ir!"
Eu, é claro, a fim de amenizar os arroubos do Ozires argumentei que Telma e Lula não poderiam ser assim cruelmente defenestrados, sem dó nem piedade, para o inferno, porque Deus a tudo perdoa. E ele, do outro lado, gritou mais alto ainda:  
- Claro que é pra lá que eles devem ir. Coitado do capeta! Deus e você também viraram a folha?!

Diante da mixórdia, que o Brasil esta, pergunto:
- A ida de Lula para o inferno resolveria alguma coisa? Talvez, melhor fosse um diagnóstico do Dr. Bacamarte decretando internação, a fim de se tratar da alienação psíquica, cívica, social e política.

Aurélio Buarque definiu o alienado como louco. Eu prefiro defini-lo como aquele que não tem a propriedade de si próprio. Lula seria um desses?
Quando migrou do nordeste num pau de arara trouxe consigo as marcas da discriminação e do sofrimento. Experimentou na carne como é duro estar do outro lado do abismo, que sempre dividiu a sociedade brasileira em privilegiados e escarnecidos. Mas o menino Luiz Inácio cresceu e o que antes eram apenas tristes lembranças o transformaram num homem rancoroso, recalcado, revoltado com as estruturas sociais, com o patronato, com o capitalismo e com o Estado Industrial. Tudo isso, ainda hoje, em sua cabeça, representa os coronéis nordestinos. No entanto, ao se eleger presidente, o poder lhe subiu à cabeça, o cooptou e num deles o transformou.

Compreende-se que sua sede de justiça fosse grande. Para saciá-la, natural que se associasse à grande força contestadora, cuja bandeira foi erguida a partir das teorias marxistas que preconizam um Estado Paternalista capaz de colocar mordaça na crueldade do imperialismo capitalista. Então seguiu a surrada cartilha Marxista Leninista baseada na revolta do proletariado e na demonização do capital, representado pelos estados capitalistas do ocidente, com ênfase nos Estados Unidos. A nomeação de um grande satã é estratégia indispensável para os marxistas de todas as épocas, pois o exercício da arte de alienar compõe-se também da arte de mentir. A história dos estados comunistas é tão ou mais suja que tudo que eles criticam no mundo capitalista com um  importante gravame: a pobreza que eles dizem odiar e combater nunca conseguiram erradicar por incompetência gerencial baseada em ditadura, corrupção, falta de compromisso ético, demagogia e desprezo com o desenvolvimento educacional da massa popular.

Ademais, o rancor não pode ser o melhor parceiro de quem almeja o estadismo. Candidatos a estadistas devem ser homens/mulheres de alta formação democrática, ética e moral; além de serem apaixonados pela nacionalidade, pela diversidade de opiniões, obstinados pela liberdade e sua leveza. Lula, desprovido desse aparelhamento, então confiou na sua habilidade de reunir amigos fieis desde que a verba fosse farta. Montado no seu eficiente cavalo alado voava para Cuba, a fim de se aperfeiçoar na arte comunista de mandar sem ser contestado. Assim, se aproveitando dos bons ventos capitalistas, que sopravam a favor durante quase todo o seu governo, dividiu-se em dois.
O primeiro representado na figura do governante bondoso que distribui dinheiro para os pobres, a fim de resgatá-los da miséria e sorrateiramente comprar seus preciosos votos. O segundo, uma espécie de domador do capitalismo; um Espírito Santo de Orelhas do governo Dilma, cujo porrete sempre foi a dissimulação populista, a opressão tributária, a ineficiência, a incerteza pela falta de regras claras e o desprezo pela verdade.
Cometeu falta na grande área e derrubou a galinha dos ovos de ouro.
A verba para seu albergue de alienados vem da produção e à medida que ela vai minguando pela falta de investimentos, a inflação aumenta, os salários se desvalorizam, a arrecadação despenca, o Brasil vai mergulhando na recessão, sujando sua imagem externa e espantando os investidores nacionais e internacionais.

Como recursos não caem do céu e comunistas não sabem fazer dinheiro sem a ajuda dos capitalistas, o bom pai esta quebrando a cara com seu próprio punho. Ledo engano dos camaradas imaginarem ser possível alcançar crescimento sustentável enfraquecendo a estrutura capitalista, a democracia, a criatividade, o empreendedorismo e as liberdades individuais. Esqueceram-se que pobres para saírem da pobreza não precisam de esmolas, mas de educação de alta qualidade e de um Estado cumpridor da Lei Constitucional, a qual determina que todos são iguais perante a lei não só na hora de votar e pagar impostos, mas também no direito à educação básica de alta qualidade e a uma infra-estrutura social à altura da Democracia ampla, geral e irrestrita, prevista na Constituição Federal Brasileira.

