APRESENTAÇÃO


O conjunto de trabalhos que o amigo leitor encontrará aqui foi produzido ao longo de alguns anos. Não posso aqui precisar quantos, talvez uns vinte. A grande maioria deles publicada no jornal A TRIBUNA SANJOANENSE de SÃO JOÃO DEL REI (minha terra nanal) e NOVA MIDIA de BARBACENA; ambas tradicionais cidades históricas mineiras muito politizadas.

Obviamente há uma cronologia de publicação associada aos acontecimentos que inspiraram as respectivas reflexões. Depois de muito pensar, se deveria mencionar datas, resolvi aboli-las, pois achei que correria o risco de tornar seu passeio um tanto dirigido e até cansativo. Posso imaginar alguém lendo algo retratando fato acontecido há anos! Talvez se sinta entediado. Então, no intuito de instigá-lo, apresento uma miscelânea de trabalhos recentes e antigos, a fim de lhe subtrair, de propósito, qualquer direcionamento e deixá-lo livre para pensar, buscando no tempo, por si, tal associação. Acredito ainda que dessa forma esteja incitando sua curiosidade à medida que avance passos adentro. Sua leitura poderá inclusive ter início pelo fim ou pelo meio, que não haverá prejuízo algum para a percepção de que as coisas no Brasil nunca mudam. Ficará fácil constatar que a vontade política é trabalhada para a perpetuação da incompetência administrativa, obviamente frutífera para algumas minorias.

Penso que, se me dispus a estas publicações, deva estar antes de tudo, suscetível a criticas e, portanto, nada melhor que deixá-lo, valendo-se unicamente das informações contidas no texto, localizar-se na história. Caso não lhe seja possível, temo que o trabalho perca qualidade perante seu julgamento pessoal. Por conseguinte, acredito que isso não acontecerá; a não ser que o leitor não tenha, em tempo, tomado conhecimento dos fatos aqui retratados. Procurei selecionar de tudo um pouco; certamente sempre críticas, porém algumas muito sérias carregadas de um claro amargor. Outras, mais suaves, pândegas e até envoltas num humor sarcástico. Noutras retrato problemas da minha São João del-Rei. Até cartas para congressistas em Brasília há. E em alguns pontos, para abusar da sua paciência, introduzi coisas muito particulares. Críticas à parte, nessas, apenas falo de mim, afinal, apesar de amigos, talvez nunca tenhamos trocado impressões sobre coisas tão pessoais. . .

Aqueles que me conhecem há tempos, sabem que sou um obstinado por política, apesar de jamais tê-la exercido diretamente. Motivos houve de sobra e numa oportunidade poderei explaná-los. Todavia, do fundo do coração, afirmo que tal paixão tem como motor um doloroso inconformismo por ver o Brasil tão esplêndido e tão vilipendiado; vítima inconteste dessa cultura avassaladora de demasiada tolerância à antiética e à imoralidade na administração pública. Comprovadamente este é o pior dos tsunames com potencial para ter retardado nosso progresso mais de três séculos e grande responsável pela perpetuação da pobreza de metade da nossa população, pelo analfabetismo total e funcional, pela violência social e pelo abismo intransponível que aliena gigantesco contingente, maior que um quinto da população do continente sul americano. Diante do inaceitável absurdo, impossível me conformar em silencio diante dos atos e fatos que vão vergonhosamente enxovalhando nossa história e nos deixando como um gigante deitado sobre o escravismo que a Lei Áurea não foi capaz de abolir.

O título? Esse, talvez, seja o mais difícil explicar. GRITOS SEM ECOS representa uma espécie de pedido de socorro do náufrago, que sabe que de nada adiantará espernear, pois não há interlocutores, não há socorro, não há saída, não há conscientização; mas, assim mesmo, grita.

Será um prazer receber sua visita e ler suas opiniões, elogios ou críticas.

