APRESENTAÇÃO


O conjunto de trabalhos que o amigo leitor encontrará aqui foi produzido ao longo de alguns anos. Não posso aqui precisar quantos, talvez uns vinte. A grande maioria deles publicada no jornal A TRIBUNA SANJOANENSE de SÃO JOÃO DEL REI (minha terra nanal) e NOVA MIDIA de BARBACENA; ambas tradicionais cidades históricas mineiras muito politizadas.

Obviamente há uma cronologia de publicação associada aos acontecimentos que inspiraram as respectivas reflexões. Depois de muito pensar, se deveria mencionar datas, resolvi aboli-las, pois achei que correria o risco de tornar seu passeio um tanto dirigido e até cansativo. Posso imaginar alguém lendo algo retratando fato acontecido há anos! Talvez se sinta entediado. Então, no intuito de instigá-lo, apresento uma miscelânea de trabalhos recentes e antigos, a fim de lhe subtrair, de propósito, qualquer direcionamento e deixá-lo livre para pensar, buscando no tempo, por si, tal associação. Acredito ainda que dessa forma esteja incitando sua curiosidade à medida que avance passos adentro. Sua leitura poderá inclusive ter início pelo fim ou pelo meio, que não haverá prejuízo algum para a percepção de que as coisas no Brasil nunca mudam. Ficará fácil constatar que a vontade política é trabalhada para a perpetuação da incompetência administrativa, obviamente frutífera para algumas minorias.

Penso que, se me dispus a estas publicações, deva estar antes de tudo, suscetível a criticas e, portanto, nada melhor que deixá-lo, valendo-se unicamente das informações contidas no texto, localizar-se na história. Caso não lhe seja possível, temo que o trabalho perca qualidade perante seu julgamento pessoal. Por conseguinte, acredito que isso não acontecerá; a não ser que o leitor não tenha, em tempo, tomado conhecimento dos fatos aqui retratados. Procurei selecionar de tudo um pouco; certamente sempre críticas, porém algumas muito sérias carregadas de um claro amargor. Outras, mais suaves, pândegas e até envoltas num humor sarcástico. Noutras retrato problemas da minha São João del-Rei. Até cartas para congressistas em Brasília há. E em alguns pontos, para abusar da sua paciência, introduzi coisas muito particulares. Críticas à parte, nessas, apenas falo de mim, afinal, apesar de amigos, talvez nunca tenhamos trocado impressões sobre coisas tão pessoais. . .

Aqueles que me conhecem há tempos, sabem que sou um obstinado por política, apesar de jamais tê-la exercido diretamente. Motivos houve de sobra e numa oportunidade poderei explaná-los. Todavia, do fundo do coração, afirmo que tal paixão tem como motor um doloroso inconformismo por ver o Brasil tão esplêndido e tão vilipendiado; vítima inconteste dessa cultura avassaladora de demasiada tolerância à antiética e à imoralidade na administração pública. Comprovadamente este é o pior dos tsunames com potencial para ter retardado nosso progresso mais de três séculos e grande responsável pela perpetuação da pobreza de metade da nossa população, pelo analfabetismo total e funcional, pela violência social e pelo abismo intransponível que aliena gigantesco contingente, maior que um quinto da população do continente sul americano. Diante do inaceitável absurdo, impossível me conformar em silencio diante dos atos e fatos que vão vergonhosamente enxovalhando nossa história e nos deixando como um gigante deitado sobre o escravismo que a Lei Áurea não foi capaz de abolir.

O título? Esse, talvez, seja o mais difícil explicar. GRITOS SEM ECOS representa uma espécie de pedido de socorro do náufrago, que sabe que de nada adiantará espernear, pois não há interlocutores, não há socorro, não há saída, não há conscientização; mas, assim mesmo, grita.

Será um prazer receber sua visita e ler suas opiniões, elogios ou críticas.

Forte abraço!