Hoje, passados quase vinte anos do caos na Prefeitura de Santos e das previsões sombrias do advogado vidente Ozires Valadão, vejo o quanto as loucuras parodiadas pelo gênio de Machado de Assis, aquele que morreu há um século, época em que cachorros respeitavam linguiças, ainda vivem presentes no manicômio Brasil.
Afinal, onde estão os loucos; dentro ou fora dos hospícios?
No governo ou fora dele?

p/ANTONIO KLEBER DOS SANTOS CECÍLIO


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

MORRE O HOMEM, FICA A SAUDADE, NASCE O MITO - HOMENAGEM POSTUMA AO SAUDOSO GILBERTO



HOMENAGEM PÓSTUMA AO SAUDOSO GILBERTO RIBEIRO LIMA, O VICENCIANO* AUSENTE.
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MORRE O HOMEM, NASCE O MITO, FICA A SAUDADE!
                 
                  Critica-se a cultura ocidental, porque nela não há espaço para a morte, assim contrariando-se os ensinamentos cristãos e também de algumas outras religiões que consideram a morte apenas uma passagem e renascimento para nova e etérea vida; quando os bons herdarão o reino de Deus e os maus arderão nas chamas do inferno.
                A época era o final dos anos sessenta, principio dos setenta e nós não lembrávamos nem da salvação, nem da condenação e muito menos da morte. Éramos puros e eternos!
                O mundo ardia nas ondas da Guerra Fria, as superpotências ameaçavam dar um fim ao planeta, Marx era nosso guru, a mini-saia nossa paixão e o rock and roll nossa inspiração. Calça Lee boca de sino, cinturão, camiseta curta e apertadinha, sapato tipo astronauta, crucifixo ou interrogação no pescoço, cabelos e barbas longas era nosso visual.
                Festival de Woodstock acabara de acontecer para plantar nos espíritos jovens a contestação contra toda ordem estabelecida. Protestava-se contra tudo e todos! O lema central era a liberdade absoluta. Tabus deviam ser colocados abaixo! Velhas regras, velhos conceitos, bolero, tango, samba; nada disso valia mais que as baladas dos Beatles, a efervescência dos Rolling Stones, os protestos românticos de Bob Dylan, a cadência energética do Creedence e os acordes da guitarra incendiária do genial Jimi Hendrix.
                Roberto Carlos não era o cara e fora reduzido ao desprezível lugar de Pato Carlos, o cantor de canções de ninar. Odiávamos a Tropicália. Os ídolos nacionais eram o indômito Raul Seixas, a Mosca da Sopa e a respeitável louca sabedoria de dez mil anos.
                Foi nesse ambiente de conturbação social, efervescência política, paz, amor e rock, que conhecemos o velho guerreiro Gilberto; o admirável sósia do Raul Seixas. Este estava bem próximo e palpável, diferente do outro, bem distante. A cada novo lançamento do “Maluco Beleza” ele vibrava como ninguém, trazia a letra num pequeno papelzinho e hora e outra batucava e cantarolava na roda da mesa onde se assentasse.
                Admirado por todos! Presença sempre querida, pois ali estava o cara de alma leve, engraçado, simpático, animado. Suas noites nunca passavam da infância. Para ele a noite era sempre uma criança, não importava a posição dos ponteiros do relógio, frio, chuva, neblina. Se houvesse companhia disponível e um violão roqueiro debaixo do braço, apenas o sol dava fim aos encantos da madrugada.
                Além dos amigos, do rock, da paz e das noitadas bem acompanhado, Gilberto carregava em mente outro importante dogma; também sua marca registrada. Amava a Justiça e sofria com a eterna desigualdade, que sempre assolou o mundo e o Brasil. Sonhava acordado com tempos melhores, quando houvesse espaço para todos. Os fracos e rejeitados tinham morada fixa em seu grande coração, nunca deixava de lhes dar atenção; um copo de cerveja para o bêbado da hora, um sanduíche para a criança pedinte, a mão estendida à velha senhora que atravessava a rua, o braço no ombro do amigo que aparecia triste. Sobre o bêbado, justificava que mais um menos um copo, não faria diferença. Importante era não desprezar o pobre coitado.
                O eterno barbudo, amigo de todos os amigos, mesmo tendo olhos largos para longínquos mundos e para a divina filosofia ideológica que sempre inundou seu inquieto espírito de homem bom e solidário, nutria, antes de tudo, demasiado amor por sua querida e aconchegante São Vicente de Minas. Dizia ele que aqui os amigos são mais amigos, os ares mais puros e que a combinação de ares e amizades recarregava suas baterias.         
                Para qui veio e daqui nunca mais saiu. Plantou raízes perto da família, dos amigos e do seu lendário bar. Enquanto a cidade dormia, o bar sorria de tanta juventude, frenesi, alegria, cheiro bom de pizza e, para finalizar, o cordial tapinha nas costas junto a um pedido de desculpas: - “Me desculpe a correria! E que sou eu e meu irmão para atender tanta gente e aí acontecem uns probleminhas. Na próxima vez vamos melhorar!”
                O velho jovem tinha também uma curtição que apenas os mais íntimos conheceram. Amava a família, a história dos antepassados, as aventuras da infância junto aos primos. Era o primeiro a telefonar comunicando a morte de um ente querido e antes de mais ninguém lá estava ele prestando as últimas homenagens.
                Enfim, foi-se a figura icônica, ficaram três gerações órfãs da sua hospitalidade, do jeito singular de ser, da presença bem vinda em todos os momentos festivos. Mesmo depois dos tantos cabelos brancos, jamais deixou de ser jovem e carregar no olhar um ponto de interrogação e outro de exclamação.  O crucifixo estava agora estampado na alma, tudo ornado com o inesquecível meio sorriso como que querendo dizer: - Enfim cheguei! Nesse momento ele era os fogos da nossa festa, assim sentiam nossos corações.
                Descanse em paz velho curiango e, se puder peça ao seu santo de devoção que zele pelos amigos e admiradores que aqui ficaram, orando por você, nosso túnel do tempo.