Forte abraço!



sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

DESEMBARGADORES EMBARGAM NOSSA ULTIMA ESPERANÇA

    Há dois mil e quinhentos anos os pensadores já se preocupavam com a sanha do Estado em explorar o povo a fim de aquinhoar benevolentemente a elite. Entendia-se como de direito a maioria pagar para que alguns vivessem muito bem; afinal, o Estado sempre fez-se representar pela nobreza e em assim sendo, ela precisava ser defendida, ovacionada, imitada, respeitada e, por que não, perpetuada. Assim nasceram as dinastias comumente comandadas por linhagens de senhores nobres, que se mantinham no poder apoiados na força política das elites e ambos valiam-se um do outro mantendo a plebe sobre controle pelo medo da espada, do confisco, da guilhotina, da fogueira ou do degredo.
    Se era direito então era justo. Daí tem início a dialética entre os opostos justiça e injustiça. Afinal, elas existem? Se o cidadão esta subordinado a um sistema de governo injusto, mas cumpre seus deveres cívicos, então ele não seria justo? Partindo dessa premissa é correto concluir que justiça e injustiça sejam subjetividades interdependentes e subordinadas a variáveis culturais, políticas, religiosas válidas em determinada época ou lugar, mas que podem ganhar ou perder importância ao longo do tempo e da evolução daquelas mesmas variáveis? Obvio que sim, pois a humanidade nunca foi uma massa estática e através mesmo da discussão e da contradição de velhos valores é que aconteceu a evolução para o alcance do que hoje se considera como civilização moderna. O adjetivo moderna, aí funcionando como uma filigrana dá ao conceito de civilização certo refinamento que nos transporta direto à idéia de democracia. Nessa situação o Estado perde sua condição de agente absoluto, pois sede espaço ao cidadão, que passa a figurar como protagonista central do Estado Democrático, cuja finalidade precípua não é mais a de se fazer representar por um ditador e sua elite centralizadora, mas a de defender e proteger o direito às liberdades básicas do ser humano, quais sejam: liberdade de expressão, de ir e vir, de educar-se, de investir, de procriar.
     Todavia, esses direitos pétreos, com o aperfeiçoamento da filosofia democrática ganharam status de legalidade e passaram a ser regulados pela Constituição e por outros códigos legais, sendo o Poder Judiciário o pilar principal dessa salvaguarda. Entretanto no Brasil, país que se auto-intitula a segunda maior democracia do mundo, andam acontecendo fatos, que nos levam a ter certeza que a democracia brasileira é uma falácia, pois vários desses direitos ainda não são conquistas plenas e aqueles que já se concretizaram andam sendo vilipendiados pelos próprios agentes, cuja missão é exatamente a de regular e fiscalizar as relações entre os cidadãos e destes com o Estado.
    Nessa democracia capenga, depois de vermos um senador da República, eleito democraticamente, ter o poder de calar um veículo de informação da importância do jornal ‘O Estado de São Paulo’, termos que engolir figurões, que deviam estar atrás das grades, conduzidos ao poder como se anjos fossem ainda temos que tragar novo boom de notícias que enojam até quem tem um mínimo de dignidade, dando conta de que o poder judiciário, nossa última esperança, também anda se esquecendo de que os cidadãos brasileiros não são presas, mas patrões, que merecem respeito, pois os pagam salários absolutamente dignos, muitas vezes maiores que os de outros profissionais, que também muita dureza enfrentaram, para chegar aonde chegaram e sem dúvida carregam tanta ou mais responsabilidades que esses impolutos senhores togados.
    É um chocante achincalhe ouvir dizer que funcionários públicos de um país covarde como o Brasil, que não valoriza professores, nem respeita seus velhos e muito menos crianças, seu maior patrimônio, que usurpa de quem gera empregos e riquezas a maior carga tributária do mundo, pagar a qualquer servidor público quantias que chegam a estratosféricos seiscentos mil reais mensais (US$ 353 mil dólares para ficar mais elegante), enquanto que setenta por cento da população assalariada pelo mínimo levará oitenta e um anos para perceber o mesmo montante, lembrando que esse tempo equivale a quatro gerações. Entretanto, o pior ainda estava por vir, quando o presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, tranquilamente tentando justificar o injustificável, assegurou que era tudo dentro da lei e que estava esperando a fiscalização chegar de braços abertos. Ah, antes que me esqueça, ainda há que mencionar aquele adicional de insalubridade! Certamente seja referindo-se à toxidade da tinta das canetas Mont Blanc ou ao cloro da água que abastece os bebedouros do Tribunal.
    Obvio que nós cidadãos brasileiros, portadores da maior paciência da história da humanidade, acreditamos que esta tudo dentro da legalidade. Afinal, o que poderia ser ilegal nas casas onde se falam e se escrevem em nome da lei? Nossa única dúvida, que talvez os nossos meritíssimos desembargadores não respondam, é se essa tal lei seria ditada por alguma divindade do bem ou do mal simpática a todos aqueles que se vestem de negro?
    Bom! Do alto da nossa dolorosa indignação, diante de imagens e justificativas grotescas, que aqui nos rincões mineiros conhecem-se como “música para boi dormir”, necessário é que voltemos ao exercício dialético de acima. Num país injusto como o Brasil é justo alguém merecer regalias imperiais de tal vulto, ainda que seja funcionário publico de alta patente? A resposta deixo a cargo da sensibilidade do caro leitor.
    Apenas para concluir; diante desses absurdos nacionais, me vem à lembrança a voz do meu velho e saudoso pai, um daqueles exemplares de homens quase extintos, pois nunca ouvi dizer que ele tivesse preço, atestado passado pela população inteira de uma cidade que teve a honra de conhecê-lo, a qual dizia: “meu filho, as leis podem carregar a mácula da insensatez dos homens, por isso é preciso que aquele que tem nas mãos a competência para decidir o destino de alguém, saiba aplicá-las de acordo com a consciência, pois ela não convive com interesses, mas, sobretudo, com a ética e a moral”.
    Baseado nessa pérola podemos considerar que seja justo, porque é legal, nossos monárquicos desembargadores serem agraciados com tamanhas benesses, uma vez que certamente seja mesmo um extraterrestre o autor da lei, a qual os confere tão cintilantes vantagens; no entanto seria ético e a MORAL agradeceria, se uma explosão de luz os fizesse desconfiar que o poder de modificá-la reside em suas próprias mãos para o bem de um país aonde há trinta milhões de abandonados que não teem onde cair morto, obviamente não se esquecendo do resto, que paga por uma cesta básica quarenta e cinco por cento de imposto, cuja fome, avitaminoses e exclusão são suas inseparáveis companheiras.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