domingo, 28 de agosto de 2011

ABAIXO OS BARBUDOS BIGODUDOS

      
           Algumas passagens marcam por demais nossas vidas e figuraram de maneira profunda na lembrança, uma vez que novos fatos insistem em acontecer com tal semelhança, que, além de surpreender, insistentemente nos remetem ao passado de maneira a reviver cenas hilariantes e engraçadas.
            Certa vez, ainda na juventude, estávamos eu e alguns amigos adolescentes, todos ostentando longos cabelos, algumas penugens no rosto que orgulhosamente chamávamos barba, metidos naquelas monumentais calças Lee boca de sino e assim, em perfeito alinhamento com a moda ditada pelos Beatles e outros importantes ícones do sagrado rock and roll, ouvíamos músicas altas reproduzidas numa radiola portátil Phillips – esse era o nome do equipamento de ultima geração – que bem instalada numa soleira repassava os belos rocks lendários, enquanto dançávamos e cantávamos irreverentemente, ao passo que outros volteavam de bicicleta fazendo piruetas sobre a calçada num vai e vem frenético embalado nos arroubos calóricos da juventude. Quando, de repente, lá vinha o velho Chico Gato; figura esmaecida e cambaleante em alguns copos de cachaça. Na meia escuridão da rua pôde-se prever a eminente confusão. O dito cujo caminhava exatamente em nossa direção e já sabíamos que nenhum de nós estava disposto a lhe dar passagem. Muito menos o eternamente embriagado, tenaz implicante, pretendia desviar-se do catastrófico encontro. Chico Gato, então, agarrado nas suas ultimas forças, firmou o passo caótico e veio direto num decidido encontrão contra a parede compacta a sua frente. Levou logo um empurrão que o fez voar que nem pluma lá pelo meio da rua. Logo que se restabeleceu do vôo rasante, depois de ter batido a poeira da roupa surrada, voltou à carga, agora num falatório frenético e gritado, composto de algumas dezenas de frases desencontradas, recheadas de palavrões acompanhados de um discurso característico dos bêbados tresnoitados. Dizia ele:
- “seus interceptos, maconheiros, cabeludos, barbudos, bigodudos, corruptos, ladrões; vocês pensam que são donos da rua? Vocês não sabem com quem estão falando! Amanhã vou colocá-los todos na cadeia”. 
E assim terminou a noite do bêbado Chico Gato e dos cabeludos baderneiros, que ficou gravada na memória com certo orgulho e grande arrependimento.
            Mais adiante, passados tantos anos que não posso me lembrar, meu velho pai, que mantinha estreitas relações com um Regimento de Infantaria do Exército, chegou em casa solidário com a cólera do comandante profundamente indignado com a insubordinação de um praça. Se não me engano, sua patente era a de cabo. O simplório e insolente alfaia, logo depois de algum tempo de férias, meteu-se em seus aparatos militares e se apresentou para o serviço sob um vasto e negro bigodão, bravamente bem instalado numa cara sem vergonha que devia estar lisa como bundinha de neném, para o comandante passar o algodão de baixo para cima. O tenente oficial do dia, logo lhe meteu uma parte que foi parar direto sobre a mesa do coronel. Chamado a se explicar o bigodudo não titubeou em informar que preferia a morte à subtração daquela maravilha. E só não morreu, porque a cadeia foi mais dura que a morte e antes que ela viesse resolveu passar o rodo na sujeira sem tamanho.
            Passados tantos anos e diante dos fatos absurdos que assolam nosso governo abarrotado de larápios e pistoleiros de gravata em punho, essas estórias do passado me vêm à mente numa correlação perfeita. Se nosso Chico Gato fosse vivo, certamente seu discurso ganharia repercussão nacional. Afinal, quantos interceptos contumazes obstruem nosso caminho ao desenvolvimento e sujam os livros da nossa combalida história com sua ladroagem nacional? Outro dia um intercepto senador nordestino do PMPQP, um cara de pau, sem bigodão irreverente, porém demais desafiador, garantiu a um outro intercepto que seu partido, o velho de guerra PMPQP, esteve e estará ao seu lado em qualquer situação. Confesso que fiquei deveras emocionado com tamanha solidariedade entre interceptos de colarinho branco. Aliás, essa velha solidariedade é historicamente comum entre interceptos; por isso naquela memorável noite o velho Chico Gato voou como nossa paciência tem voado de raiva ao ver os insultos dos nossos suínos governamentais diariamente emporcalhando as edições dos noticiários nacionais.
            Afora tudo isso; agora, depois da saída do velho ministro da defesa, o Sr. Jobim; que nos defendeu de tudo, menos da ANAC e dos seus aviões e aeroportos sem relógio, outra incrível coincidência me vem fazer lembrar o cabo bigodudo. Aliás, cabo bigodudo pode ser também cabo de vassoura. O ex-ministro diplome mata Celso Amorin, comuna-democrata petista puxa saco de ditadores como Fidel, Chaves e Ahmadinejad; travestido com aquela barbicha e aquele bigodinho feiosos vai fazer os generais lhe prestarem continência. Se fosse eu, não prestava de jeito nenhum; preferia me mudar para Caracas e ficar lá tomando banho o dia inteiro para ver se acabava com todas aquelas favelas horrorosas que sujam a paisagem e o currículo do chaveiro comunista pestalose presidente Chaves. Por outro lado digo um sonoro “BEM FEITO” aos generais, porque se esqueceram daquela velha máxima do futebol: “Quem não faz, leva”.  Curvem-se para o barbicha, afinal quem manda é o PT mesmo! A Dilma? Essa pensa que manda, mas mandava muito mais no tempo do Lulinha Marolinha Maravilha. Agora?!...Mandam os barbudos bigodudos e interceptos.





          