ANTÔNIO KLEBER DOS SANTOS CECÍLIO.

* Natural da cidade de São Vicente de Minas; localizada no Estado de Minas Gerais



quarta-feira, 12 de agosto de 2015

CARTA ENVIADA AO CANDIDATO AECIO NEVES



CARTA ENVIADA AO CANDIDATO A PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA UM ANO E SETE MESES ANTES DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS BRASILEIRAS DE OUTUBRO DE 2014.

É PRECISO TER CONHECIMENTO HISTÓRICO, PARA ENTENDER O PRESENTE E DELINEAR O FUTURO!       

 São Vicente de Minas, 16 de março de 2013

Caro amigo Aécio!
Como bom mineiro, sanjoanense* e copartidário, venho prestando especial atenção nos seus passos rumo ao palácio do planalto, logo depois do seu desligamento do governo de Minas, para se candidatar ao Senado Federal. Confesso não ter visto com bons olhos sua inclusão nas fileiras daquela casa, em vista da má fama que vem angariando nossos representantes parlamentares nos últimos anos. Conheço seus princípios de retidão e de compromisso com a ética; no entanto também sei que maus ambientes têm certo poder de cooptar homens e tive receio do seu desgaste naquele dia a dia de mexericos e conluios travessos contra o povo brasileiro e nossa democracia conquistada a duras penas. Pensei que a conclusão do seu mandato no governo do Estado e um afastamento da ribalta midiática por algum tempo com aparições bem calculadas em ocasiões e horas certas pudesse angariar melhor acréscimo para sua estatura política tão bem delineada com mais de setenta por cento de aprovação popular em Minas Gerais, o nosso grande Estado.
            Entretanto como logicamente deveria prevalecer sua escolha e certamente a do PSDB, sua candidatura fora lançada e felizmente aprovada pelo povo. Daí passamos a esperar com entusiasmo a oposição cerrada ao governo, ação prometida por você em campanha, quando faria couro com outras vozes de peso da oposição que nunca se cansam de fiscalizar e apontar os eventuais desvios e falhas do governo. Mas para nossa decepção não foi o que aconteceu. Segundo opinião não só das fileiras de base do PSDB, como também de outros membros da oposição houve certa unanimidade em observar inexplicável timidez na sua atuação com poucas e raras aparições e apartes. Apesar de conhecermos bem as rígidas regras hierárquicas que regulam o jogo parlamentar, ainda assim causou-nos certa decepção ver um candidato que se propõe a enfrentar dura pedreira pela frente numa posição tão discreta, recatada e até apagada.
            Até que enfim, outro dia, na comemoração do primeiro decênio do PT no poder tivemos o prazer de vê-lo ocupar a tribuna de maneira bastante ostensiva e peremptória e mostrar a que veio. Muito boa e bem discursada a sua exposição sobre os treze pecados mortais deles no poder durante longos dez anos. Entretanto acredito não ter sido certa a data, o local e os canais de divulgação. A impressão que tivemos aqui da platéia foi a de que o que os estrategistas do PSDB calcularam não aconteceu. Um discurso de tal importância, de um candidato do seu calibre e respeitabilidade, carta guardada na manga há tempos, que se esperava ter uma repercussão de arromba; ao contrário, anuviou-se num espírito bastante acanhado e por fim se esvaiu em debates inócuos, que têm relativo valor positivo no âmbito parlamentar, mas em termos de alcance e entendimento para eleitores não teve algum. Certamente nem um por cento do colégio eleitoral, que define eleições, não o viu e ouviu. E ainda serviu para encrespar os ânimos do comandante Lula e dos outros caciques para inflamá-lo ainda mais e incentiva-lo a tomar o microfone a fim gritar palavras de ordem contra os oposicionistas  inconsequentes.