BARCELONA ENTRA DE GUARDIOLA E O SANTOS SAI DE PADIOLA


 
            Enfim, chegou o grande dia! Manhã de domingo, nada prá fazer, ansiedade toma conta e na contagem regressiva, minuto a minuto, cresce a expectativa do duelo arrebatador entre os ases Messi e Neymar. O time espanhol, pela precisão estratégica e intimidade com a vitória, já se tornara velho conhecido aqui na terra do futebol e nos demais quadrantes do mundo. O Barça e seu esquadrão internacional, em algumas décadas, se tornou lendário não só pelo talento dos jogadores, como também pelas somas astronômicas dos custos administrativos, mega-salários e todo o aparato midiático que o assedia na certeza de clicar, ainda que em mínimos furos, quaisquer segredos que venham reforçar a certeza de que o futebol, sem dúvida, é o mais belo e emocionante esporte dentre tantos. O Santos, ao seu lado, diante da inebriante mistura de sucesso e riqueza apresentou-se como David diante de Golias. A seu favor o brilho histórico dos fantásticos dribles do atleta do século, o rei Pelé; dois campeonatos mundiais, o título de Campeão da Libertadores 2011 e mais a presença esperançosa do garoto Neymar, sob sua monumental crista de galo e equipado da leveza do futebol moleque, zombeteiro, encantador, oferecido como dom inexplicável, talvez, pelo anjo do futebol de várzea, que protege e abençoa os garotos pobres que vicejam nos longínquos e invisíveis cafundós do Brasil.
            Como era de se esperar, pelo favoritismo e mesmo pela superioridade técnica, David fora à lona, esmagado como mosca. Quatro a zero e podia ser mais se o Barça estivesse nos seus melhores dias. A imprensa brasileira estarrecida com a letargia do Peixe, que mais parecia um time de pinóquios da quarta divisão, resolveu lançar a brilhante idéia de que o Leão da Vila, seu professor Murici e todos os brasileiros receberam uma aula de futebol e que daqui prá frente nossos mambembes futebolistas iriam se esforçar para lutar em campo nos mesmos moldes dos gigantes espanhóis.
            Particularmente confesso que, além do estarrecimento que golpeia minh’alma brasileira, ainda luto contra a terrível dúvida que paira na memória de quem já viu tantos shows de futebol, tão ou mais belos que este apresentado pelo Barça. Aí me pergunto: - teria sido melhor ser um jovem e acreditar nas aleivosias que estão cometendo com a mais brilhante história de sucesso futebolístico vista pelo mundo, tomando como base apenas o show de habilidade tática contra um peixe morto, tremendo de medo, sem a menor vergonha de concordar que precisaram ir tão distante, com custos tão altos, diante de bilhões de telespectadores, para tomar aula de futebol ou ser um velho, coroado das neves do tempo, para bendizer a honra de ter assistido aos shows apresentados pelas tantas seleções brasileiras que alçaram a Bandeira Auri-Verde ao podium cinco vezes, fora os vice-campeonatos, terceiros e quarto lugares, mais o contra peso das fileiras incontáveis de ases como, Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Gerson e tantos que a memória fraca e irreverente da nossa imprensa desportiva parece já ter se esquecido?
            Diante dessa dolorosa dúvida, tremo diante de mim, pelo asco de ser brasileiro e, além de ser obrigado a conviver com a lama escatológica que tomou conta da nossa sociedade, ainda ter que engolir graves injustiças contra aqueles que ofereceram seu trabalho honesto em nome do engrandecimento da imagem do Brasil. Urge, portanto, que se faça justiça àqueles gigantes do futebol, que há décadas veem alegrando a alma sofrida desse povo massacrado, por enfrentarem com garra, ginga, muita arte e responsabilidade as seleções mais fortes do mundo, aguerridas e muito focadas no objetivo de defender, não só a honra de sua pátria, como também a esperança alegre de seu povo.
            Não é necessário entender muito da arte do futebol para enxergar que o time espanhol joga futebol compacto concentrado no velho “todos por um e um por todos”, baseado no superpreparo físico possibilitando passes curtos quase que unicamente em dois toques rápidos e precisos, cuja marcação implacável é feita homem a homem e, até mesmo, três contra um; que aproveitam a saída da bola no campo adversário numa clara “operação abafa” e que a estratégia básica e simples é que todos devem servir ao Leopardo Messi. O combalido professor Murici e seus pupilos já estavam cansados de saber disso e claramente foram lá tão somente para cumprir a agenda e fazer compras natalinas na Terra do Sol Nascente, privilégio de poucos dos idiotas que levantaram cedo para assistir àquela ovação ao toureiro que arrebatara o touro dependurado.
            Mas o futebol brasileiro é assim: por duas vezes demos de mãos beijadas o campeonato mundial para a França por causas obscuras até hoje inexplicáveis, tal como os verdadeiros por-quês da letargia do Peixe Morto jamais terão explicação. Não é admissível que o torcedor brasileiro aceite a desculpa amarga de que precisamos de aulas de futebol, quando na verdade a matéria deveria ser outra: aulas de vergonha na cara, de profissionalismo, de patriotismo, de maior comprometimento e respeito com o patrimônio que nossos memoráveis atletas do futebol construíram para a posteridade.
            Portanto, preciso é que cuidemos, e esta deve ser uma das aulas que nossa imprensa desportiva deve tomar, para que não desçamos do pedestal de penta campeões do mundo, nem enxovalhemos nosso respeitável histórico e fiquemos aí a discutir questões de baixo calibre que comparam Pelé a Maradona, Messi a Neymar ou que o senhor Guardiola tenha inventado nova maneira de jogar futebol. Lembro aos nossos jovens torcedores e professores da bola nos pés, que as melhores aulas de futebol que o mundo já assistiu aconteceram, quando, na copa do mundo de 1970, a seleção brasileira, capitaneada pelo rei Pelé, sagrou-se campeã invicta e em 1974, quando a seleção holandesa temida “laranja mecânica”, também, àquela época, reconhecida como “o carrossel holandês”, praticante do “futebol máquina”, capaz de fazer gols até por encomenda e capitaneada pelo maestro Johan Cruijff perdeu a invencibilidade na partida final aos pés da Alemanha Ocidental, esquadrão que havia feito campanha muito menor, mas que se valendo de muita garra e determinação conseguiu desmontar o Carrossel.
            Mais do que sabido é que o mérito pela invenção do futebol é dos ingleses e quem mais aproveitou e também esnobou oportunidades fomos nós brasileiros. Além do mais, o combustível, para que continuem a obra dos nossos heróis é deixarem de tratar do futebol com puro sensacionalismo e como fonte de altas rendas. Em qualquer atividade humana, quando o dinheiro se transforma em objetivo primaz a finalidade central entra em decadência, portanto, que o exemplo do massacre ao Santos sirva de lição, não para que aprendamos a jogar futebol, mas para que os cartolas entendam que dinheiro é importante como conseqüência e mérito pelo trabalho sério com objetivos definidos, planejamento adequado, disciplina, focagem contínua, liderança forte,  respeito à nacionalidade e obstinação pela vitória.
           

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

QUE SAUDADES DO MARMELO DA MAMÃE!