domingo, 14 de agosto de 2011

ANIVERSÁRIO DE MARIA ESTELA - PAIOL - S VICENTE DE MINAS

Nesta importante noite em que tantos aqui se reuniram para prestar homenagem a esta grande senhora, nossa querida Maria Estela, me seria impossível deixar de marcar no mural da sua bela história de vida, algumas palavras, que, sinceramente acredito, configurem a opinião unânime de todos que aqui agora se encontram.
 O fato de se completar 80 anos é algo que na verdade paira em nosso íntimo como uma imensa interrogação. Como será chegar lá? A resposta certamente virá no embalo do tempo pela sua inexorabilidade. Quem não desembarcar do barco do tempo, um dia, com toda certeza, terá sua resposta. Positiva ou negativa? Eis a questão!... Mas o que é esse tal barco do tempo? A resposta é obvia: barco do tempo é a vida. Só chegam lá os agraciados por Deus pela longevidade. Vida longa é benção, é sorte, é vitória sobre a grande e perigosa aventura que é viver.
 Belo presente divino chegar aos 80 anos, cheia de vida, saudável, alegre, lúcida acariciada por dezenas de amigos prenhes de carinho, ternura e gratidão pela sua terna presença, pela paz que nos transmite seu cálido abraço, pela emoção que transborda em nossos corações o som da sua suave e amigável voz. Maria Estela vem lá, com seu indefectível sorrisinho, passinho por passinho, bem devagarzinho. Entretanto, como sempre aparências enganam, por detrás da imagem de mulher pequena e frágil, também a acompanha a gigante octogenária, sovada pelo tempo, carregada de experiências, de equilíbrio, da boa ética tão rara nos mais moços e nos tempos modernos. Um alicerce que jamais o tempo consumirá, pois aí está sua prole, que continuará trespassando as calendas do tempo levando consigo bons exemplos e o gene do tronco dadivoso.

Quem dera todos que aqui agora estão pudessem chegar nesses altos cumes dos oitenta anos! Quem dera todos que aqui estão, um dia, pudessem se acercar dessas dezenas de admiradores, dentre eles amigos vindos de distantes rincões, filhos orgulhosos, netos benfazejos; e todos de mãos estendidas acariciando nossos cabelos brancos, nevados pelo tempo e abençoados pelos bons desígnios de Deus!
 Mas há muito mais a considerar sobre a boa estrela dessa nobre senhora. Sem o intuito de querer mexericar, há quem diga que nas artes da canastra não há igual nestas paragens. Como boa oponente gosta de ganhar. Uns dizem que é na pura conta da sorte. Outros, simplesmente atribuem à brilhante competência. E outros!... Ah esses outros linguarudos!  Daqueles que têm mania de perseguição; dizem que ao perder, chora, esperneia e desconsolada bota culpa na parceira, que nunca da devida atenção na peleja. Dizem, não posso garantir, que, certa vez, ela e parceira não paravam de ganhar. Desconfiada, a dupla adversária contou as cartas e descobriu que misteriosamente o baralho de 52 cartas, pulou para 62. Maria Estela balançou os ombros e disse não saber explicar o acontecido e até hoje não encontraram explicação. Quem a souber, por favor, queira nos contar.
 Querida amiga, não se aborreça conosco. Já disse que isto é intriga da oposição. Sabemos das suas qualidades e o quanto é bom recebê-la em nossa casa nas tardes de domingo, quando sua presença vem alegrar e enriquecer nosso convívio e adoçar aquele mesão de café com leite pão, manteiga e queijo mineiro.
 Já falei demais! Agora o que esse mundão de amigos quer mesmo é lhe desejar um feliz aniversário, muita sorte, paz e bênçãos divinas.
            
             Parabéns e pinga na moçada!

DIOCESE NO MUNDO MODERNO

            Nos dias de hoje, se tornou lugar comum a justificativa de que não se tem mais tempo. Tempo; essa matéria prima da qual tanto dependemos; nosso mais valioso bem não renovável, absurdamente vem, a cada dia mais, se perdendo pelo ralo da correria com tantos afazeres característicos da vida moderna!