            Infelizmente amigo, não acredito que será dessa vez que o PT perderá o mandato presidencial. Eles apesar dos tantos escândalos e da aparente consternação social têm a seu favor a máquina, a palavra e o que é ainda mais forte: contam com a paixão popular construída por um populismo paternal que foi capaz de semear no coração do povo “esperança” ainda que efêmera, mas verdadeira. O povo pelo seu baixo nível de informação não é capaz de analisar informações positivas ou negativas de forma profunda. A leitura popular dos acontecimentos é imediatista, quer ver resultados no bolso e na panela, não importa se daqui a dois meses tudo tenha mudado para pior. Não importa se os fundamentos da economia vão bem ou mal, se as empresas estão sendo engolfadas num mar de impostos, não sabe o que significa IDH, custo Brasil e muito menos que o presidente Fernando Henrique trabalhou duro para recolocar o Brasil nos eixos. Ao ouvirem o nome Lula logo pensam em bondade heroica, no político de origem pobre, que teve coragem e competência para resgatá-los do esquecimento. O trabalhador que acorda cedo para lutar ganhando mal não lê Revista Veja, nem assiste TV Senado e muito menos tem TV por assinatura para se esclarecer. Esta alienado pela programação aberta de baixa qualidade e preocupado apenas com novelas comerciais, sensacionalismo e nada mais.
            Além do mais amigo, não existe no mundo do marketing quem trabalhe melhor a mentalidade humana que a esquerda de tendência social comunista. Enquanto o mundo dorme, se distrai, vai ao supermercado, estuda, cuida dos filhos; eles fazem isso tudo e nas horas vagas confabulam, planejam, calculam de modo que cada passo, cada ação, cada movimento de olhos ou de mãos seja calculado para impressionar, para impactar. Não há quem melhor dissimule e quem melhor invente histórias apaixonantes para encantar a opinião publica. Veja o caso de Cuba. Depois de mais de meio século de ditadura e cumplicidade com o regime soviético construtor do Muro de Berlim os caras ainda conseguem encantar metade do continente apoiados em uma nuvem mágica de mentiras com potencial para convencer mais do que a milenar Igreja Católica, que vem perdendo fieis a cada dia. Nem o PCdoB tem a competência dos petistas para fazer executar a mágica política do encantamento verborrágico populista assistencialista. Os caras são velhos nesse trabalho e trazem inspiração lá de Marx, quando em 1917 os bolcheviques conseguiram derrubar o Czar embalados no teatro de Lênin, o Lula ou o Hugo Chávez Russo. O passionalismo usado por eles não enche barriga, mas encanta, arrepia os cabelos, massageia o orgulho ferido e pior, embaça a razão. Por aí você vê que a fórmula não morreu e é infalível. Eles trabalham dois pilares fundamentais da alma humana: o ódio e a esperança. Ódio você sabe por quem. Exatamente por quem pensa, cria, planeja, investe, produz e gera emprego. Esperança na barriga cheia e na casa equipada com dezenas de eletrodomésticos, porque investir pesado numa infra-estrutura de ensino capaz de combater a ignorância é contraproducente ao populismo, na medida que rouba votos. Homens conscientes não servem à manipulação política útil à posterior dominação, que é aonde eles querem chegar.
            São tão competentes na dissimulação que criaram um clima aonde é politicamente incorreto falar do passado sujo deles, quando retalharam a ditadura militar à altura, com sequestros, massacres, assaltos, assassinatos. Segundo eles estavam defendo o país da opressão e lutando em nome da liberdade, quando todos sabemos que a luta era em nome da dominação comunista e dos ideais de expansionismo político ideológico soviético, cujo verdadeiro grande inimigo eram os americanos e o capitalismo. E pior, ainda hoje continuam visitando Fidel e tentando vender seu peixe podre.
