APRESENTAÇÃO


O conjunto de trabalhos que o amigo leitor encontrará aqui foi produzido ao longo de alguns anos. Não posso aqui precisar quantos, talvez uns vinte. A grande maioria deles publicada no jornal A TRIBUNA SANJOANENSE de SÃO JOÃO DEL REI (minha terra nanal) e NOVA MIDIA de BARBACENA; ambas tradicionais cidades históricas mineiras muito politizadas.

Obviamente há uma cronologia de publicação associada aos acontecimentos que inspiraram as respectivas reflexões. Depois de muito pensar, se deveria mencionar datas, resolvi aboli-las, pois achei que correria o risco de tornar seu passeio um tanto dirigido e até cansativo. Posso imaginar alguém lendo algo retratando fato acontecido há anos! Talvez se sinta entediado. Então, no intuito de instigá-lo, apresento uma miscelânea de trabalhos recentes e antigos, a fim de lhe subtrair, de propósito, qualquer direcionamento e deixá-lo livre para pensar, buscando no tempo, por si, tal associação. Acredito ainda que dessa forma esteja incitando sua curiosidade à medida que avance passos adentro. Sua leitura poderá inclusive ter início pelo fim ou pelo meio, que não haverá prejuízo algum para a percepção de que as coisas no Brasil nunca mudam. Ficará fácil constatar que a vontade política é trabalhada para a perpetuação da incompetência administrativa, obviamente frutífera para algumas minorias.

Penso que, se me dispus a estas publicações, deva estar antes de tudo, suscetível a criticas e, portanto, nada melhor que deixá-lo, valendo-se unicamente das informações contidas no texto, localizar-se na história. Caso não lhe seja possível, temo que o trabalho perca qualidade perante seu julgamento pessoal. Por conseguinte, acredito que isso não acontecerá; a não ser que o leitor não tenha, em tempo, tomado conhecimento dos fatos aqui retratados. Procurei selecionar de tudo um pouco; certamente sempre críticas, porém algumas muito sérias carregadas de um claro amargor. Outras, mais suaves, pândegas e até envoltas num humor sarcástico. Noutras retrato problemas da minha São João del-Rei. Até cartas para congressistas em Brasília há. E em alguns pontos, para abusar da sua paciência, introduzi coisas muito particulares. Críticas à parte, nessas, apenas falo de mim, afinal, apesar de amigos, talvez nunca tenhamos trocado impressões sobre coisas tão pessoais. . .

Aqueles que me conhecem há tempos, sabem que sou um obstinado por política, apesar de jamais tê-la exercido diretamente. Motivos houve de sobra e numa oportunidade poderei explaná-los. Todavia, do fundo do coração, afirmo que tal paixão tem como motor um doloroso inconformismo por ver o Brasil tão esplêndido e tão vilipendiado; vítima inconteste dessa cultura avassaladora de demasiada tolerância à antiética e à imoralidade na administração pública. Comprovadamente este é o pior dos tsunames com potencial para ter retardado nosso progresso mais de três séculos e grande responsável pela perpetuação da pobreza de metade da nossa população, pelo analfabetismo total e funcional, pela violência social e pelo abismo intransponível que aliena gigantesco contingente, maior que um quinto da população do continente sul americano. Diante do inaceitável absurdo, impossível me conformar em silencio diante dos atos e fatos que vão vergonhosamente enxovalhando nossa história e nos deixando como um gigante deitado sobre o escravismo que a Lei Áurea não foi capaz de abolir.

O título? Esse, talvez, seja o mais difícil explicar. GRITOS SEM ECOS representa uma espécie de pedido de socorro do náufrago, que sabe que de nada adiantará espernear, pois não há interlocutores, não há socorro, não há saída, não há conscientização; mas, assim mesmo, grita.

Será um prazer receber sua visita e ler suas opiniões, elogios ou críticas.

