APRESENTAÇÃO


O conjunto de trabalhos que o amigo leitor encontrará aqui foi produzido ao longo de alguns anos. Não posso aqui precisar quantos, talvez uns vinte. A grande maioria deles publicada no jornal A TRIBUNA SANJOANENSE de SÃO JOÃO DEL REI (minha terra nanal) e NOVA MIDIA de BARBACENA; ambas tradicionais cidades históricas mineiras muito politizadas.

Obviamente há uma cronologia de publicação associada aos acontecimentos que inspiraram as respectivas reflexões. Depois de muito pensar, se deveria mencionar datas, resolvi aboli-las, pois achei que correria o risco de tornar seu passeio um tanto dirigido e até cansativo. Posso imaginar alguém lendo algo retratando fato acontecido há anos! Talvez se sinta entediado. Então, no intuito de instigá-lo, apresento uma miscelânea de trabalhos recentes e antigos, a fim de lhe subtrair, de propósito, qualquer direcionamento e deixá-lo livre para pensar, buscando no tempo, por si, tal associação. Acredito ainda que dessa forma esteja incitando sua curiosidade à medida que avance passos adentro. Sua leitura poderá inclusive ter início pelo fim ou pelo meio, que não haverá prejuízo algum para a percepção de que as coisas no Brasil nunca mudam. Ficará fácil constatar que a vontade política é trabalhada para a perpetuação da incompetência administrativa, obviamente frutífera para algumas minorias.

Penso que, se me dispus a estas publicações, deva estar antes de tudo, suscetível a criticas e, portanto, nada melhor que deixá-lo, valendo-se unicamente das informações contidas no texto, localizar-se na história. Caso não lhe seja possível, temo que o trabalho perca qualidade perante seu julgamento pessoal. Por conseguinte, acredito que isso não acontecerá; a não ser que o leitor não tenha, em tempo, tomado conhecimento dos fatos aqui retratados. Procurei selecionar de tudo um pouco; certamente sempre críticas, porém algumas muito sérias carregadas de um claro amargor. Outras, mais suaves, pândegas e até envoltas num humor sarcástico. Noutras retrato problemas da minha São João del-Rei. Até cartas para congressistas em Brasília há. E em alguns pontos, para abusar da sua paciência, introduzi coisas muito particulares. Críticas à parte, nessas, apenas falo de mim, afinal, apesar de amigos, talvez nunca tenhamos trocado impressões sobre coisas tão pessoais. . .

Aqueles que me conhecem há tempos, sabem que sou um obstinado por política, apesar de jamais tê-la exercido diretamente. Motivos houve de sobra e numa oportunidade poderei explaná-los. Todavia, do fundo do coração, afirmo que tal paixão tem como motor um doloroso inconformismo por ver o Brasil tão esplêndido e tão vilipendiado; vítima inconteste dessa cultura avassaladora de demasiada tolerância à antiética e à imoralidade na administração pública. Comprovadamente este é o pior dos tsunames com potencial para ter retardado nosso progresso mais de três séculos e grande responsável pela perpetuação da pobreza de metade da nossa população, pelo analfabetismo total e funcional, pela violência social e pelo abismo intransponível que aliena gigantesco contingente, maior que um quinto da população do continente sul americano. Diante do inaceitável absurdo, impossível me conformar em silencio diante dos atos e fatos que vão vergonhosamente enxovalhando nossa história e nos deixando como um gigante deitado sobre o escravismo que a Lei Áurea não foi capaz de abolir.

O título? Esse, talvez, seja o mais difícil explicar. GRITOS SEM ECOS representa uma espécie de pedido de socorro do náufrago, que sabe que de nada adiantará espernear, pois não há interlocutores, não há socorro, não há saída, não há conscientização; mas, assim mesmo, grita.

Será um prazer receber sua visita e ler suas opiniões, elogios ou críticas.

Forte abraço!



terça-feira, 27 de setembro de 2011

PROFESSORES; VÍTIMAS OU VILÕES?