            Você logicamente sabe melhor que eu, mas não subestime a força do PT teológico. Os adeptos da Teologia da Libertação estão mais vivos que nunca, são inteligentes, tem alto poder de persuasão, conhecem as histórias bíblicas como ninguém e não se cansam de trabalhar as emoções dos jovens com imagens distorcidas de um Cristo fascista, que não só pode contestar e discordar dos poderosos, mas até pegar em armas. Contam com apoio velado do PT e do governo de Cuba e da Venezuela. Outro dia ouvi um discurso de um deles dizendo que a culpa do trabalho escravo nas fazendas do interior do Brasil é do capitalismo e que Cristo é o único caminho para a salvação. Por ai você vê aonde os caras vão para convencer o povo mal informado.
            Você certamente deve estar pensando que esta opinião é a de um radical da direita. Saiba, portanto, que não sou radical em nada. Apenas acho que se esquecermos a história e suas lições e nos enveredarmos por uma campanha mirando alvos apenas existentes em nossa imaginação a luta será em vão. A luta contra o PT terá que ter armas do tamanho e do calibre das deles. As armas às quais me refiro é a “ideológica”. Infelizmente você e o PSDB, se quiserem fazer frente ao PT terão que partir para o campo da ideologia, pois há milhões de pessoas no Brasil que ainda se lembram da guerra fria, não se simpatizam com o comunismo e nem com a nuvem bolivariana que se abateu sobre a América Latina, têm medo do confisco de propriedades, da perda da liberdade de expressão, do amordaçamento da imprensa. Passamos do tempo em que os militares se envolviam diretamente em política. Acho que eles aprenderam muito e não ficaram nada satisfeitos de serem hoje considerados os vilões solitários da história. Acho que dessa vez ficarão de fora e centrarão sua ação apenas na função constitucional de defesa. Entretanto militares têm famílias e opinião, e silenciosamente podem influenciar e formar opiniões.
            Conheço bem o passado do presidente Fernando Henrique, do seu avô e de dezenas de membros do PSDB. Um passado glorioso de lutas cada qual pelo seu ideal, mas o radicalismo nunca fez ou faz parte do ideário de ninguém no presente. Estou no PSDB, porque me afino com essa filosofia. Mas infelizmente, não adianta o PSDB negar ou tentar se vestir com outra roupagem, porque hoje representa o capitalismo, o poder, a força que esmaga o pobre, um partido elitista e academista, impiedoso, que privatizou e desempregou milhares de trabalhadores. Certamente vocês ai em cima pensem o contrário, mas a verdade que permeia a opinião pública aqui embaixo é essa e será exatamente esse filão que o PT vai explorar na campanha daqui pra frente. Não sei se vocês já perceberam, mas a imprensa parece estar com um pé atrás, principalmente depois do episódio do presidente Sarney com o Estadão e do massacre às sucursais na Venezuela e na Argentina. A moda pode pegar por aqui e por isso vocês não precisem contar com apoio dela, porque a escolher eles ficarão com o PT ou em cima do muro.
            Portanto meu amigo, esta na hora de parar com as trocas de acusações com políticos do PT e muito menos com o Lula. Ele é intocável. O povo o adora. O PSDB precisa começar a fazer o trabalho subversivo ou seja: começar a solapar as bases ideológicas do castelo petista. Não pode ter escrúpulos e temores. Eles nada temem. Falam o que pensam e ainda fazem chacota. Vocês perderam uma oportunidade de ouro, cujo protagonista atende por Yoani Sánchez. Aquela recepção hostil foi uma pequena mostra do que eles são capazes. O que vocês fizeram? Nada! A receberam bem, deram beijinhos e abraços e o povo nem se lixou pra isso. A imagem registrada foi de que ela é uma emissária americana a serviço da CIA, que veio ao Brasil dar apoio aos poderosos e denegrir os santos cubanos. Lula não sai de Cuba e qual a crítica que o PSDB faz? O PT  deportou dois atletas cubanos que pediram asilo ao Brasil. O que o PSDB fez? Lula apoiou com todas as forças o regime iraniano e qual foi a reação do PSDB? Lula apoia sem medidas o regime comunista Venezuelano. Qual a reação do PSDB? Uma grande empresa brasileira, a Vale, esta na eminência de perder bilhões de dólares por causa do radicalismo do governo Argentino bolivariano e antes disso a Petrobras se ferrou na Bolívia com o mesmo problema e qual foi a exploração ideológica que o PSDB fez?