Forte abraço!



sexta-feira, 23 de outubro de 2015

AS EMPRESAS PÚBLICAS, A FARINHA E VOCÊ



AS EMPRESAS PÚBLICAS, A FARINHA E VOCÊ
           
               Era mês de dezembro e intenso calor arrebatava os ânimos dentro e fora da sala. As férias estavam na primeira semana, mas naquele dia fatídico tivemos que comparecer cedo à Faculdade, para importante palestra do ilustre Delfim Neto, àquela época Ministro do Planejamento do presidente João Figueiredo. Afinal não era sempre que se tinha a oportunidade de ver e ouvir ao vivo a maior autoridade brasileira em assuntos macro econômicos e financeiros.  Ademais, ouvi-lo era desejo de todos que orbitavam no mundo das ciências gerenciais e, principalmente nós do sexto período, que tínhamos um trabalho marcado para depois das férias, cujo tema seria assuntos tratados no encontro com o ilustre ministro. Há trinta e muitos anos atrás nossa moeda era o extinto “Cruzeiro”, o qual viria a ser substituído pelo “Real” em meados de mil novecentos e noventa e quatro, no Governo do ex-presidente Itamar Franco.
            Naquelas quatro horas ouviríamos o ministro falar sobre Inflação, Comércio Nacional e Internacional e Câmbio. Considerando-se que a economia brasileira é ciclotímica; mais ou menos como uma gangorra, me lembro das palavras do conferencista tão adaptadas à crise de hoje que se tem a impressão de estar num perfeito túnel do tempo. Naquela época também a inflação era altíssima, o Cruzeiro se desvalorizava a cada dia e o desemprego invadia os lares brasileiros.
            A palavra gangorra propositalmente usei para ilustrar algo que nunca muda, enquanto sobe e desce e nunca sai do lugar. Um exemplo que costumo usar, quando me refiro ao Brasil, um país que se autoqualifica “do futuro”, mas que nunca avança e, quando o faz, é sempre para baixo ou para trás. Veja o leitor que a prova da afirmativa esta aí nos olhos de quem quiser ver. O Brasil gangorreou para cima dez anos, para baixo três e continuará assim por mais quanto tempo? Quem se atreve a dizer? Enquanto isso nossa vida passa e pagamos os prejuízos com o couro ou com o bolso. Assim também aconteceu nos anos setenta e oitenta.
            Mas voltando ao dia da palestra, a primeira frase que o ministro pronunciou foi:
 - “Nesta guerra, quem menos importa para o governo e para os especuladores é você”.
Aí todos arregalaram os olhos e ele continuou:
- “Isto mesmo que eu disse. Nas condições que vivemos hoje, todos estamos empobrecendo, porque nossa moeda esta ficando mais fraca e cada um está puxando a farinha para o seu saco. Quero dizer Governo e empresas. Sabem de quem é a farinha? Minha, sua, nossa! O povo é quem entrega a farinha, porque governo não tem dinheiro. Quem financia o governo é o povo através dos impostos. Não há outra saída ou se paga ou se paga e ponto final, senão o país para. Precisamos acabar com a inflação primeiro, para resolvermos o problema do Brasil. Ela desregula o câmbio, coroe o seu dinheiro e acaba com nossos empregos”.
            Então perguntamos:
- Mas, se o senhor é ministro do planejamento o que esta esperando para acabar com ela?
- “Estamos esperando o governo brasileiro pagar as suas contas, gastar menos e melhor. Estamos trabalhando para isso”.
            Daí, a palestra continuou e o resto não vem ao caso. Vamos nos ater apenas à resposta. “...pagar as suas contas e gastar menos e melhor...” Na verdade essa resposta é uma evasiva. Resposta de quem não tinha resposta ou não queria responder. Entretanto, várias décadas passaram, o Brasil continua gangorreando, as despesas públicas só aumentaram, principalmente nos últimos treze anos, e o governo sempre gastando mal.
            O que significa gastar mal? Quando alguém gasta mais do que ganha, gasta mal. E quando gasta com corrupção, projetos supervalorizados e planejamento ruim gasta mal duas vezes.
            Quando Lula ganhou a eleição em 2002 – eu votei nele – foi eleito porque falou o que queríamos ouvir do ministro Delfim naquele dia. Prometeu acabar com a corrupção e transformar o Brasil num bom gastador, ou seja, haveria gastos menores que o orçamento. Isso também tinha um significado oculto: Só se poderia gastar mais se houvesse mais investimento para haver mais arrecadação e aumento do orçamento. De outra maneira Lula quis dizer que trabalharia para equilibrar as contas públicas.