            A dinâmica natural da vida acelerou-se absurdamente com o alto fluxo de informações proporcionado pelas novas tecnologias e isso transformou o homem/mulher contemporâneo numa máquina movida a competição. O “ser” perdeu valor em favor do “ter”. Vale mais quem tem mais e aí nos desumanizamos drasticamente. Precisamos correr para ir à ginástica e ter o corpo mais sarado, correr para não perder o inédito capítulo da novela no televisor HD de última geração, nem o jornal com as últimas notícias da corrupção e da violência social.  Correr para pagar a prestação do carro automático equipado com computador de bordo. Correr para planejar as férias das crianças à Disney.  Correr para ir ao médico tratar da depressão e da hiper-tensão, que ultimamente se tornaram crônicas devido às altas pressões e à frustração por não ter ainda mais tempo para perder com mais e mais conquistas materiais. Um contra-senso, pois, se hoje dispõe-se de parafernálias tecnológicas mais eficientes, era de se esperar que sobrasse mais tempo para o “ser” humano que existe em cada um. Entretanto, o que se espera para o futuro é um aprofundamento ainda maior da escravização ao estado do “ter”, uma vez que as minorias dominantes detentoras dos meios de produção e controladoras da grande mídia mantêm-se atentas na criação de novos valores e novos meios de satisfazê-los, introduzindo o modismo tecnológico embarcado na rápida obsoletização como motor necessário à crescente e lucrativa valorização  do “ter”. 
            Diante dessa corrida colossal vem a clássica pergunta: - o que se pode fazer; como reagir se estamos introduzidos até o pescoço ao culto do ter?
Antes de tudo é necessário libertar-se do comodismo, livrar-se do efeito manada que induz todos a fazer tudo igualzinho, sem questionamento. Pare, olhe, escute, observe; procure outros valores ao derredor e certamente encontrará uma instituição séria, comprometida com o bem estar e o desenvolvimento do seu “ser”. Ela é a Igreja Católica e esta representada em sua cidade ou região por uma Diocese, liderada pelo bispo diocesano e composta por algumas dezenas de veneráveis paróquias e seus respectivos vigários, mantenedoras de incontáveis obras sociais junto a comunidades carentes; enfrentando de peito aberto o sofrimento de pessoas desassistidas pelo estado, na maioria das vezes ausente em seus compromissos constitucionais. As Dioceses e seus párocos auxiliados por um batalhão de voluntários, atuam ainda levando alento e paz espiritual aos doentes e desesperançosos, conhecimentos de valores intrínsecos relativos a Deus, à ética na convivência, ao amor ao próximo, à conduta cristã através do catecismo ministrado a centenas de milhares de jovens ainda impúberes desenvolvendo em suas cabeças o equilíbrio e a conscientização necessários para o enfrentamento dos falsos valores do “ter” a qualquer custo; capacitando-os pelo menos a deixarem de ser vítimas mansas, irracionais sem reação, incapazes de separar o joio do trigo.
            A Diocese tem origem histórica no Direito Romano, para designar o território e a jurisdição de uma cidade. Sua importância histórica, acima de tudo demonstra com mais força sua importância aglutinadora como fator de integração territorial e cultural num dos mais importantes, longevos e influentes impérios da antiguidade, o Império Romano. A Igreja Católica, na sua condição de legado histórico, cultural e religioso daquele importante império, cedo percebeu que para se impor como representante primaz do cristianismo através dos séculos precisava também se estruturar fortemente, mas, sobretudo de maneira ágil e flexível e então, lançando mão do mesmo recurso, se subdividiu em Dioceses, transformando-se num corpo uno, com linhas de comunicação eficientes entre o Papa e as mais remotas regiões da terra.
            Sua Diocese, portanto é a cabeça e os olhos do Papa, representante máximo do Cristo entre os homens de boa vontade. Vá até ela, valha-se do seu acolhimento, conheça sua messe. Através das ferramentas materiais e espirituais fornecidas por ela, vacine-se contra o imperialismo dos modismos materialistas e permita que o “ser” existente em você sobrepuje seus “teres”; assim certamente terá mais tempo, menos stress, mais saúde mental, corporal e paz de espírito.