            Para os mais jovens que certamente não tenham ouvido falar no marmelo, resolvi satisfazer a curiosidade ou, talvez, facilitar a pesquisa e anexei a seguinte definição:        O marmeleiro (Cydonia oblonga), é uma pequena árvore, único membro do gênero Cydonia, da família Rosaceae, cujos frutos são chamados marmelos. É originário das regiões mais amenas da Ásia Menor e Sudeste da Europa. Também é conhecido pelos nomes de marmeleiro-da-europa, marmelo e pereira-do-japão; segundo Caldas Aulete.
            Para os mais vividos, entre os quais me incluo, a definição vai muito além da científica entrando pelo campo da convivência familiar e indo parar nas canelas e coxas dos garotos travessos que fugiam para soltar pipa e largavam os cadernos sobre a escrivaninha esperando pela feitura do dever de casa. Podia ser também que viajasse pelas costas de algum adolescente mais afoito que atrevidamente roubasse um furtivo beijo da filha do vizinho. Essa coisa terrível, comprida, preta como cobra surucucu de lacinho na cabeça, ficava dependurada atrás da porta e atendia pelo assustador nome de: “vara de marmelo“.
             Toda horta que se prezasse ostentava um marmeleiro bem viçoso para fornecer às mamães aquela ferramenta fundamental capaz de arrefecer a coragem de meninos traquinas que ousassem contradizer uma ordem ou até mesmo um olhar fumegante, ardente como fogo, embalado por um limpar de garganta que mais parecia um trovão, para refrescar a lembrança da varinha de marmelo pendurada atrás da porta.
            Falta leve podia valer uma simples conversa amigável com explicação da importância de se respeitar os mais velhos, do valor dos estudos ou até mesmo da necessidade de ir dormir mais cedo como maneira de preservar a saúde e o rendimento escolar. Segundo erro era falta muito grave e, conforme as circunstâncias podia custar umas duas varadinhas sem muita dor, mas que nós gritávamos para fazer chantagem emocional com a mamãe e ela dar por encerrada a reprimenda o mais rápido possível. Mas, se nem assim nos emendássemos e fosse necessária a terceira correção, aí; ah meu Deus! Entrava em ação a cobra surucucu zoando no ar que nem a esquadrilha da fumaça deixando riscos vermelhos nas pernas, tão doloridos quanto um abraço do Godzila, capaz de não deixar o infrator se esquecer da imediata necessidade de não mais fazer jus a um novo encontro com o dragão de trás da porta. Por vezes, fortuitos pensamentos nos invadiam a imaginação e vingativos impulsos floresciam borbulhantes, a fim de dar um sumiço na varinha de estimação. Mas não adiantava nada tirá-la do trono de trás da porta, pois lá estava, no fundo da horta, o marmeleiro frondoso como ele só, cheinho de novas surucucus tão ou mais venenosas quanto a primeira. E pior; era impossível atentar contra aquele Gigante Adamastor reinando dentre o arvoredo, pois mamãe lá estava a lhe aguar e chegar terra adubada ao pé todos os dias. Vez por outra, orgulhosa, dizia: - esse ano vai dar muito marmelo! Mas nossa sede em destruí-lo era grande e certa vez, um grande formigueiro surgiu nas proximidades. Aquilo foi um achado dos céus: logo nos veio à cabeça a brilhante idéia de fazermos um caminho de açúcar até o tronco do monstro para ver se as cortadeiras davam um jeito no desaforado. Mas logo mamãe o acudiu com uma dose de “Formicida Shell” que foi tiro e queda... Adeus saúvas!
            O tempo passou, foram-se as saudosas mamães a se encontrar com Deus para serem abençoadas pelas boas varadas que nos aplicaram. Juntamente com elas extinguiu-se a psicologia da surucucu de trás da porta, a única que funcionou por séculos com indiscutível eficiência. Naquela época a lembrança dos vergalhões vermelhos nas pernas impedia que garotos imberbes batessem em professores dentro da escola, que pressionassem os pais pelo carro que não sabiam quanto trabalho custou ou que se calassem ao presenciar filhos viciados lhes roubando utensílios domésticos a fim de pagar a indispensável dose diária de crack.  A força do canto da cobra surucucu parecia mágica e fazia a vida pacata e tranqüila bastante poética. Os filhos passeavam calmamente com os pais e no frescor aconchegante da noite iam à sorveteria, ao cinema, ao teatro e logo voltavam à casa a tempo de dormir deixando a atividade noturna para os adultos aproveitarem sem se preocupar com essas hordas modernas de bandidos de toda classe e idade a atazanar a vida e a ordem pública.