            Observe o leitor que um país é como sua casa. Se seu salário for menor que seus gastos, seus filhos ficarão felizes da vida, mas você ficará inadimplente e seu nome irá para o SPC. O governo brasileiro fez a felicidade do povo, mas entrou no SPC internacional, quando não acabou com a corrupção a qual tem alto preço para os cofres públicos, criou programas sociais caríssimos e investiu no empreguismo. Numa ponta da corda o custo operacional do Estado Brasileiro ficou muitas vezes maior e na outra, onde fica o caixa, as receitas ficaram dezenas de vezes menores.
            Mas por que a receita ficou menor? Basicamente, porque o governo amedrontou os investidores com suas campanhas ideológicas comunistas criando um clima de incerteza.  O horizonte ficou nublado e ninguém sabia o que era melhor: ir para a janela ver o bonde passar, investir fora do Brasil ou acreditar em Papel Noel comunista, que a cada dia afina mais seu discurso contra o capital e contra exatamente quem gera emprego e paga impostos pesados. Os programas sociais colocaram mais dinheiro na praça e o povo com mais dinheiro fica feliz como ficou e quis gastar mais. Assim aumentou-se a procura por bens de consumo, mas com a queda de investimentos houve também queda de oferta, houve desequilíbrio mercadológico, a inflação aumentou, o dinheiro perdeu valor, o povo deixou de gastar, a arrecadação caiu e ligou-se a bomba relógio. O navio verde e amarelo começou a afundar.
            Se o leitor perguntasse hoje ao ex-ministro Delfim, qual a solução ele responderia com a mesma evasiva.  Mas eu respondo que a solução não é simples, mas é possível. E qual seria ela?
1º - Obrigação legal de privatizar tudo que é público, para desalojar os corruptos. Assim a arrecadação de impostos aumentaria algumas dezenas de vezes, as despesas diminuiriam outras dezenas de vezes e o governo teria mais dinheiro para gastar bem.
  -  Redução de 80% dos juros e da carga tributária para quem produz.
3º - Redução paulatina do empreguismo público nas repartições oficiais. Novas contratações só admissíveis por justificativa aprovada pelos parlamentos.
4º - Garantia constitucional de proibição da veiculação de propaganda comunista da mesma forma que se criminalizou qualquer tipo de apologia ao Nazismo.
  -  Abertura total e irrestrita dos mercados.
  -  Investimento de 20% do PIB em saúde e educação.
  - Continuação e até ampliação dos programas sociais, mas em regime de temporalidade. Isso quer dizer que o benefício seria suspenso depois que o beneficiado fosse preparado pelo governo para exercer uma profissão formal e estivesse comprovadamente empregado. Aquele que não se preparasse dentro do prazo pré-estabelecido, perderia o benefício irrevogavelmente.
            Com essas sete medidas básicas o Brasil entraria no eixo, porque a inflação permaneceria no patamar civilizado; bilhões de dólares entrariam no país, trazidos por investidores úteis; o câmbio se equilibraria; o custo Brasil baixaria; dezenas de milhares de empregos seriam criados; a arrecadação de impostos se multiplicaria; os serviços públicos ganhariam eficiência; a violência social perderia fôlego; a Previdência Social deixaria de fechar seu balanço no vermelho; a mentira deixaria de manchar a imagem do Brasil e a felicidade e o orgulho de ser brasileiro reinariam para sempre.
            Para isso você não deve acreditar que ser dono de empresa pública é bom para o povo. Isso é golpe ideológico para se manter no poder à custa da inocência popular. O cidadão comum nunca foi dono de nada, nem aqui, nem na China. As empresas públicas pertencem ao governo que sempre fez delas o que bem quis. Os EUA não têm empresas públicas e é a maior potência econômico-tecnológica do globo. Ademais sabe manter seus bandidos pés de chinelo e coxinhas de gravata na cadeia. Acredite nisso, abra os olhos e será mais feliz!