            No momento em que volta à baila a falência do ensino brasileiro, mediante os fiascos do ENEM e de outros balanços negativos, ficamos estarrecidos com a inação das autoridades brasileiras! Ninguém mais agüenta ver e ouvir nossos governantes se debaterem com os mesmos problemas estruturais que atravancam o crescimento do Brasil e o mantém atrelado ao passado colonial. – Saúde, transporte, segurança, educação. – Se esse fosse o nome de um quarteto de violas, certamente suas cordas estariam rompidas de tanto soar mesmas notas e o som enfadonho da cantilena teria implodido os ouvidos da platéia. Mas felizmente a esperança é a última que morre e as eleições bienais brasileiras são o balsamo que alivia frustrações mal curadas. Promessas e mais promessas e o heróico povo espera e espera!...Trágico destino para uma nação que se auto-intitula “o país do futuro”.
            Por falar em futuro, certa vez Sêneca em um de seus encontros com discípulos lhes perguntou o que entendiam como futuro? Os noviços, depois de longo pensar, responderam que era tudo o que podiam fazer amanhã. Então, ouviram a seguinte correção: “futuro é o fruto da boa semente que plantamos hoje”. Diante de tal verdade dobrem-se joelhos culpados pelas colheitas dos frutos podres que nosso sistema educacional vem faturando ao longo de décadas de desmazelo e mentiras bem plantadas no passado e que continuam sendo regadas por quiméricos acadêmicos, os quais vivem tateando teorias vãs entre miragens de um processo falaz e duvidoso, cujo objetivo primaz é engordar salários de autoridades e avantajar com índices positivos relatórios manipulados, a fim de impressionar analistas incautos da Unesco e outros órgãos internacionais.
            Sob a sombra dessa incompetência proposital e antipatriótica padecem professores, escolas e o Brasil. Professores e seus salários de fome expostos na vitrine do ridículo como culpados imperdoáveis. Homens e mulheres donos da nobre missão de semear para o futuro, lutando desumanamente contra o tempo, as distâncias, as intempéries, o desconforto, a falta de recursos técnicos e ainda estrangulados pelo antidemocrático pressionamento imposto pelo medo do desemprego. Escolas; não fazendo jus aos nomes dos ilustres que as denominam; quebradas, desfalcadas, sujas, alagadas, pichadas, invadidas por malfeitores de toda ordem. E o Brasil; em apuros diante dos desafios das novas tecnologias cada vez mais exigentes, na procura de homens/mulheres aptos a produzir e concorrer em igualdade de condições com seus congêneres estrangeiros. Nesse mergulho ao abismo tecnológico e ao poço da vergonha criam-se empregos para estrangeiros bem formados, geram-se índices estatísticos mascarados e a invencionice campeia solta nos discursos parafraseados com a única intenção de justificar o injustificável lançando objetivos sem planejamento, nem vontade política, nem compromisso com as boas cepas exigidas pelo futuro.
            O célebre pensador americano Alvin Toffler em sua monumental obra “O Choque do Futuro” escreveu que: “O homem é efêmero; perenes sãos seus sonhos e realizações, porque através dos sonhos nascem as utopias e através destas a humanidade se move rumo ao progresso real”. Portanto, sonhos são frutos de conhecimento e inspiração. Se escolas ruins são incapazes de transmitir conhecimento, não haverá homens/mulheres cultos capazes de sonhar, nem inspiração, nem utopias, nem realizações e muito menos progresso.
            Por conseguinte, não basta ser culto para sonhar. Há ainda que ser feliz... E o que se pode entender como felicidade? Segundo Moacyr Scliar: “o mais completo bem estar físico, mental e social”. Pois bem, à luz de tal definição pode-se afirmar que o corpo docente do ensino básico e médio nacional é composto de elementos no pleno gozo dessas faculdades? Diante de tal pergunta pairam enfáticos “nãos”. Causas são fartas: basta alguma convivência com esses heróis anônimos para se perceber o quão atarantados estão pelos problemas familiares, frustrações profissionais, desafios de toda ordem impostos por um sistema caótico, desorganizado e desorientado em cargas horárias duplas ou até triplas e ainda indefesos contra agressões de alunos raivosos drogados, na sua maioria filhos de pais ineptos. Como se não bastasse tamanho sofrimento ainda percebem salários aviltantes, insuficientes para a gorjeta dos engraxates de nobres governantes inúteis que têm demonstrado não valer o que comem. Portanto, diante de tão obscuro pesadelo, existe possibilidade de essas pessoas transmitirem a outras em formação a capacidade de sonhar acreditando em si e na nação cujo dever é protegê-las? Claramente a resposta é negativa. Então, que se culpem os demagogos proxenetas do povo indefeso com seus salários milionários, sempre munidos de farto corolário de desculpas, a fim de empurrarem cabeças inocentes à guilhotina e absolvam-se esses pobres inocentes, cuja única falta é serem vítimas do sistema e não fazerem parte do esquema coronelista colonial tacanho, que teima em manter a nação de joelhos para o seu bel desfrute.
            Peter Drucker, filósofo do pensamento corporativo, pai da administração, cujas teorias levaram centenas de empresas ao absoluto sucesso e à liderança global, sempre enfatizou, na maioria das suas obras, que a administração moderna é “a ciência que trata sobre pessoas nas organizações”. Portanto preconiza que de nada adiantarão gigantescos investimentos em maquinário, equipamentos e instalações, se o fator humano ficar em segundo plano. Primeiro investe-se em pessoas, plantando em suas mentes a satisfação que gerará motivação, comprometimento e criatividade. Depois as ofereça campo fértil adubado com reciclagem pessoal e vasta tecnologia. Os resultados serão auspiciosos lucros sociais e financeiros. Portanto, o primeiro passo é motivar pessoas as recompensando com salários à altura das pretensões da organização, pois não se podem superestimar os objetivos da corporação à custa da subestimação dos objetivos pessoais dos colaboradores. Fácil concluir que se as teses de Peter Drucker funcionam no ambiente corporativo, por-quê não funcionariam no sistema educacional, uma vez que ambos os meios são movidos pela mesma gente, susceptível a estímulos, ansiosa por sucesso profissional e realização pessoal?
            Mas, pelo que parece, nossos débeis governantes nunca ouviram falar nessas preciosidades e acham que apenas com belos discursos, falsas promessas, ameaças ditatoriais e salários miseráveis vão conseguir tocar as quase intangíveis cordas que impulsionam o despertar humano. Certamente continuarão preferindo trilhar caminho inverso no intuito de defender interesses pessoais à custa do subdesenvolvimento desse país atrelado ao passado, que para competir no mundo global futurístico precisa substituir o proselitismo administrativo por ações concretas e investimentos maciços em capital humano, assim como fizeram a Coréia do Sul, a Austrália, o Canadá, o Japão, a Finlândia, e alguns outros; pois do contrário continuará sendo apenas o retrógrado país do futuro inalcançável; palco da violência social e guerras entre classes, abarrotado de analfabetos funcionais, pobres de espírito, infelizes mal informados e ignorantes; movidos a míseras bolsas governamentais e enganados pela falácia do assistencialismo eleitoreiro praticado pelos novos social-comunistas jurássicos.


domingo, 4 de setembro de 2011

MULHERES PERDOEM-NOS, POIS CONTINUAMOS SEM SABER O QUE FAZEMOS!