            Que incrível paradoxo é esse que nos faz lembrar com saudades de velhos tempos considerados bizarros pela incipiência tecnológica, quando psicólogos não palpitavam na educação dos filhos, conselhos tutelares canhestros, se existissem, era para tutelar, se necessário, cachorros e gatos vadios e políticos tinham outras coisas mais importantes a fazer que ficar legislando sobre as tantas e quantas palmadas podem ou não ser aplicadas em crianças travessas!?
            Saudosos tempos passados conhecidos como “tempos do amarrar cachorro com lingüiça”, quando pais eram donos das suas palmadas, chineladas, beliscões, varas de marmelo e senhores absolutos da conduta educacional da família, muito competentes em produzir futuros cidadãos contidos nos padrões da melhor conduta e convivência social. Mau sinal esse em que o tal Estado Democrático precisa se meter na conduta intima das famílias! Que democracia é essa a ser sustentada por um Estado policialesco procurando se intrometer em tudo que não é da sua conta? Obviamente que não estamos aqui a defender pais truculentos, espancadores ou torturadores. A esses que se aplique as tantas leis já disponíveis.
            Não é possível imaginar uma criança entrando numa delegacia para denunciar o pai que lhe deu boas e merecidas palmadas, porque cuspiu na cara da tia. Certamente o delegado vai dizer à tia caruda que tirasse o carão da frente, porque o pimpolho precisa ter o direito de cuspir quando bem entender e na cara de quem merecer. Afora isso estar-se-ão estimulando o denuncismo entre vizinhos xeretas, cujos ouvidos ouvirão a mais do que é da sua conta para depois fazer uma denúncia vazia, sem provas cabais dos motivos justos ou injustos das palmadas que ouviram na noite anterior através das paredes. E como agirá a autoridade diante de fatos obscuros sucedidos na intimidade do lar, se o ônus da prova cabe a quem acusa? Certamente pesará mais a palavra do pimpolho que a dos pais!...
            Psicólogos dirão: - não precisam bater, basta dialogar e o rebento entenderá tudo, letra pos letra, assim como temos visto nossos jovens cibernéticos ultra-modernos entendendo de tudo, menos da lei da boa convivência e do respeito. A esses dignos senhores técnicos dos sentimentos humanos declaro, com certeza, apoiado por todos os contemporâneos dos cachorros que não comiam a lingüiça do laço, que morremos de saudades das benditas chineladas que nos aplicaram as mãos santas dos nossos saudosos pais e que a única revolta que nos permeia é a de não tê-los mais ao nosso lado para nos ajudar a compreender melhor a vida, a maneira moderna de educar e seus pífios resultados. Certamente nossos saudosos e sábios velhos ainda os aconselhariam a dar uma lida lá no Livro dos Provérbios 13:24 onde esta escrito que:Aquele que poupa a vara aborrece a seu filho, mas quem o ama a seu tempo o castiga”.
             E finalmente eles ensinariam que o problema fundamental do insucesso na criação moderna de filhos é que os pais devem sim dialogar e que carinho é fundamental, mas nunca podem prescindir de autoridade. Não se pode esquecer da nossa condição básica de animal e como animal homem as relações, inclusive entre pais e filhos, devem basear-se no mesmo respeito hierárquico existente até entre os irracionais. Há pais que ao dialogar ou mesmo na convivência diária descem do seu lugar superior e se transformam em adultos crianças ou adultos retardados, prejudicando a hierarquia. Assim, sem autoridade, não conseguem se impor na ordenança da orientação das crianças e se transformam em reféns de filhos tiranos. Afinal obedecer é difícil, quando se enxerga no outro um igual, mas muito fácil, quando se considera o outro um líder, pois liderar filhos implica em muito amor, maior conhecimento, inspira segurança, implica confiança e requer respeito, ainda que pelo medo da surucucu de trás da porta.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