ANTÔNIO KLEBER DOS SANTOS CECÍLIO.


domingo, 20 de setembro de 2015

A EMPRESA, DEUS E O DIABO



A EMPRESA, DEUS E O DIABO

            Conta a lenda que Deus ao criar a humanidade decidiu que todos seriam belos e inteligentes. Antes de se retirar para o céu, disse que havia criado terra, água e luz, mas que dali em diante deveriam trabalhar muito, a fim de produzir seu próprio sustento. Depois prometeu que um dia voltaria para ver como andava o progresso da criação. Passado o tempo prometido voltou e encontrou todos mortos e nada havia se transformado.
            Intrigado com a inesperada situação resolveu mudar a estratégia. Criou novos humanos, desta vez, feios e burros. Explicou que havia criado terra, água e luz e que precisariam trabalhar duro para garantir a própria sobrevivência. Novamente retirou-se e, quando voltou, qual foi a grande surpresa? Deparou-se com todos mortos e, nem mesmo uma pedra havia sido mudada de lugar.
            Então, sem idéia do que fazer, reuniu-se com Santos, Querubins e Serafins, lhes colocou a par de tão intrigante fenômeno e pediu que o ajudassem a encontrar uma solução. Depois de muitas reuniões, concluíram que deveria ser feita nova experiência. Um quarto da humanidade seria de belos e inteligentes. Outro quarto de belos e burros. O terceiro quarto de feios e inteligentes e o último quarto composto de feios e burros. Antes de partir explicaram que haviam sido criadas terra, água e luz e todos teriam que melhorar ou, se possível, multiplicar tudo que estava à disposição, valendo-se do seu esforço próprio.
            Após alguns séculos voltou e a surpresa foi ainda maior. O mundo havia melhorado muito. Todos trabalhavam e muita coisa havia sido construída. A felicidade era plena. Todos radiantes riam a toa. Dividiram-se em grupos, estabeleceram objetivos e metas, fizeram planejamento, estabeleceram prazos que eram cumpridos, trocavam produtos, mantinham-se abastecidos, agasalhados e cheios de esperança no futuro. E o mais impressionante, que muito emocionou, foi que milhares de crianças haviam nascido, brincavam, cresciam e sonhavam.
            De novo chamou os auxiliares para analisar tamanho sucesso comparado aos fracassos anteriores e nada concluíram. Então convocaram alguns indivíduos da humanidade, e perguntaram qual foi a estratégia usada? Simples, disseram eles! – “Os belos, feios e inteligentes criaram empresas e deram emprego para os belos, feios e burros. Assim conseguimos o equilíbrio e a felicidade”.
            Feliz, Deus concluiu que beleza e feiúra não eram fundamentais. Que fatores importantes eram a criação de empresas, a diversidade, a inteligência e a liberdade. Homens livres, belos e feios, sábios e burros; unidos seriam capazes de trabalhar em equipe e criar processos racionais, que poderiam compensar as falhas e fraquezas humanas. 
            Mas, diante de tanta paz e sucesso, algo estava para dar errado. O Diabo, que sempre inveja Deus e espreita os humanos, resolveu criar o Capitalismo de Estado. A partir daí o tumulto começou. O entendimento virou disputa. Impostos foram criados. Inauguraram-se empresas públicas. Criaram-se bancos estatais. Diziam que tudo era do povo! Os inteligentes e inescrupulosos ficaram muito ricos, se protegiam nas facilidades estatais, acumularam acima da necessidade e dividiam com o Estado, que dava mordomia para os governantes à custa da miséria e do sofrimento dos burros; tanto belos, quanto feios.
            Sem alternativa, Deus, que sempre prezou a liberdade e criou o Diabo, para testar a fé dos humanos, tinha que dar um golpe divino no espírito do mal. Depois de muito pensar, teve a divina idéia, que colocaria limites na crueldade de Satanás. Criou o Ministério Público, a Lei e a Democracia. Assim a farra do Estado Larápio e dos seus amigos ricos ficou limitada, pois todos, a partir de então, além de liberdade passaram também a ter deveres estabelecidos por Lei.
            O Diabo, ainda não se dando por vencido, maliciosamente criou a Ditadura Marxista de Estado – conhecida como Comunismo – que nada mais é do que a ilusão de que o Ladrão Estatal pudesse cumprir a falsa promessa de que governante ditador, lunático e mentiroso pudesse dar a todos o que já é de todos. Encheu a cabeça dos belos, feios e burros de que isso era possível e que o governante e seu grupo de amigos ricos ficariam satisfeitos com a fração que lhes coubesse como iguais a todos.
            De volta ao embate contra o Diabo e suas mentiras, Deus deu o golpe final na inteligência maliciosa de Lúcifer e seus abutres famintos. Pediu a um anjo celeste que lhe trouxesse caneta e papel e assinou importante decreto; o único capaz de colocar limites nas astucias diabólicas: criou a Escola, a Imprensa e a Internet. Assim os burros deixariam de ser cegos e surdos e o ladrão estatal e seus amigos não teriam mais onde se esconder.
Desde então, os olhos do povo passaram a ser os olhos de Deus!
           