            Certo poeta, ao definir Deus, sintetizou que Ele é menina e menino. Bela e genial definição altamente representativa da suavidade do criador; capaz de refletir a plenitude da criação, conquanto posicione os seres homem e mulher em extremidades distintas, porém lhes conferindo status de igualdade e alteza máxima. E ainda mais: ao dotá-los de razão, capacidade de amar e plena liberdade para escolher seus próprios destinos, nomeou-os herdeiros, exploradores e transformadores a Sua imagem e semelhança. Temos aí o que reconhecer como perfeita dialética fundamentada nos opostos homem mulher, porém, diante da pura inocência infantil a discussão dialética perde fundamento na fusão dos opostos e assim, deposta da sua natural contraposição, ganha novo status genérico baseado na síntese benevolente do amor angélico de Deus, que a todos ama e considera sem distinção.
            Entretanto, diante da grandeza da criação os humanos insistem em ser estrábicos nos seus parâmetros comportamentais e culturais cometendo barbáries incompreensíveis como também incompatíveis com a racionalidade. As homenagens fúnebres pela passagem dos dez anos dos ataques às torres gêmeas são sintomáticas trazendo à lembrança, com grande acuidade, fatos, invisíveis no dia a dia, mas que têm profunda repercussão na consciência de quem ainda consegue indignar-se nesse mundo tecnológico efervescente, aonde parâmetros éticos a cada dia perdem mais espaço cedendo lugar à crueldade fria e pragmática sempre a serviço da dominação ou do lucro a qualquer custo. Enfim, guerra é guerra imperando o vale tudo sem medidas de conseqüências. Homens esmagam homens como se dentre nós houvessem alienígenas compostos de outra matéria mais ou menos valiosa que esses frágeis ossos e carnes que desconhecem raça, cor, cultura; que desprovidos de vida, não valem mais que nada.
            Matar por matar, morrer por morrer! Banaliza-se a violência mortífera em detrimento da vida e todos perdem. Mas há ainda os que perdem mais do que aqueles que dramaticamente morrem. Viver na morte é a pior das penas sendo essa a sina macabra de milhões de mulheres, que vivem mortas condenadas à escravidão mórbida ditada por valores culturais exóticos, ditatoriais e cruéis, que fazem questão de descaracterizar os legítimos valores ensinados por Deus em nome da paz, da concórdia, do respeito às diversidades, da conduta ética, da liberdade no gozo da felicidade de todos; independente de raça, cultura ou sexo.
            Felizmente diante do lamentável show de intolerância bilateral, um fato vem abrandar o vexame da humanidade e aplacar a nossa vergonha de representantes da única espécie pensante. As viúvas das vítimas do setembro negro foram a Cabul levar condolências às viúvas afegãs daqueles que morreram em batalha. Lá encontraram a miséria humana na essência da palavra: mulheres que não valem mais que a fumaça do espocar das bombas que estremeceram o solo ressequido. Mulheres analfabetas, subnutridas, precocemente envelhecidas, acuadas e assustadas pela violência. Seres humanos sensíveis, indefesos usados e descartados como figuras imorais, cujos gritos de clemência não encontram ressonância nos corações enrijecidos de homens truculentos que vivem a oprimi-las mordazmente, as mantendo cobertas para que não esparjam impurezas cuja fonte não esta em seus corpos, mas nas mentes traquinas daqueles que as observam desprovidos do devido equilíbrio pregado e aconselhado por Deus.          Mulheres exploradas em servidão sem paga ou sub-valorizadas por salários aviltantes, prostituídas nos descaminhos da miséria, do desemprego, da exploração sexual. Mulheres escravizadas e emudecidas pela mordaça do medo de violentos covardes ou segregadas nas barreiras da ignorância produzida pela discriminação injusta do capitalismo selvagem, sempre incongruente com os direitos básicos do ser humano.  
            Ora, mulheres santas; muito mais semelhantes a Deus do que tantos homens; perdoem-nos por continuarmos sem saber o que fazemos! Obrigado por existirem e nos parirem! Obrigado por nos criarem e amamentarem! Obrigado pela vossa santa maternidade que gera, educa e ampara em titubeantes primeiros passos e sabe perdoar pelas tantas vezes que a injustiçamos embarcados no trêfego egoísmo masculino! Obrigado por florirem os jardins infecundos das nossas almas que sem o vosso fértil adubo jamais floriria! Obrigado pela vossa beleza feminina, pela vossa pele macia, pelas vossas mãos e corpos santos que reproduzem, encantam e seduzem! Ó Deus justo e manso; livrai-nos dos cegos e ímpios incapazes de admirar e se curvar diante dessa pintura sacra do quadro da criação!