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terça-feira, 26 de abril de 2011

A ETERNA HERANÇA COLONIAL BRASILEIRA e LATINO AMERICANA

 Desde o instante que Cristóvão Colombo aportou nas Antilhas e deparou-se com a espetacular visão de natureza intacta e os olhos gordos daqueles aventureiros comunicaram aos reis católicos o grande achado, nunca mais os rapineiros deixaram em paz a América. Crivaram-na de buracos em busca dos gigantescos veios auríferos e diamantíferos, dizimaram cidades indígenas com suas montanhas de ouro e prata, escravizaram os índios e depois os mastigaram e digeriram como escravos juntamente com sua cultura milenar em muitos aspectos mais desenvolvida que a européia, se infiltraram pelos rios e montanhas derriçando todo tipo de madeira que encontravam pela frente, implantaram a monocultura da cana de açúcar cuja roda motora encontrou combustível no esbanjamento das elites européias e nos braços escravos de milhões de negros importados à força da África. Do outro lado do Atlântico as potências exploradoras revezavam-se no comando da pilhagem na exata medida da sua capacidade de jogar no tabuleiro dos interesses comerciais de sua época.
 Inicialmente Espanha e Portugal, que dirigidos por governantes irresponsáveis, perdulários e sem visão, perderam para a Inglaterra esta vaca de múltiplas tetas que jamais deixou de oferecer precioso sustento às mãos de ferro sanguinárias daqueles cuja ambição insaciável nunca teve medidas a satisfazer. O tempo passou e com ele as eras do ouro, da prata, do açúcar, do algodão, do café, que possibilitaram a industrialização da Inglaterra e viram-na, mais tarde, ceder lugar ao novo gigante em ascensão, que apesar da contemporaneidade colonial, não teve a má sorte de guardar em seu subsolo tantas riquezas que pudessem atrair a cobiça desmedida dos implacáveis exploradores e que, por essa mesma boa sorte, pode transformar-se no altar dos novos ingleses que partiram para construir sua querida e sonhada Nova Inglaterra; hoje Estados Unidos da América. Mas a nascente era industrial traria consigo novas corridas exploratórias e uma vez mais a América Latina seria conclamada a comparecer com suas imensas reservas minerais e petrolíferas num eterno e sórdido movimento de saída de riquezas a preços irrisórios em prol do bem estar social das oligarquias internas e da aceleração do progresso das grandes potencias à custa do saque, do sangue, da fome, da desnutrição, da miséria, da ignorância, da proliferação da tirania e da corrupção endêmica em todo o continente.
Diante desse tenebroso quadro que mais parece o dia do juízo final e da condenação ao fogo ardente do inferno onde não há remissão, nem escapatória, conquanto a ignorância seja a mola quebrada que mantém milhões na jaula da incapacidade de competir num ambiente altamente tecnológico, o mundo se acostumou a olhar para nossos horizontes e apenas enxergar bons pastos para engordar suas contas bancárias sedentas por dólares. Querem navios carregados com produtos primários baratos em troca de meia dúzia de chips caríssimos, milhares de toneladas de minério de ferro sem nenhum valor agregado, a fim de inundar nossas ruas e vias, já atravancadas, de automóveis de luxo ou encantar nossos olhos com milhares de quinquilharias de qualidade inferior às similares disponíveis lá fora, para deleite exclusivo das minorias privilegiadas. A América Latina e o Brasil em particular, apesar do seu já maduro parque industrial, continuam gozando do status de fornecedores de commodities básicas. Qualquer beneficiamento, por menor que seja não interessa às potências industriais, porque lhes subtrai empregos e dividendos.
Passados cinco séculos e do alto da condição de potencia emergente, que pretende conquistar maior espaço no cenário político mundial, com uma demanda de mão de obra que ultrapassa os dois milhões de postos de trabalho por ano e ainda com o compromisso ético de melhorar os índices de qualidade de vida do povo, o Brasil precisa se posicionar de forma mais inteligente diante de seus parceiros comerciais. De nada vai adiantar a presidente Dilma sair por aí vendendo peixe frito se todos o querem cru. No estado primário o mesmo peixe dá lucro na compra, no processamento e na venda. Historicamente as commodities são cotadas pelo comprador e essa é a causa do paradoxo latino americano: homens pobres pisando em solo rico. – veja as condições dos produtores mineiros de leite; ricos economicamente e pobres financeiramente – O governo passado substituiu os EUA pela China como seu maior parceiro comercial e no ano de 2010, no montante de 55 bilhões de dólares de comércio entre os dois países, o Brasil consolidou sua secular posição de fornecedor de materiais primas. A China preferiu se comportar como a Inglaterra dos séculos XVIII e XIX e nós brasileiros continuamos entrando pelo mesmo cano que nos manteve presos ao subdesenvolvimento social e técnico: suprimimos empregos no mercado nacional e os criamos na China, desestimulamos investimentos em expansão industrial, estamos correndo o risco de nos transformar num simples entreposto de produtos estrangeiros, não desenvolvemos tradição de qualidade e de capacidade tecnológica e de quebra estamos perpetuando a falta de investimentos no vetor básico do desenvolvimento que é a educação. Completa-se o circulo vicioso: o país não é competitivo porque não dispõe de educação tecnológica e não se torna competitivo, porque precisa importar know how. Nossos manufaturados são vistos lá fora como obsoletos, de má qualidade e caros. Esse é o pior dos mundos para quem quer vender.
Desde pequeno ouvi meu saudoso avô, um imigrante semi-analfabeto e muito bem escolado nas artes do varejo de balcão, dizer: - meu netinho, se você quiser se dar bem no comércio precisa seguir cinco regras básicas: ter vários fornecedores, vários compradores, boa qualidade, bom preço e gastar menos que ganhar para não depender de recursos alheios. Aquele libanês ignorante não demorou muito a aprender o óbvio, contudo nossos governantes continuam fuzilando as empresas com os impostos mais caros do mundo, fora a natural escassez de capital na esteira dos juros astronômicos sem contar os entraves burocráticos e logísticos; assim lhes roubando competitividade. Ainda mais acreditam que a China, uma potência hexa milenar na arte do expansionismo e da dominação, esteja muito sensibilizada com os anseios e necessidades do gigantismo emergente do Brasil?!
 Se o governo populista brasileiro não fizer uma emergente reforma tributária e fiscal e não parar de pisar na empresa brasileira como se esmaga uma barata, o Brasil continuará sangrando suas riquezas a preços irrisórios e assim contribuindo para a grandeza e o bem estar da China draconiana comunista e não vai adiantar espernear, pois a história penta secular atesta e comprova que nesse jogo quem sempre venceu foram eles. Nós ficamos com os buracos, a miséria, a ignorância e a corrupção.

                                        




quarta-feira, 13 de abril de 2011

BRASIL; POTÊNCIA IMPOTENTE NO CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU


            A cada dia mais me convenço da ingenuidade da diplomacia brasileira, cuja maior crença no presente momento é a de que o Brasil deva ser admitido como membro permanente no Conselho de Segurança da ONU.
            O atual governo, assim como o passado, animou-se nesta questão embarcado nas idéias mirabolantes e na pirotecnia político discursiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula, refinado protótipo do homem de sorte e do brasileiro bonachão, que leva tudo na valsa, inveterado contestador, capaz de colher dividendos da própria leniência;  tendo passado os primeiros quatro anos do seu duplo mandato assistindo ao Brasil apresentar um dos menores índices de crescimento do hanking mundial; reeleito embarcado nos bons ares do populismo assistencialista, aproveitou-se para afiar as garras do imposto de renda e capitalizado aprimorou  ainda mais o populismo eleitoreiro. Mais um vez sua estrela brilhou conduzindo o Brasil para o limbo progressista propiciado pela bolha do desenvolvimento mundial, que, mais tarde, levaria o mundo à banca rota e deixaria o Brasil a salvo no barco da pujança da sua economia movida a commodities, no incentivo ao consumo interno e na gastança governamental desmedida, irresponsável e eleitoreira baseada em empreguismo e “programas de aceleração do crescimento”, que jamais visaram setores cruciais e estratégicos, tais como antigos gargalos portuários, aeroportuários, rodoviários e suas incipientes logísticas. Enfim, o país continua capenga em suas estruturas básicas, multiplicando custos (“custo Brasil”), inviabilizando empresas nacionais, incitando inflação de demanda e ainda criando milhares de  empregos em países concorrentes.
            Mesmo assim e sob críticas dos setores industriais mais importantes do país ele foi em frente  e munido da sua singular falastronice, desmedido otimismo e ouvidos de mercador, tentou por todas as maneiras transformar-se no grande lider político latino americano por  levantar voz em defesa de ideais socialistas ultrapassados  e às custas de rusgas e críticas contundentes aos Estados Unidos, incentivo ao mercosul e aproximação com a China. Conseguiu promover a China ao posto de maior parceiro comercial do Brasil pelo fornecimento de commodities em alta escala àquele país, por outro lado renunciando o mercado americano que era também forte comprador de produtos de média e até alta tecnologia “made in Brasil”, gerava empregos no mercado interno e principalmente incentivava o investimento e a expansão da indústria nacional  a médio e longo prazos.
            Teria sido mais prudente, se não tivesse esquecido do velho conselho das nossas vovozinhas: “não vá nem tanto ao céu, nem tanto à terra”, afinal mesmo sob os efeitos negativos da mais profunda crise econômica da história, os Estados Unidos aínda é responsável por um quarto do comércio mundial e de quebra é a maior potência militar do planeta, tendo a sua forte influência econômica e cultural tentáculos espraiados por todas as atividades humanas.
            Lula vociferava contundentemente contra a velha prática subsidiária dos países ricos sobre uma extensa lista de produtos, principalmente contra os Estados Unidos. Ora, que perda de tempo! Os produtores de lá há décadas contam com essas benesses governamentais com o único fim de lhes dar competitividade. Tratam-se de conquistas arraigadas no campo comercial e até cultural, portanto, quase impossíveis de serem suprimidas, mesmo que os governos assim o desejassem.  Certamente, se Lula esbravejasse menos e desonerasse os produtores nacionais através de uma substancial redução tributária associada a saudável política de juros suportáveis para aquisição de bens de produção e insumos, daria ao Brasil condições de afinar sua competitividade colocando seus produtos em qualquer mercado do mundo, mesmo nos mais estreitos, como é o caso do  americano.
            O boom de crescimento que hora vivenciamos é apenas a ponta de um ice berg do bem que se fosse realmente emergido nos criaria condições de crescer a mais de 10% ao ano por várias décadas. O mundo reconhece e sempre reconheceu as potencialidades brasileiras e reza com fé para que os governantes brasileiros continuem sofrendo de cegueira crônica, de incapacidade gerencial, de falta de ética e desonestidade, de irresponsabilidade com os ideais de um povo que sonha em ser grande e feliz. Possuimos um território quase tão grande quando o da China, rico em recuros naturais, não estamos submetidos ao rigor das intempéries e desastres naturais chineses, somos um povo criativo e livre, temos conhecimento, tecnologia e célebros de alto nível espalhados pelo mundo. Por que então vimos assistido a China apresentar crescimento astronômico anos a fio e há quem diga que em 15 anos seu PIB ultrapassará o dos Estados Unidos? Simplesmente porque faz respeitar as leis com rigor, estabeleceu e cumpre a grande meta de se transformar numa grande potência industrial e tem imensa capacidade gerencial; o que não é o caso do Brasil. Balela a justificativa de que os custos de produção das industrias chinesas é baixo porque sua mão de obra é quase escrava ou porque a dinâmica administrativa numa ditadura é mais ágil. Prova da inconsistência dessa afirmativa é que os Estados Unidos e outras potências de sucesso sempre praticaram os mais altos salários do mundo, exatamente porque sabem que a economia é uma via de mão dupla. Quanto mais as pessoas ganham mais consomem e quanto mais consomem novos empregos são criados; dando origem a um círculo virtuoso aonde se investe sem temor na expansão industrial, assim afastando-se o risco do desequilíbrio entre oferta e procura, dispensando-se o excesso de tributação pelo maior giro macro econômico e de quebra robustecendo-se os cofres do estado. Além disso atota com afinco medidas gerenciais capazes de multiplicar a competitividade dos meios de produção internos frente à concorrência externa. Enfim, todos ganham de uma ponta a outra.
            O dia que os governantes brasileiros aprenderem gerenciar com eficiência e abrandarem sua ânsia atávica do imediatismo midiático, o Brasil realmente merecerá assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Esse galardão não será ganho no grito, pelo simples fato de sermos centenas de milhões em um território continental. Respeitabilidade internacional é um fenômeno endôgeno que refletirá nos olhos do mundo com constância depois de longos anos de crescimento sustentável, incluindo aí não somente invejáveis PIBs ou grandes reservas cambiais, mas um maior comprometimento educacional com resultados práticos, histórico de conquistas cietíficas amplo reconhecido e respeitável, melhores índices de qualidade de vida, liderança política regional incontestável, políticas públicas verdadeiramente comprometidas com processos sustentáveis e algo muito importante: arsenal  militar com capacidade de intervenção em missões de defesa e/ou ataque. Nesse dia o Brasil não precisará do apoio dos Estados Unidos ou de quem quer que seja; será convidado...

SANTOS E HERÓIS; CADA QUAL NA SUA EXATA MEDIDA.