            O paciente leitor desta coluna há muito já deve ter percebido que tenho preferência pelas analogias. Penso que são excelentes ferramentas para facilitar a compreensão dos menos experientes e um meio didático importante para que todos conheçam a fundo como funcionam os interesses políticos no mundo e, principalmente, neste país que tanto amamos, mas tão desrespeitado pela perversa cultura populista, sempre dirigida para enganar.
            Portanto, espero que tenha gostado. Contudo, gostando ou não, lanço aqui um desafio. Olhe a sua volta e observe tudo; os bens materiais, a natureza, seu corpo, suas roupas, sua casa, o berço onde dorme seu filho, a comida que mata sua fome, a água que jorra pela sua torneira e responda à seguinte pergunta:
- É possível apontar, dentre tudo que o rodeia, inclusive este jornal, algo que não tenha sido construído por Deus ou por uma empresa?
            Pois é, claro que é impossível, porque não existe! Contudo, nossos governantes insistem em massacrar as empresas brasileiras com altas cargas tributárias, arrasando sua competitividade, destruindo postos de trabalho e, além do mais, alegam que os empresários são inimigos do trabalhador. Sugam as empresas e seus trabalhadores, para encher a grande pança do demônio e seus canalhas.

            O paciente leitor concorda ou não? Deus diria que o verdadeiro inimigo dos que investem e dos que trabalham duro é o Estado e os governantes picaretas. O Brasil é um bom exemplo disso.

Povo atento e bem informado é povo livre e rico! Esta registrado na história das nações que deram certo.

ANTÔNIO KLEBER DOS SANTOS CECÍLIO.

domingo, 23 de agosto de 2015

O LULISMO E O MANICÔMIO BRASIL



O LULISMO E O MANICÔMIO BRASIL

Dentre as inúmeras obras Machadianas há uma que suplantou várias em qualidade descritiva e genialidade imaginativa. Estamos nos referindo ao conto “O ALIENISTA”, cuja personagem era certo médico, o Dr. Simão Bacamarte; uma espécie de cientista louco, que se metera nos estudos da mente humana. Quanto mais estudava, mais concluía que cada um dos moradores da cidade era um desmiolado e fazia jus a internação para tratamento mental. Até que um dia, quando quase toda a população da cidade se encontrava internada uma guinada caprichosa do destino fez com que o feitiço virasse contra o feiticeiro, sendo ele o último a ser internado.

Valendo-me de um paralelismo entre a ficção tão bem trabalhada pelo humor crítico do escritor, venho à tona para me debater de corpo, alma e muita indignação diante da dura realidade que hora vivemos no Brasil dirigido e dominado pelo Lulismo ou, porque não dizer, pelo Petismo?!

Há exatos onze anos, quando estávamos às vésperas das eleições presidenciais, que conduziriam Lula ao Planalto, meu amigo Ozires Valadão, um santista de coração, fez uma previsão ancorada na experiência desastrosa sofrida pela população da sua querida cidade de Santos, a qual havia sido governada pela prefeita petista Telma e seu bando de pelegos. Guardada a devida proporção, Telma era a Dilma santista e a cidade se encontrava mergulhada no caos e na estagnação. Não havia outra saída: PT fora era o sonho do indignado eleitor.