MINEIRIDADES DA SÃO VICENTE DE MINAS DO CORAÇÃO

           Vocês aí dessas cidades grandes com cara, onda e jeito de capital; barulheira infernal, fumaceira, ladroeira, carro pra todo lado, calor e corpo suado a dar com pau, com seus montes de edifícios sem limite de altura, bufando de gente cara dura que nem se conhece e mal se cumprimenta; demais apressada pra chegar e voltar, muito entendida de ganhar dinheiro e muito desentendida de perder tempo na construção de boas amizades e bater papo à toa na toada da prosa boa; que não sabe como é bom uma pinguinha da branquinha ou da amarelinha com tira gosto de canjiquinha com costelinha ou de galinhada e pão ao alho no caldo grosso com bastante tomate e cebolinha.

Vocês que não conhecem como é bom tocar viola, cantar, estufar peito como cantor profissional debaixo do luar prateado do sertão com ou sem afinação, não importa; importante é estar perto do mundão de amigos, olhar juntos os céus, as estrelas piscando bem pertinho dos olhos e quase que das mãos. Sentir o friozinho do giadão, esquentar os pés à beira da fogueira estalando e depois esperar o sol raiar bem lá na corcova das montanhas disputando com a lua cheia tanta beleza que dói de prazer a alma; e aí, vêm os passarinhos cantando e voando e rindo de tudo e do bruto ressacão. Hora de voltar, de descansar, curar a ressaca para trabalhar a semana inteira de tirar leite, de apartar a vacada, de tratar da cachorrada, de ver onde a galinha anda botando a produção e se as novas ninhadas já deram algum sinal de vida.

Vocês aí dessas imensas cidades que têm de tudo, muito desenvolvidas, hão de estar perguntando de onde eu sou. Pois é: sou mineiro, mais do cantinho do céu de São Vicente de Minas, do alto e dos fundos das montanhas, das beiras dos córregos limpinhos, desses ranchinhos de chão batido, dessas fazendas de gado leiteiro também de mangalarga marchador, desses rios que mais parecem cobras gigantes, que viram pra lá e pra cá, fingem que vão, mas voltam e depois vão mesmo; cheinhos de lambaris, piaus, dourados e mandis todos bons para comer fritinhos ou ensopadinhos. Aqui não tem edifícios altos que nem aí, mas há um mundo de casas cheias de gente boa, de gente prestativa, que corre nos pensamentos e nas intenções sempre de ajudar, mas anda bem devagarzinho nos rumos das outras coisas. Afinal, correr pra que, se nós já sabemos há muito tempo que correndo ou indo devagar vamos chegar do mesmo jeito?

Nessa nossa terrinha santa de São Vicente de Minas, nós temos mais progresso é nas gentes de bem que nem se comparam com as de vocês daí. Trancar porta e janelas aqui só é necessário para tapar o sol, a chuva, o frio e o vento. Ninguém fecha pra valer com trinco e chave, pois um amigo pode chegar e vai ficar muito mal não poder entrar da primeira. As visitas aqui são todas do peito e já de cara, logo na chegada, o que se escuta é a voz amiga dos de casa: - entra compadre. Vá chegando comadre! Senta, toma um cafezinho quentinho com pão de queijo e broa de fubá.

Enquanto vocês daí têm essas grandes avenidas cheias de problemas, entupidas de gente, ladrão, carro e sinal; nós daqui temos calçadão pra sentar, beber e prosear. Temos carnaval com desfile também fantasia, procissão pra rezar com fé, quadrilha nas festanças de São Pedro e São João, missa de sábado e domingo, enterro e sétimo dia, de mês, de ano e tudo. Também festa do Divino com missa e reza, procissão, barraquinha, leilão, forró ao luar com todas as gentes alegres mesmo no frio e na poeirada. Se chover, não há problema!

Temos exposição agropecuária de animação anual sem contar especial homenagem ao conterrâneo ausente! É festa quase duas semanas inteiras com trucada e boiada de qualidade nos leilões, disputa da vacada leiteira, bicharada, artesanato e cantoria das muitas duplas famosas desse Brasilzão afora. Ainda tem cavalgada pra Aparecida e outras bandas também. Ah, pra variar tem Macuco! Vocês sabem o que é isso? Podem ser duas coisas: um passarinho ou um bar bom de paquerar e dançar com aquela mulherada que vem de todos os lados. Se duvidarem, vão lá pra conferir; a Kátia não me deixará mentir.

Pra dormir, vocês pensam que temos barulhada? Nada disso! Nós aqui somos civilizados e muito respeitosos com sono dos outros. A não ser lá pelas bandas do Psiu Vem Cá, quando os fanqueiros botam pra quebrar ou a cachorrada vira-latas resolve latir a noite inteira; tem silêncio gostoso e o maior barulho que pode acontecer é a sinfonia dos sapos, dos galos, das corujas, o silvo dos morcegos e ao amanhecer bem cedinho, os bandos de pássaros, de maitacas passando bem apressados em busca de milho e jabuticaba docinha.