Finalmente descansou o herói José de Alencar! Longos e longos anos de luta aguerrida contra a implacável doença e o espontâneo sorriso matreiro como que a desafiar confiantemente um inimigo invencível enlevaram a imagem de réles e impotente mortal à indelével condição de quase santo.
            Bom, pelo menos é assim que historicamente o imaginário popular cria seus heróis. O homem comum, cidadão anônimo, atônito, pobre, ignorante, místico, sem esperanças, explorado e espoliado por um sistema cruel imposto pela pátria hostil; eternamente enjaulado em si mesmo, indefeso diante das dezenas de dentes das tantas bocas que querem cada qual lhe abocanhar um naco; não tendo melhor opção, cria heróis imaginários e bondosos, habitantes generosos de um mundo fantástico, onde tudo se resolve num passe de mágica e vilões não têm vez diante da clarividência de uma justiça celeste e etérea, que nunca existiu no seu mundo real. Alencar, em breve, beatificado aliviará o corpo e o espírito dessas vítimas da insana crueldade desse sistema exploratório mantido pelo Estado brasileiro perdulário, desorganizado e voraz.
            Mas a biografia histórica desse paladino nos delineia ainda outros parâmetros a considerar. Empresário de sucesso, homem dos mais ricos num país aonde setenta por cento da população vive de salário mínimo e não tem nem o primeiro grau completo, foi a nota que serviu de afinação para que o mundo acreditasse em Lula; o nordestino torneiro, pobre, sem formação, socialista, que virou presidente estadista do Brasil ultra capitalista. Alencar e Lula formaram a dupla com peso e estatura exatos para estabilizar o Partido dos Trabalhadores, encantar o povo e acalmar as elites. Protagonistas dos contrates, ambos souberam magistralmente domar feras tradicionalmente avessas uma à outra. Capitalistas e trabalhadores assentaram do mesmo lado da mesa regidos pela batuta de dois maestros tão diferentes nas origens e tão iguais nas dissimulações políticas. Enquanto Lula, o Robin Hood tupiniquim, dava sustentação ao torniquete dos juros mais altos do mundo, cobrados inclusive dos tantos pobres que sempre o apoiaram e alegrava banqueiros e outros sortudos, Alencar vociferava contra tamanho despropósito, agradava seus pares empresários e, de quebra, arrebanhava novamente fortuitos dissidentes que porventura pudessem querer abandonar o barco do governo e dos partidos que o sustentavam. Esses dois foram tal qual mão esquerda e direita, uma lavava a outra, uma dançava com a outra a valsa do vem cá meu bem sem nunca saírem do compasso.
            O Brasil; uma das maiores potências econômicas do mundo como também uma das maiores impotências no campo social com seu IDH (índice de desenvolvimento humano) comparado ao de alguns países africanos, que cobrou bilhões de CPMF para a saúde dos cofres públicos, porque a saúde dos pobres de Lula vai de mal a pior e continuam morrendo nos corredores dos inospitais brasileiros; assistiu ao sofrimento do seu vice-presidente José Alencar, o homem de grandes exemplos, cuidado por uma das melhores equipes médicas do mundo, num dos melhores hospitais do mundo. Ele era sim um homem admirável, honesto, trabalhador, vencedor, corajoso, tenaz; fortaleza inabalável diante das garras afiadas da moléstia incurável, mas não podemos nos esquecer que para um homem das suas posses e do seu status tudo ficou muito mais fácil. Qual dos brasileiros, desses tantos pobres miseráveis tratados como animais nos hospitais públicos, que se encantaram com sua postura remida diante da dura realidade, choraram e se lamentaram por seu sofrimento e desaparecimento, poderia contar com a logística gigantesca, translados aéreos, a dedicação sobre humana de tantos médicos a tempo e a hora e ainda arcar com os custos astronômicos com diárias hospitalares de primeiro mundo, medicamentos, aparelhos e tecnologia importados de última geração e vanguarda?
            Obviamente que a resposta é esta que todos estamos pensando. Mas deixemos que nosso povão inocente, mal informado, incapaz pelo menos de juntar idéias e fatos que aí estão à disposição de qualquer um portador de inteligência mediana continue acreditando em fadas, duendes e santos do pau oco, pois as próximas eleições batem às portas e os políticos fichas limpas e sujas precisarão de generosos votos.

DEUS EXISTE?