            Quando digo PSDB estou também me referindo a você, que esta na hora de decolar, claro, apoiado pelo partido, mas com um discurso mais independente, mais pessoal e liberto da imagem do presidente Fernando Henrique. Coloque mais paixão em seus pronunciamentos, faça como aqueles pastores protestantes, seja enfático, chore. O povo gosta de quem fala com a alma. Lula é mestre nisso!
 O povo precisa ter opção de escolha de um outro grande líder capaz de defender a verdade por outros ângulos. A memória popular já se esqueceu do Muro de Berlim, dos males que o comunismo causa às sociedades e o PT juntamente com os teólogos da Teologia da Libertação estão vendendo a imagem de que o comunismo é a salvação. Até mudaram seu nome para socialismo bolivariano. Então é preciso que alguém tenha coragem de dizer o contrário, de se posicionar a favor do capitalismo demonstrando suas virtudes que não são poucas em contraponto aos crimes do comunismo contra o Estado de Direito. É preciso que se levante a voz em defesa dos produtores rurais, das indústrias, dos empresários que lutam contra a maré e dos milhões de empregos que geram, da alta carga tributária, do alto custo do dinheiro, das tentativas de impedir a ação fiscalizadora da imprensa. Além disso, no campo ideológico, a estratégia pode contar com o apoio de líderes políticos de paises do leste europeu onde a cortina de ferro reinou por longos anos, que estejam dispostos a vir aqui declarar abertamente para o povo quem são os comunistas e seus métodos de persuasão e opressão. Este é o jogo da esquerda radical e a fórmula não tem dono, pode ser usada por qualquer um, por que não? Receio de que e de quem?
Recentemente a imprensa denunciou o escândalo que dava conta de um escritório de representação da Presidência da república em São Paulo. Um caso escabroso de passionalismo, empreguismo, desvio comportamental, falta de ética e gasto desmedido de recursos públicos. Eles já calaram a imprensa. Qual a ação do PSDB para botar o caso na frente do ventilador? Com o PT vocês fazem assim ou então eles vão ficar no poder mais vinte anos. Não vai ter pra ninguém, porque o povo nessa será igual marido traído, último a tomar conhecimento.
Essa, em minha opinião, é a única fórmula com potencial para ter sucesso. Só não farão, se houver receio de melindres com outros governos, tais como o de Cuba, da Venezuela, do Equador, da Bolívia, da Argentina; os intrépidos bolivarianos. É meu amigo as raízes são profundas! Se isso acontecer, depois da posse, façam como a Cristina da Argentina vai fazer com o Papa semana que vem. Vão lá, deem tapinhas nas costas e bola pra frente. Cada um no seu campo de jogo outra vez. Candidato não é voz oficial pra nada, entretanto para os ouvidos do povo a mudança de tática mais agressiva pode fazer diferença.
Veja meu amigo, que a guerra fria acabou entre as grandes potências, mas sua versão menor e mais simples continua aqui na América Latina. Vai ganhar essa parada quem for mais ousado e até agora esta dando PT, socialismo bolivariano mais a sombra macabra de Fidel e a Teologia da Libertação. Aproveite agora enquanto a Marina e a Heloísa Helena não entrem em campo, porque elas, além de terem bom histórico de combate são mulheres e estão feridas até a alma. Vão jogar duro não só com o PT, mas também com o PSDB e podem tomar a nossa posição como maior partido de oposição do país.

No aguardo!
Antonio Kleber dos Santos Cecílio.

* Natural de São João del-Rei. Cidade localizada no Estado de Minas Gerais -