Vocês aí dessas cidades complicadas pensam que estão no mundo desenvolvido, que sabem de tudo melhor do que nós, mas estão muito enganados. Pensam que pra saber precisa estar aí nessa confusão?  Nós sabemos muito mais, porque temos muito mais tempo pra pensar e filosofar. Aqui na nossa São Vicente do coração e das Gerais, não usa falar muito, quando o caso é sério. Aqui funciona mais é a imaginação e cada um entende o outro e só num simples olhar. O povo é bom de imaginação e na complicação deixa ficar como está pra ver como vai ficar. Aí, quando menos se espera, vem a solução... Nós mineiros somos assim: resolvemos as coisas é na calma e na sabedoria. Afinal, onde é que mais se confia desconfiando? Mas os mineiros vicencianos desconfiam mesmo é desses que aparecem de uma hora pra outra, como quem não quer nada, e vêm com umas prosas e jeitos esquisitos de estranhar.


domingo, 28 de agosto de 2011

ABAIXO OS BARBUDOS BIGODUDOS

      
           Algumas passagens marcam por demais nossas vidas e figuraram de maneira profunda na lembrança, uma vez que novos fatos insistem em acontecer com tal semelhança, que, além de surpreender, insistentemente nos remetem ao passado de maneira a reviver cenas hilariantes e engraçadas.
            Certa vez, ainda na juventude, estávamos eu e alguns amigos adolescentes, todos ostentando longos cabelos, algumas penugens no rosto que orgulhosamente chamávamos barba, metidos naquelas monumentais calças Lee boca de sino e assim, em perfeito alinhamento com a moda ditada pelos Beatles e outros importantes ícones do sagrado rock and roll, ouvíamos músicas altas reproduzidas numa radiola portátil Phillips – esse era o nome do equipamento de ultima geração – que bem instalada numa soleira repassava os belos rocks lendários, enquanto dançávamos e cantávamos irreverentemente, ao passo que outros volteavam de bicicleta fazendo piruetas sobre a calçada num vai e vem frenético embalado nos arroubos calóricos da juventude. Quando, de repente, lá vinha o velho Chico Gato; figura esmaecida e cambaleante em alguns copos de cachaça. Na meia escuridão da rua pôde-se prever a eminente confusão. O dito cujo caminhava exatamente em nossa direção e já sabíamos que nenhum de nós estava disposto a lhe dar passagem. Muito menos o eternamente embriagado, tenaz implicante, pretendia desviar-se do catastrófico encontro. Chico Gato, então, agarrado nas suas ultimas forças, firmou o passo caótico e veio direto num decidido encontrão contra a parede compacta a sua frente. Levou logo um empurrão que o fez voar que nem pluma lá pelo meio da rua. Logo que se restabeleceu do vôo rasante, depois de ter batido a poeira da roupa surrada, voltou à carga, agora num falatório frenético e gritado, composto de algumas dezenas de frases desencontradas, recheadas de palavrões acompanhados de um discurso característico dos bêbados tresnoitados. Dizia ele:
- “seus interceptos, maconheiros, cabeludos, barbudos, bigodudos, corruptos, ladrões; vocês pensam que são donos da rua? Vocês não sabem com quem estão falando! Amanhã vou colocá-los todos na cadeia”. 
E assim terminou a noite do bêbado Chico Gato e dos cabeludos baderneiros, que ficou gravada na memória com certo orgulho e grande arrependimento.
            Mais adiante, passados tantos anos que não posso me lembrar, meu velho pai, que mantinha estreitas relações com um Regimento de Infantaria do Exército, chegou em casa solidário com a cólera do comandante profundamente indignado com a insubordinação de um praça. Se não me engano, sua patente era a de cabo. O simplório e insolente alfaia, logo depois de algum tempo de férias, meteu-se em seus aparatos militares e se apresentou para o serviço sob um vasto e negro bigodão, bravamente bem instalado numa cara sem vergonha que devia estar lisa como bundinha de neném, para o comandante passar o algodão de baixo para cima. O tenente oficial do dia, logo lhe meteu uma parte que foi parar direto sobre a mesa do coronel. Chamado a se explicar o bigodudo não titubeou em informar que preferia a morte à subtração daquela maravilha. E só não morreu, porque a cadeia foi mais dura que a morte e antes que ela viesse resolveu passar o rodo na sujeira sem tamanho.
            Passados tantos anos e diante dos fatos absurdos que assolam nosso governo abarrotado de larápios e pistoleiros de gravata em punho, essas estórias do passado me vêm à mente numa correlação perfeita. Se nosso Chico Gato fosse vivo, certamente seu discurso ganharia repercussão nacional. Afinal, quantos interceptos contumazes obstruem nosso caminho ao desenvolvimento e sujam os livros da nossa combalida história com sua ladroagem nacional? Outro dia um intercepto senador nordestino do PMPQP, um cara de pau, sem bigodão irreverente, porém demais desafiador, garantiu a um outro intercepto que seu partido, o velho de guerra PMPQP, esteve e estará ao seu lado em qualquer situação. Confesso que fiquei deveras emocionado com tamanha solidariedade entre interceptos de colarinho branco. Aliás, essa velha solidariedade é historicamente comum entre interceptos; por isso naquela memorável noite o velho Chico Gato voou como nossa paciência tem voado de raiva ao ver os insultos dos nossos suínos governamentais diariamente emporcalhando as edições dos noticiários nacionais.
            Afora tudo isso; agora, depois da saída do velho ministro da defesa, o Sr. Jobim; que nos defendeu de tudo, menos da ANAC e dos seus aviões e aeroportos sem relógio, outra incrível coincidência me vem fazer lembrar o cabo bigodudo. Aliás, cabo bigodudo pode ser também cabo de vassoura. O ex-ministro diplome mata Celso Amorin, comuna-democrata petista puxa saco de ditadores como Fidel, Chaves e Ahmadinejad; travestido com aquela barbicha e aquele bigodinho feiosos vai fazer os generais lhe prestarem continência. Se fosse eu, não prestava de jeito nenhum; preferia me mudar para Caracas e ficar lá tomando banho o dia inteiro para ver se acabava com todas aquelas favelas horrorosas que sujam a paisagem e o currículo do chaveiro comunista pestalose presidente Chaves. Por outro lado digo um sonoro “BEM FEITO” aos generais, porque se esqueceram daquela velha máxima do futebol: “Quem não faz, leva”.  Curvem-se para o barbicha, afinal quem manda é o PT mesmo! A Dilma? Essa pensa que manda, mas mandava muito mais no tempo do Lulinha Marolinha Maravilha. Agora?!...Mandam os barbudos bigodudos e interceptos.