Ozires Valadão, baseado na sua larga experiência como velho advogado e anti-petista de carteirinha, a certa altura da conversa, lancetou um olhar de peixe morto para o infinito e decretou:
- "Você verá, se esse tal Lula ganhar, com quantos paus se faz uma canoa!
Esse cara é um alienado, o conheço desde outros carnavais; sempre mantém uma quadrilha a sua volta! Tem pavor de trabalhar, só pensa em greve e onde entra a confusão esta formada!".
Eu, do altar da minha inocência, achava que já conhecia o fantasma da ópera política, mas depois desse monte de macabras previsões dum cara que tinha no currículo defesas e acusações a favor e contra Deus e o diabo, um calafrio me trespassou a espinha, mas de nada adiantou. Algum tempo depois assisti ao Lula festejar, chorar de alegria e voltar a afirmar suas promessas de campanha:
 - "Farei desse país uma grande nação; obrigado meu povo por confiar em mim! Vocês não vão se arrepender!".

Com Lula na presidência o tempo passou, Telma sumiu, a prefeitura e a cidade respiraram aliviadas e o tempo continuou passando, passando, até que outro dia, no meio sonolento duma ressaca dominical, o telefone entrou rasgando como uma flecha lançada por Touro Sentado. Atendi como se pega num pescoço a fim de esganá-lo, e lá no fundo ouvi a voz raivosa e crítica do Ozires, que aos gritos me lembrou:
- "Eu te falei! Eu te falei! Taí a confusão! Quero ver agora o Brasil sair dessa bagunça!
Todo dia me lembro da Telma e desejo que ela esteja no inferno e é pra onde esse safado do Lula também merece ir!"
Eu, é claro, a fim de amenizar os arroubos do Ozires argumentei que Telma e Lula não poderiam ser assim cruelmente defenestrados, sem dó nem piedade, para o inferno, porque Deus a tudo perdoa. E ele, do outro lado, gritou mais alto ainda:  
- Claro que é pra lá que eles devem ir. Coitado do capeta! Deus e você também viraram a folha?!

Diante da mixórdia, que o Brasil esta, pergunto:
- A ida de Lula para o inferno resolveria alguma coisa? Talvez, melhor fosse um diagnóstico do Dr. Bacamarte decretando internação, a fim de se tratar da alienação psíquica, cívica, social e política.

Aurélio Buarque definiu o alienado como louco. Eu prefiro defini-lo como aquele que não tem a propriedade de si próprio. Lula seria um desses?
Quando migrou do nordeste num pau de arara trouxe consigo as marcas da discriminação e do sofrimento. Experimentou na carne como é duro estar do outro lado do abismo, que sempre dividiu a sociedade brasileira em privilegiados e escarnecidos. Mas o menino Luiz Inácio cresceu e o que antes eram apenas tristes lembranças o transformaram num homem rancoroso, recalcado, revoltado com as estruturas sociais, com o patronato, com o capitalismo e com o Estado Industrial. Tudo isso, ainda hoje, em sua cabeça, representa os coronéis nordestinos. No entanto, ao se eleger presidente, o poder lhe subiu à cabeça, o cooptou e num deles o transformou.

Compreende-se que sua sede de justiça fosse grande. Para saciá-la, natural que se associasse à grande força contestadora, cuja bandeira foi erguida a partir das teorias marxistas que preconizam um Estado Paternalista capaz de colocar mordaça na crueldade do imperialismo capitalista. Então seguiu a surrada cartilha Marxista Leninista baseada na revolta do proletariado e na demonização do capital, representado pelos estados capitalistas do ocidente, com ênfase nos Estados Unidos. A nomeação de um grande satã é estratégia indispensável para os marxistas de todas as épocas, pois o exercício da arte de alienar compõe-se também da arte de mentir. A história dos estados comunistas é tão ou mais suja que tudo que eles criticam no mundo capitalista com um  importante gravame: a pobreza que eles dizem odiar e combater nunca conseguiram erradicar por incompetência gerencial baseada em ditadura, corrupção, falta de compromisso ético, demagogia e desprezo com o desenvolvimento educacional da massa popular.