AS AVES TEEM NA BOCA UM DENTE CHAMADO BICO

             Pasmos pela afirmativa hilariante que encabeça o texto, não há nada a fazer além de soltar boas gargalhadas e perguntar quem foi o autor da aberração. Preferível não acreditar que este libelo da cultura científica brasileira tenha sido enunciado por um estudante desses formados nas nossas escolas públicas e particulares e pinçado de uma das provas do ENEM. Se alguém ainda continua rindo e nem pensou em chorar; diante da próxima, certamente terá uma síncope mental: “Os pagãos não gostavam quando Deus pregava suas dotrinas e tiveram a idéia de eliminá-lo da face do céu".
            Diante dessas alegorias que não serviriam nem para se estampar numa faixa do “bloco do boi da cara preta” no carnaval, todos da esfera governamental se manifestam lenientemente e a imprensa se mantém muda e surda ou talvez o inverso calasse melhor: “surda e muda” porque quem não ouve não fala. O problema é que existem dois tipos de surdos: os de nascença e os dissimulados, sendo que os segundos são os perigosos.
            Obviamente que não seria ajuizado ou justo minorizar a atuação da imprensa na sua função sagrada de funcionar como espírito da democracia. O ato de informar é a seiva que mantém viva a cultura democrática pelo seu poder de conscientizar os cidadãos em vista dos problemas que o acercam contribuindo ainda, para manter aplacada a ação de corruptos ou de pretensos ditadores, que, porventura, venham a se arvorar ao poder pela força do golpismo. Por isso a aversão dos ditadores à ação da imprensa com seus holofotes indiscretos e perscrutadores.
            Contudo é preciso que a sociedade esteja atenta, pois nem a imprensa esta imune às investidas sutis dos donos do capital, que, muitas das vezes, são também detentores do controle dos meios de comunicação e é exatamente a esse viés comercial ao qual me refiro. Objetivos capitalistas nem sempre viajam ao lado da ética e por isso muitas das vezes se esquecem de respeitar o tênue limite entre os interesses da sociedade democrática e os interesses próprios, que normalmente envolvem a ânsia de ganhar dinheiro através da massificação da opinião pública em torno de valores pobres que não acrescentam nada ao desenvolvimento cognitivo das crianças nem ao aprimoramento da consciência cidadã. O virtuoso pensador Nelson Rodrigues certa vez alertou que: “toda unanimidade é burra” isso porque nesse contexto ninguém faz diferente, ninguém cria, ninguém discute, ninguém é instado a pensar, pois as idéias são fornecidas previamente trabalhadas e prontas; só cabe às pessoas aderirem como burros tracionando a carroça. Criam-se então os modismos no vestir, no andar, no proceder, no falar e é aí, nesse campo fértil, que os capitalistas jogam suas cartas com programas de baixa qualidade carregados de impulsos à manipulação comportamental dirigida ao desenvolvimento da ânsia consumista, esquecendo-se de que todo empreendimento antes do lucro deve ter como meta precípua o bem comum, que neste caso é fiscalizar, denunciar e educar. Contudo educar não é interessante sob o ponto de vista econômico, pois seria como remar contra a maré, enquanto que exibir o que esta em consonância com a moda encaixa exatamente com o que as pessoas querem ver, deste modo não requerendo grande investimento em qualidade e tornando-se menos dispendioso proporciona maior lucratividade. O sinal mais forte desse sintoma é que todos os bons programas da televisão e do rádio brasileiro são exibidos em horários de baixa audiência – de madrugada, noites de sexta feira ou nas primeiras horas da manhã – faixa que esta fora do foco dos grandes anunciantes. Os horários considerados nobres, pelo contrário, estão poluídos do lixo eletrônico capaz de embotar consciências despreparadas e mentes em formação. Aí prevalece um contra-senso, pois diante do conhecido baixo nível educacional da sociedade, haveriam de exibir programas com potencial para educá-la. Do contrário fazem-se eco com a pobreza intelectual.