          

domingo, 14 de agosto de 2011

ANIVERSÁRIO DE MARIA ESTELA - PAIOL - S VICENTE DE MINAS

Nesta importante noite em que tantos aqui se reuniram para prestar homenagem a esta grande senhora, nossa querida Maria Estela, me seria impossível deixar de marcar no mural da sua bela história de vida, algumas palavras, que, sinceramente acredito, configurem a opinião unânime de todos que aqui agora se encontram.
 O fato de se completar 80 anos é algo que na verdade paira em nosso íntimo como uma imensa interrogação. Como será chegar lá? A resposta certamente virá no embalo do tempo pela sua inexorabilidade. Quem não desembarcar do barco do tempo, um dia, com toda certeza, terá sua resposta. Positiva ou negativa? Eis a questão!... Mas o que é esse tal barco do tempo? A resposta é obvia: barco do tempo é a vida. Só chegam lá os agraciados por Deus pela longevidade. Vida longa é benção, é sorte, é vitória sobre a grande e perigosa aventura que é viver.
 Belo presente divino chegar aos 80 anos, cheia de vida, saudável, alegre, lúcida acariciada por dezenas de amigos prenhes de carinho, ternura e gratidão pela sua terna presença, pela paz que nos transmite seu cálido abraço, pela emoção que transborda em nossos corações o som da sua suave e amigável voz. Maria Estela vem lá, com seu indefectível sorrisinho, passinho por passinho, bem devagarzinho. Entretanto, como sempre aparências enganam, por detrás da imagem de mulher pequena e frágil, também a acompanha a gigante octogenária, sovada pelo tempo, carregada de experiências, de equilíbrio, da boa ética tão rara nos mais moços e nos tempos modernos. Um alicerce que jamais o tempo consumirá, pois aí está sua prole, que continuará trespassando as calendas do tempo levando consigo bons exemplos e o gene do tronco dadivoso.

Quem dera todos que aqui agora estão pudessem chegar nesses altos cumes dos oitenta anos! Quem dera todos que aqui estão, um dia, pudessem se acercar dessas dezenas de admiradores, dentre eles amigos vindos de distantes rincões, filhos orgulhosos, netos benfazejos; e todos de mãos estendidas acariciando nossos cabelos brancos, nevados pelo tempo e abençoados pelos bons desígnios de Deus!
 Mas há muito mais a considerar sobre a boa estrela dessa nobre senhora. Sem o intuito de querer mexericar, há quem diga que nas artes da canastra não há igual nestas paragens. Como boa oponente gosta de ganhar. Uns dizem que é na pura conta da sorte. Outros, simplesmente atribuem à brilhante competência. E outros!... Ah esses outros linguarudos!  Daqueles que têm mania de perseguição; dizem que ao perder, chora, esperneia e desconsolada bota culpa na parceira, que nunca da devida atenção na peleja. Dizem, não posso garantir, que, certa vez, ela e parceira não paravam de ganhar. Desconfiada, a dupla adversária contou as cartas e descobriu que misteriosamente o baralho de 52 cartas, pulou para 62. Maria Estela balançou os ombros e disse não saber explicar o acontecido e até hoje não encontraram explicação. Quem a souber, por favor, queira nos contar.
 Querida amiga, não se aborreça conosco. Já disse que isto é intriga da oposição. Sabemos das suas qualidades e o quanto é bom recebê-la em nossa casa nas tardes de domingo, quando sua presença vem alegrar e enriquecer nosso convívio e adoçar aquele mesão de café com leite pão, manteiga e queijo mineiro.
 Já falei demais! Agora o que esse mundão de amigos quer mesmo é lhe desejar um feliz aniversário, muita sorte, paz e bênçãos divinas.
            
             Parabéns e pinga na moçada!