Ademais, o rancor não pode ser o melhor parceiro de quem almeja o estadismo. Candidatos a estadistas devem ser homens/mulheres de alta formação democrática, ética e moral; além de serem apaixonados pela nacionalidade, pela diversidade de opiniões, obstinados pela liberdade e sua leveza. Lula, desprovido desse aparelhamento, então confiou na sua habilidade de reunir amigos fieis desde que a verba fosse farta. Montado no seu eficiente cavalo alado voava para Cuba, a fim de se aperfeiçoar na arte comunista de mandar sem ser contestado. Assim, se aproveitando dos bons ventos capitalistas, que sopravam a favor durante quase todo o seu governo, dividiu-se em dois.
O primeiro representado na figura do governante bondoso que distribui dinheiro para os pobres, a fim de resgatá-los da miséria e sorrateiramente comprar seus preciosos votos. O segundo, uma espécie de domador do capitalismo; um Espírito Santo de Orelhas do governo Dilma, cujo porrete sempre foi a dissimulação populista, a opressão tributária, a ineficiência, a incerteza pela falta de regras claras e o desprezo pela verdade.
Cometeu falta na grande área e derrubou a galinha dos ovos de ouro.
A verba para seu albergue de alienados vem da produção e à medida que ela vai minguando pela falta de investimentos, a inflação aumenta, os salários se desvalorizam, a arrecadação despenca, o Brasil vai mergulhando na recessão, sujando sua imagem externa e espantando os investidores nacionais e internacionais.

Como recursos não caem do céu e comunistas não sabem fazer dinheiro sem a ajuda dos capitalistas, o bom pai esta quebrando a cara com seu próprio punho. Ledo engano dos camaradas imaginarem ser possível alcançar crescimento sustentável enfraquecendo a estrutura capitalista, a democracia, a criatividade, o empreendedorismo e as liberdades individuais. Esqueceram-se que pobres para saírem da pobreza não precisam de esmolas, mas de educação de alta qualidade e de um Estado cumpridor da Lei Constitucional, a qual determina que todos são iguais perante a lei não só na hora de votar e pagar impostos, mas também no direito à educação básica de alta qualidade e a uma infra-estrutura social à altura da Democracia ampla, geral e irrestrita, prevista na Constituição Federal Brasileira.

Hoje, passados quase vinte anos do caos na Prefeitura de Santos e das previsões sombrias do advogado vidente Ozires Valadão, vejo o quanto as loucuras parodiadas pelo gênio de Machado de Assis, aquele que morreu há um século, época em que cachorros respeitavam linguiças, ainda vivem presentes no manicômio Brasil.
Afinal, onde estão os loucos; dentro ou fora dos hospícios?
No governo ou fora dele?

p/ANTONIO KLEBER DOS SANTOS CECÍLIO


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

MORRE O HOMEM, FICA A SAUDADE, NASCE O MITO - HOMENAGEM POSTUMA AO SAUDOSO GILBERTO



HOMENAGEM PÓSTUMA AO SAUDOSO GILBERTO RIBEIRO LIMA, O VICENCIANO* AUSENTE.
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MORRE O HOMEM, NASCE O MITO, FICA A SAUDADE!
                 