             Crer em Deus é nada mais que um ato de fé. Ter convicção na existência de algo que ninguém nunca viu, nem tocou constitui-se num exercício de pura subjetividade, que, certamente, o homem pela sua capacidade de pensar e conseqüentemente questionar, necessite para explicar o que não pode compreender. Deus então, seria a personificação de algo intrincado e mágico. Simples e confortante, para aplacar a ansiedade humana diante do que foge ao entendimento e controle.
            Tamanho simplismo, no entanto, é incondizente com a insaciável satisfação humana, como também com a grandeza que a entidade Deus encerra. Surge então, a associação da idéia de Deus com o medo. O medo, um dos gigantes da alma, associado à grandeza de um Deus punitivo, capaz de controlar a natureza – às vezes revoltosa e assassina – ao seu bel prazer, introduzir doenças mortais e devastadoras e castigar com desventuras e azares de toda ordem.
Nessa torrente imaginativa entra em cena o maquiavelismo humano e cria-se a conveniente imagem do Deus político que comprava a fidelidade dos homens com indulgências e que, por outro lado, também podia condenar às chamas ardentes do inferno aqueles que não cumprissem à risca as determinantes do poder estabelecido. Estava instituída a forma mais sórdida de controle humano de que se tem notícia e em nome desse Deus seletivo e mal, os poderosos condenavam sumariamente aos horrores da fogueira ou da guilhotina aqueles que, pelo menos, não lhes fossem simpáticos.
            Felizmente com a instituição do código internacional dos direitos humanos, com o aprimoramento democrático e o burilamento cultural, a humanidade vem se libertando desses grilhões mentais de que foi vítima por milênios e crer ou não em Deus deixou de ser um ícone de conduta ou de comportamento passando a ser um valor de foro íntimo e nada mais. 
            Mas as igrejas, e quando falamos delas nos referimos em cheio à igreja católica, pois é a mais influente e antiga; ainda têm em seus quadros homens que conservam ou, pelos menos tem saudades, daqueles velhos tempos em que Deus era a corda da guilhotina ou a lenha da fogueira. A tudo condenam como se fossem os donos da verdade, pouco se importando com os impedimentos que suas doutrinas falaciosas interpõem ao desenvolvimento humano-social da humanidade. São contra o controle da natalidade num planeta que não tem condições de manter índices populacionais crescentes; talvez porque sejam a favor da fome, da violência social e da indignidade a que a miséria submete o ser humano. Ou ainda, sejam a favor da perigosa destruição da natureza pelo pressionamento sobre as reservas naturais por absoluta falta de espaço e de opção de trabalho onde as oportunidades de executá-lo já tenham se esgotado. Se pudéssemos contatar aqueles que ainda estejam por nascer e lhes mostrássemos a realidade da sociedade cruel e seletivista e lhes fosse dado o poder de escolha, será que quereriam, mesmo assim, vir para o vale de lágrimas e ranger de garfos em panelas vazias ou de costelas debaixo de pontes? Segundo a lógica que vem governando o universo há, pelo menos, uns quinze bilhões de anos, acho que não; contudo, segundo os espíritas, eles viriam mesmo sem querer, a fim de expiar as faltas que cometeram na última passagem. Quando me refiro à lógica universal é porque ela é inteligente e racional e o sincretismo que nos vitima é débil e irracional.
            “Graças a Deus” no meio de tantos cegos sempre há alguém com boa acuidade visual. Outro dia, numa celebração ouvi um sermão em que um padre sábio e inteligente criticava aqueles que vão sempre às missas dominicais e que durante a semana não praticavam o amor, este sim aconselhado pelo Deus bom no qual acredito. Dizia ele: “...a melhor missa é a convivência fraternal. De nada adianta estar aqui todo dia ou todo domingo comungando com carinha de santinho e no caminho passar por um irmão esfomeado e não lhe estender a mão. Cristo é aquele que lhe pede socorro. Quem não for capaz de enxergá-lo que fique em casa que lá é o lugar dos egoístas e falsos cristãos...”
            Deus, portanto, existe nessa filosofia da fraternidade e na sintonia que ela tem com as leis que equilibram o universo. Quando deixarmos de temer Deus pelos castigos e malvadezas que ele possa nos impingir e passarmos a amá-lo e até enxergá-lo na arte universal que nos acerca figurada no irmão que passa, na flor que desabrocha, nos astros que povoam o universo aos bilhões separados por distâncias descomunais, na dinâmica da química que transforma elementos lhes dando múltiplas formas e cores, na sinergia dos átomos diminutos que  formam os gigantes do universo, na natureza mantenedora da vida que nada mais é que o próprio espírito de Deus, que abrigamos em nosso corpo temporal e mortal; estaremos aptos a nos libertar da “miséria humana”.
            A vida, esta sim, a própria imagem de Deus. Um fenômeno metafísico. Não podemos considerá-la uma ficção porque mantém nosso corpo ativo no espaço e no tempo. A ciência moderna com toda sua miríade de conhecimento não pode explicá-la. Talvez ouse apenas conceituá-la. Os cientistas não reconhecem tacitamente, porque temem críticas e preferem abstrair-se deixando aos colegas do futuro a tarefa de fazê-lo. Mas sabem que nunca farão, pois a ciência atua baseada em elementos concretos e a vida, apesar de ser uma realidade concreta, não é um elemento, mas um dom. Uma vez que não existam dons físicos, obviamente é um dom abstrato e, portanto, divino. A ciência conhece a composição físico-química de qualquer ser vivente. Ela poderá, e já está fazendo, manipular células e, no futuro próximo, até os genes, mas com a vida ela não se envolve. Seu espectro permanece um fenômeno que se transfere espontaneamente de um meio a outro, quando há condições para tal. Se assim não fosse estaríamos fabricando ovos capazes de originar novas aves ou mesmo produzindo sementes férteis como as naturais.
            Deus existe! Devemos acreditar piamente nisso porque existimos, e na sua sublimação maior Ele ainda nos dotou de razão e de liberdade de ação e escolha. O homem ser uno no universo com estas características. Nem os corpos ciclópicos do cosmos são dotados dessa capacidade, e estão obedecendo a uma prévia ordenação.
Partindo dessa premissa devemos concordar com a preocupação das igrejas com a preservação da vida, mas devemos discordar dos seus métodos manipuladores de amedrontamento diante de um Deus retalhador. Concordamos com a preservação da vida no seu ninho, ou seja, no ventre; mas discordamos, quando se trata da sua indução irresponsável e inconseqüente. Condenar o uso responsável e asséptico de métodos anticoncepcionais é também condenar a vida a um reles lugar no altar universal.