DIOCESE NO MUNDO MODERNO

            Nos dias de hoje, se tornou lugar comum a justificativa de que não se tem mais tempo. Tempo; essa matéria prima da qual tanto dependemos; nosso mais valioso bem não renovável, absurdamente vem, a cada dia mais, se perdendo pelo ralo da correria com tantos afazeres característicos da vida moderna!
            A dinâmica natural da vida acelerou-se absurdamente com o alto fluxo de informações proporcionado pelas novas tecnologias e isso transformou o homem/mulher contemporâneo numa máquina movida a competição. O “ser” perdeu valor em favor do “ter”. Vale mais quem tem mais e aí nos desumanizamos drasticamente. Precisamos correr para ir à ginástica e ter o corpo mais sarado, correr para não perder o inédito capítulo da novela no televisor HD de última geração, nem o jornal com as últimas notícias da corrupção e da violência social.  Correr para pagar a prestação do carro automático equipado com computador de bordo. Correr para planejar as férias das crianças à Disney.  Correr para ir ao médico tratar da depressão e da hiper-tensão, que ultimamente se tornaram crônicas devido às altas pressões e à frustração por não ter ainda mais tempo para perder com mais e mais conquistas materiais. Um contra-senso, pois, se hoje dispõe-se de parafernálias tecnológicas mais eficientes, era de se esperar que sobrasse mais tempo para o “ser” humano que existe em cada um. Entretanto, o que se espera para o futuro é um aprofundamento ainda maior da escravização ao estado do “ter”, uma vez que as minorias dominantes detentoras dos meios de produção e controladoras da grande mídia mantêm-se atentas na criação de novos valores e novos meios de satisfazê-los, introduzindo o modismo tecnológico embarcado na rápida obsoletização como motor necessário à crescente e lucrativa valorização  do “ter”. 
            Diante dessa corrida colossal vem a clássica pergunta: - o que se pode fazer; como reagir se estamos introduzidos até o pescoço ao culto do ter?
Antes de tudo é necessário libertar-se do comodismo, livrar-se do efeito manada que induz todos a fazer tudo igualzinho, sem questionamento. Pare, olhe, escute, observe; procure outros valores ao derredor e certamente encontrará uma instituição séria, comprometida com o bem estar e o desenvolvimento do seu “ser”. Ela é a Igreja Católica e esta representada em sua cidade ou região por uma Diocese, liderada pelo bispo diocesano e composta por algumas dezenas de veneráveis paróquias e seus respectivos vigários, mantenedoras de incontáveis obras sociais junto a comunidades carentes; enfrentando de peito aberto o sofrimento de pessoas desassistidas pelo estado, na maioria das vezes ausente em seus compromissos constitucionais. As Dioceses e seus párocos auxiliados por um batalhão de voluntários, atuam ainda levando alento e paz espiritual aos doentes e desesperançosos, conhecimentos de valores intrínsecos relativos a Deus, à ética na convivência, ao amor ao próximo, à conduta cristã através do catecismo ministrado a centenas de milhares de jovens ainda impúberes desenvolvendo em suas cabeças o equilíbrio e a conscientização necessários para o enfrentamento dos falsos valores do “ter” a qualquer custo; capacitando-os pelo menos a deixarem de ser vítimas mansas, irracionais sem reação, incapazes de separar o joio do trigo.
            A Diocese tem origem histórica no Direito Romano, para designar o território e a jurisdição de uma cidade. Sua importância histórica, acima de tudo demonstra com mais força sua importância aglutinadora como fator de integração territorial e cultural num dos mais importantes, longevos e influentes impérios da antiguidade, o Império Romano. A Igreja Católica, na sua condição de legado histórico, cultural e religioso daquele importante império, cedo percebeu que para se impor como representante primaz do cristianismo através dos séculos precisava também se estruturar fortemente, mas, sobretudo de maneira ágil e flexível e então, lançando mão do mesmo recurso, se subdividiu em Dioceses, transformando-se num corpo uno, com linhas de comunicação eficientes entre o Papa e as mais remotas regiões da terra.
            Sua Diocese, portanto é a cabeça e os olhos do Papa, representante máximo do Cristo entre os homens de boa vontade. Vá até ela, valha-se do seu acolhimento, conheça sua messe. Através das ferramentas materiais e espirituais fornecidas por ela, vacine-se contra o imperialismo dos modismos materialistas e permita que o “ser” existente em você sobrepuje seus “teres”; assim certamente terá mais tempo, menos stress, mais saúde mental, corporal e paz de espírito.



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terça-feira, 26 de abril de 2011