                  Critica-se a cultura ocidental, porque nela não há espaço para a morte, assim contrariando-se os ensinamentos cristãos e também de algumas outras religiões que consideram a morte apenas uma passagem e renascimento para nova e etérea vida; quando os bons herdarão o reino de Deus e os maus arderão nas chamas do inferno.
                A época era o final dos anos sessenta, principio dos setenta e nós não lembrávamos nem da salvação, nem da condenação e muito menos da morte. Éramos puros e eternos!
                O mundo ardia nas ondas da Guerra Fria, as superpotências ameaçavam dar um fim ao planeta, Marx era nosso guru, a mini-saia nossa paixão e o rock and roll nossa inspiração. Calça Lee boca de sino, cinturão, camiseta curta e apertadinha, sapato tipo astronauta, crucifixo ou interrogação no pescoço, cabelos e barbas longas era nosso visual.
                Festival de Woodstock acabara de acontecer para plantar nos espíritos jovens a contestação contra toda ordem estabelecida. Protestava-se contra tudo e todos! O lema central era a liberdade absoluta. Tabus deviam ser colocados abaixo! Velhas regras, velhos conceitos, bolero, tango, samba; nada disso valia mais que as baladas dos Beatles, a efervescência dos Rolling Stones, os protestos românticos de Bob Dylan, a cadência energética do Creedence e os acordes da guitarra incendiária do genial Jimi Hendrix.
                Roberto Carlos não era o cara e fora reduzido ao desprezível lugar de Pato Carlos, o cantor de canções de ninar. Odiávamos a Tropicália. Os ídolos nacionais eram o indômito Raul Seixas, a Mosca da Sopa e a respeitável louca sabedoria de dez mil anos.
                Foi nesse ambiente de conturbação social, efervescência política, paz, amor e rock, que conhecemos o velho guerreiro Gilberto; o admirável sósia do Raul Seixas. Este estava bem próximo e palpável, diferente do outro, bem distante. A cada novo lançamento do “Maluco Beleza” ele vibrava como ninguém, trazia a letra num pequeno papelzinho e hora e outra batucava e cantarolava na roda da mesa onde se assentasse.
                Admirado por todos! Presença sempre querida, pois ali estava o cara de alma leve, engraçado, simpático, animado. Suas noites nunca passavam da infância. Para ele a noite era sempre uma criança, não importava a posição dos ponteiros do relógio, frio, chuva, neblina. Se houvesse companhia disponível e um violão roqueiro debaixo do braço, apenas o sol dava fim aos encantos da madrugada.
                Além dos amigos, do rock, da paz e das noitadas bem acompanhado, Gilberto carregava em mente outro importante dogma; também sua marca registrada. Amava a Justiça e sofria com a eterna desigualdade, que sempre assolou o mundo e o Brasil. Sonhava acordado com tempos melhores, quando houvesse espaço para todos. Os fracos e rejeitados tinham morada fixa em seu grande coração, nunca deixava de lhes dar atenção; um copo de cerveja para o bêbado da hora, um sanduíche para a criança pedinte, a mão estendida à velha senhora que atravessava a rua, o braço no ombro do amigo que aparecia triste. Sobre o bêbado, justificava que mais um menos um copo, não faria diferença. Importante era não desprezar o pobre coitado.
                O eterno barbudo, amigo de todos os amigos, mesmo tendo olhos largos para longínquos mundos e para a divina filosofia ideológica que sempre inundou seu inquieto espírito de homem bom e solidário, nutria, antes de tudo, demasiado amor por sua querida e aconchegante São Vicente de Minas. Dizia ele que aqui os amigos são mais amigos, os ares mais puros e que a combinação de ares e amizades recarregava suas baterias.         
                Para qui veio e daqui nunca mais saiu. Plantou raízes perto da família, dos amigos e do seu lendário bar. Enquanto a cidade dormia, o bar sorria de tanta juventude, frenesi, alegria, cheiro bom de pizza e, para finalizar, o cordial tapinha nas costas junto a um pedido de desculpas: - “Me desculpe a correria! E que sou eu e meu irmão para atender tanta gente e aí acontecem uns probleminhas. Na próxima vez vamos melhorar!”
                O velho jovem tinha também uma curtição que apenas os mais íntimos conheceram. Amava a família, a história dos antepassados, as aventuras da infância junto aos primos. Era o primeiro a telefonar comunicando a morte de um ente querido e antes de mais ninguém lá estava ele prestando as últimas homenagens.
                Enfim, foi-se a figura icônica, ficaram três gerações órfãs da sua hospitalidade, do jeito singular de ser, da presença bem vinda em todos os momentos festivos. Mesmo depois dos tantos cabelos brancos, jamais deixou de ser jovem e carregar no olhar um ponto de interrogação e outro de exclamação.  O crucifixo estava agora estampado na alma, tudo ornado com o inesquecível meio sorriso como que querendo dizer: - Enfim cheguei! Nesse momento ele era os fogos da nossa festa, assim sentiam nossos corações.
                Descanse em paz velho curiango e, se puder peça ao seu santo de devoção que zele pelos amigos e admiradores que aqui ficaram, orando por você, nosso túnel do tempo.

ANTÔNIO KLEBER DOS SANTOS CECÍLIO.

* Natural da cidade de São Vicente de Minas; localizada no Estado de Minas Gerais