            Todavia os controladores da grande mídia ainda não estando satisfeitos com tamanha distorção e liberdade de ação, ainda querem mais. Estão em tiroteio cerrado contra a censura que exige horários adequados para a exibição de programas inadequados e outro dia a nação brasileira e os homens de bem desta tiveram o desprazer de ver juizes da suprema corte defenderem convictamente, em entonação populista inapropriadas àquela tribuna, a supressão da censura com o argumento de que “não cabe ao estado arbitrar sobre a liberdade alheia e que aos pais deve-se atribuir a missão de escolher o que seus filhos devem ver”; e ainda mais: “que o povo brasileiro é cônscio dos seus direitos e responsabilidades, não necessitando do arbitramento estatal”.
            Nós cidadãos de bem, os quais pagam àqueles juízes vultosos salários para defenderem a Constituição, declaramos que concordaríamos com esse ponto de vista, se todos os cidadãos brasileiros, independentemente de raça, sexo, cor, credo e ideologia política fossem governados por um estado plenamente cumpridor dos preceitos constitucionais que rezam igualdade de direitos e deveres para todos e a todos fosse oferecida educação de qualidade, com professores ganhando salários de juizes pela sua nobre missão de educar – não menos nobre que a de julgar – pois, aí sim, teríamos pais verdadeiramente preparados para selecionar o útil e conveniente para seus filhos. Por outro lado, ninguém em sã consciência pode afirmar que o escalonamento de horários seja tão forte e repressora censura capaz de cercear duramente a liberdade de alguém. Se os níveis de liberdade devessem ser assim tão amplos, o estado não deveria cobrar impostos, nem as rodovias deveriam se dividir em duas mãos e as esquinas não teriam semáforos. Afinal o estabelecimento de limites é um remédio salutar ao convívio e ao desenvolvimento mental e social comprovado cientificamente. E é bom que não se esqueçam que o mercado de trabalho, destino final de todos os jovens, em nenhuma circunstância, tem limites de tolerância tão elásticos quanto a democracia libertina que estão tentando implantar no Brasil, aonde se tem observado muito maior preocupação com o conjunto de direitos do que com o de deveres.
            Penso ainda que deixar os jovens filhos de país despreparados ao sabor do bombardeio mental precoce possa se configurar num sórdido tipo de exclusão, que poderá perpetuar-se por décadas e que o maior sintoma desse despreparo seja as pérolas científico-teológicas acima citadas. Lembro que a parcela da sociedade que esta incomodada com esse nível de censura é muito pequena e que a esmagadora maioria gostaria mesmo é de ver os políticos fichas sujas atrás das grades, banidos de vez do direito de ocupar cargos públicos e se possível mídias que respeitassem mais a formação cívica, ética e mental dos seus filhos.
            Portanto, o Supremo Tribunal Federal cometerá grave equívoco, se, apenas baseado num devaneio utópico e populista de que a totalidade da sociedade brasileira esta preparada para escolher seus destinos, vier a ordenar o banimento da censura a programas inadequados no exato momento em que os índices estatísticos apontam uma terrível carnificina na faixa etária entre doze e vinte e cinco anos tendo a violência como efeito colateral do tráfego de drogas, da fome, da miséria, do desemprego; triste realidade agravada pelo desestímulo, baixa estima, alta evasão escolar e ainda, pelo abandono de filhos por pais ineptos, que um dia também foram crianças abandonadas pela família e pelo Estado.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A NOVA TORRE DE BABEL NAS PROFUNDEZAS DA INSANIDADE


