- QUARTO E QUINTO PODERES -
Os humanos na sua condição de animais sociais desde tempos remotos vivem em bandos, a fim de se reproduzir, se proteger e até pela necessidade básica de afastar a solidão. A humanidade jamais teria atravessado milênios e se espalhado pelos quadrantes do planeta, se não fosse essa característica. Os indivíduos procuravam a proteção do grupo e em troca tinham a obrigação de servi-lo como parte de um esforço de defesa. Assim surgiu o primeiro esboço de obrigação cívica dos indivíduos para com o grupo como do grupo para com o indivíduo.
À medida que aumentaram os conglomerados humanos, também aumentou a diversidade física, cultural e econômica sempre de acordo com as características do meio ambiente e com a disponibilidade de riquezas naturais. Como a natureza nem sempre disponibiliza recursos suficientes, logo surgiram as trocas e quando isso não era possível, partia-se para a guerra, cujos vencedores ficavam livres para se apoderar dos recursos alheios, inclusive do espaço e da liberdade dos perdedores. Mão de obra fácil e de graça transformou-se num dos principais atrativos para a prática da guerra e da escravidão num mundo em que o corpo humano era a única máquina de transformação disponível.
Mas o processo de crescimento dos grupos humanos e da expansão das suas populações exigiu maior organização e assim surgiu a idéia de Estado. Este novo ser era a representação real do grupo, com fronteiras estabelecidas, interesses únicos, burocracia, administradores, moeda, governantes e demais características que lhe davam um status muito maior e mais sofisticado que o de um simples grupo. Governado por um líder, passou a ser a estrutura social representativa do indivíduo; era sua própria imagem multiplicada pela união com os demais, todos com objetivos semelhantes tais como servir com seu trabalho e seu tributo e ser servido com segurança, garantia de liberdade e esperança de presente e futuro em paz.
Lamentavelmente, logo viriam as distorções e o Estado, por sua vez, se transformaria num gigante indomável. Os governantes passariam a usá-lo como ferramenta para escravizar. Antes a escravidão poderia vir de fora, agora vinha também de dentro. O indivíduo, cada vez mais explorado, perdeu importância e o Estado que surgiu para protegê-lo agora funcionava como seu senhor. Um grupo de poderosos falsamente agia como representante do povo; organizou-se em parlamentos, que na realidade representavam seus próprios interesses e garantia de apoio ao ditador máximo. Favores era moeda de troca que a cúpula do comando usava para manter o grupo inferior sob controle.
Um dia alguém sentiu que a melhor maneira de fortalecer o povo era através da criação de um sistema de informação capaz de chamar a atenção dos cidadãos para os acontecimentos e os unisse em torno de idéias reacionárias, inflamasse sentimentos e assim, unidos, pudessem recuperar a voz e a capacidade de enfrentar o sistema de poder. Estava então lançada a inusitada idéia da imprensa; naturalmente aclamada como olhos e ouvidos populares ou também considerada em países democráticos como “o quarto poder” atuando ao lado do executivo, do legislativo e do judiciário.
Porém, logo cedo, teve inicio a perseguição, muitos órgãos informativos eram fechados, seus trabalhadores condenados e o tráfego de informações sistematicamente interrompido, porque o sistema de poder sabia que quanto mais informado o povo estivesse, mais risco correria de se enfraquecer. Sem liberdade não há imprensa eficiente e os donos do poder sempre souberam disso muito bem.
Ao longo dos séculos o processo gráfico, antes manual, evoluiu pela engenhosidade de Johannes Gutenberg, que, por volta do século quinze, passou a utilizar tipos de metal embebidos em tinta e prensados contra papel ou tecido, a fim de reproduzir textos, mas somente no século dezoito foram usados para imprimir em larga escala jornais em papel. E só no século vinte, com a evolução das telecomunicações, surgiram os radiojornais e telejornais. No entanto, quanto mais evoluída a imprensa mais sua sombra fantasmagórica agia sobre governantes mal intencionados ou simplesmente incompetentes e corruptos.
Mas, o grande salto para a liberdade informativa só aconteceria na última década do século vinte, com a criação da Web (internet) e a possibilidade da globalização de idéias, que nada mais é que a transformação do grande espaço planetário, habitado por bilhões de indivíduos diferentes e desconhecidos, em uma aldeia global a colocando ao alcance das mãos e da cabeça de todos, sem distinção de raça, nem cultura, nem classe social; reduzindo o campo gigantesco ao âmbito do velho estágio grupal, aonde um conhecia todos e era capaz de enxergar os limites da sua comunidade.
A esta incrível ferramenta de integração humana gosto de classificar como “quinto poder”, certamente tão ou mais importante que os outros por ser capaz, não só de informar e educar sem controles políticos, como também de funcionar como canal de divulgação de opiniões individuais equipando o cidadão de uma capacidade que jamais teve. Assim suplantou a imprensa em importância e eficiência, porque a imprensa nunca deixou de ser uma via de mão única fora do controle do leitor aonde as informações vêm de cima podendo ser facilmente controladas; diferente da Web, que possibilitou interatividade do indivíduo com o meio global.
Nas ondas da imprensa o indivíduo é como esponja, absorve informações, constrói sua cultura e opiniões pessoais, mas tem pouco espaço para refleti-las. Por sua vez, a Web possibilita ao internauta o status de espelho receptor e emissor de idéias e opiniões tirando-o do desconhecimento para alçá-lo à condição de co-autor da história e importante ator no teatro democrático. Esse, o grande passo rumo à construção da cidadania plena e consciente dos seus direitos e deveres.
ANTONIO KLEBER DOS SANTOS CECILIO.