A ETERNA HERANÇA COLONIAL BRASILEIRA e LATINO AMERICANA

 Desde o instante que Cristóvão Colombo aportou nas Antilhas e deparou-se com a espetacular visão de natureza intacta e os olhos gordos daqueles aventureiros comunicaram aos reis católicos o grande achado, nunca mais os rapineiros deixaram em paz a América. Crivaram-na de buracos em busca dos gigantescos veios auríferos e diamantíferos, dizimaram cidades indígenas com suas montanhas de ouro e prata, escravizaram os índios e depois os mastigaram e digeriram como escravos juntamente com sua cultura milenar em muitos aspectos mais desenvolvida que a européia, se infiltraram pelos rios e montanhas derriçando todo tipo de madeira que encontravam pela frente, implantaram a monocultura da cana de açúcar cuja roda motora encontrou combustível no esbanjamento das elites européias e nos braços escravos de milhões de negros importados à força da África. Do outro lado do Atlântico as potências exploradoras revezavam-se no comando da pilhagem na exata medida da sua capacidade de jogar no tabuleiro dos interesses comerciais de sua época.
 Inicialmente Espanha e Portugal, que dirigidos por governantes irresponsáveis, perdulários e sem visão, perderam para a Inglaterra esta vaca de múltiplas tetas que jamais deixou de oferecer precioso sustento às mãos de ferro sanguinárias daqueles cuja ambição insaciável nunca teve medidas a satisfazer. O tempo passou e com ele as eras do ouro, da prata, do açúcar, do algodão, do café, que possibilitaram a industrialização da Inglaterra e viram-na, mais tarde, ceder lugar ao novo gigante em ascensão, que apesar da contemporaneidade colonial, não teve a má sorte de guardar em seu subsolo tantas riquezas que pudessem atrair a cobiça desmedida dos implacáveis exploradores e que, por essa mesma boa sorte, pode transformar-se no altar dos novos ingleses que partiram para construir sua querida e sonhada Nova Inglaterra; hoje Estados Unidos da América. Mas a nascente era industrial traria consigo novas corridas exploratórias e uma vez mais a América Latina seria conclamada a comparecer com suas imensas reservas minerais e petrolíferas num eterno e sórdido movimento de saída de riquezas a preços irrisórios em prol do bem estar social das oligarquias internas e da aceleração do progresso das grandes potencias à custa do saque, do sangue, da fome, da desnutrição, da miséria, da ignorância, da proliferação da tirania e da corrupção endêmica em todo o continente.
Diante desse tenebroso quadro que mais parece o dia do juízo final e da condenação ao fogo ardente do inferno onde não há remissão, nem escapatória, conquanto a ignorância seja a mola quebrada que mantém milhões na jaula da incapacidade de competir num ambiente altamente tecnológico, o mundo se acostumou a olhar para nossos horizontes e apenas enxergar bons pastos para engordar suas contas bancárias sedentas por dólares. Querem navios carregados com produtos primários baratos em troca de meia dúzia de chips caríssimos, milhares de toneladas de minério de ferro sem nenhum valor agregado, a fim de inundar nossas ruas e vias, já atravancadas, de automóveis de luxo ou encantar nossos olhos com milhares de quinquilharias de qualidade inferior às similares disponíveis lá fora, para deleite exclusivo das minorias privilegiadas. A América Latina e o Brasil em particular, apesar do seu já maduro parque industrial, continuam gozando do status de fornecedores de commodities básicas. Qualquer beneficiamento, por menor que seja não interessa às potências industriais, porque lhes subtrai empregos e dividendos.
Passados cinco séculos e do alto da condição de potencia emergente, que pretende conquistar maior espaço no cenário político mundial, com uma demanda de mão de obra que ultrapassa os dois milhões de postos de trabalho por ano e ainda com o compromisso ético de melhorar os índices de qualidade de vida do povo, o Brasil precisa se posicionar de forma mais inteligente diante de seus parceiros comerciais. De nada vai adiantar a presidente Dilma sair por aí vendendo peixe frito se todos o querem cru. No estado primário o mesmo peixe dá lucro na compra, no processamento e na venda. Historicamente as commodities são cotadas pelo comprador e essa é a causa do paradoxo latino americano: homens pobres pisando em solo rico. – veja as condições dos produtores mineiros de leite; ricos economicamente e pobres financeiramente – O governo passado substituiu os EUA pela China como seu maior parceiro comercial e no ano de 2010, no montante de 55 bilhões de dólares de comércio entre os dois países, o Brasil consolidou sua secular posição de fornecedor de materiais primas. A China preferiu se comportar como a Inglaterra dos séculos XVIII e XIX e nós brasileiros continuamos entrando pelo mesmo cano que nos manteve presos ao subdesenvolvimento social e técnico: suprimimos empregos no mercado nacional e os criamos na China, desestimulamos investimentos em expansão industrial, estamos correndo o risco de nos transformar num simples entreposto de produtos estrangeiros, não desenvolvemos tradição de qualidade e de capacidade tecnológica e de quebra estamos perpetuando a falta de investimentos no vetor básico do desenvolvimento que é a educação. Completa-se o circulo vicioso: o país não é competitivo porque não dispõe de educação tecnológica e não se torna competitivo, porque precisa importar know how. Nossos manufaturados são vistos lá fora como obsoletos, de má qualidade e caros. Esse é o pior dos mundos para quem quer vender.
Desde pequeno ouvi meu saudoso avô, um imigrante semi-analfabeto e muito bem escolado nas artes do varejo de balcão, dizer: - meu netinho, se você quiser se dar bem no comércio precisa seguir cinco regras básicas: ter vários fornecedores, vários compradores, boa qualidade, bom preço e gastar menos que ganhar para não depender de recursos alheios. Aquele libanês ignorante não demorou muito a aprender o óbvio, contudo nossos governantes continuam fuzilando as empresas com os impostos mais caros do mundo, fora a natural escassez de capital na esteira dos juros astronômicos sem contar os entraves burocráticos e logísticos; assim lhes roubando competitividade. Ainda mais acreditam que a China, uma potência hexa milenar na arte do expansionismo e da dominação, esteja muito sensibilizada com os anseios e necessidades do gigantismo emergente do Brasil?!
 Se o governo populista brasileiro não fizer uma emergente reforma tributária e fiscal e não parar de pisar na empresa brasileira como se esmaga uma barata, o Brasil continuará sangrando suas riquezas a preços irrisórios e assim contribuindo para a grandeza e o bem estar da China draconiana comunista e não vai adiantar espernear, pois a história penta secular atesta e comprova que nesse jogo quem sempre venceu foram eles. Nós ficamos com os buracos, a miséria, a ignorância e a corrupção.