              Segundo a Bíblia, a Torre de Babel foi construida com o intuito de alçar o homem ao patamar divino. Deus então parou a obra e como castigo fez com que todos falassem linguas diferentes, de modo que não pudessem se entender, assim impossibilitando a execução do projeto.
            Interessante a lenda encontrada lá no livro do Genesis e que pode muito bem ser adaptada aos tempos modernos. Nossos dias teem estado mesmo repletos de fortes emoções. Notícias há para todos os gostos e nervos. Numa ponta, países do primeiro mundo, coroados com sua história suja de exploração predatória sobre os eternos quintais da América Latina, África e Ásia, que nunca valeram nada a não ser para baixar a cabeça ou como destino de pedófilos endinheirados em busca de prostitutas impúberes abandonadas pela sociedade. Hoje, na tabua da beirada, lutam contra o rolo compressor criado por eles mesmos; bem alimentado no cocho da ganância por altas lucratividades sem a devida contrapartida em produção, criação de empregos e distribuição eqüitativa da renda.
            Na outra ponta vê-se o Dragão Chinês e suas montanhas de dinheiro embarcado na mesma ânsia expansionista que o caracterizara desde há milênios, armado com sua foice e martelo, símbolos do autoritarismo sanguinário, para no futuro bater na cabeça dos mesmos idiotas que hoje o toleram de olho no seu bilhão e meio de consumidores; a maioria deles miseráveis escravos de um regime comunista, cuja ditadura excomungada aqui, há muito reina por lá. Torçamos para que a crise mundial dure pouco, porque se o mundo continuar lhe cedendo a dianteira, quando acordar será tarde demais e haverá choro sem ladainha, pois ele não é chegado a protestos, mas ao domínio puro e simples.
            Na terceira ponta do quadrado se debatem as milenares ditaduras árabes contra a nuvem libertária aspergida pela grande broadcast com suas salas de bate-papo e sites de relacionamento, que não respeitam fronteiras e assolam as consciências cansadas da eterna ordem unida cadenciada pelas mordidas daqueles governantes que se dizem contra tudo que o ocidente possa oferecer de desenvolvimento social, mas enviam seus filhos para estudar em Harvard, Oxford e Sorbone, investem os bilhões de dólares roubados do povo nos grandes bancos internacionais, bebem Dom Perignon, andam de Rolls Royce e usam Cartier. Peçamos a Deus para que as violentas conturbações sociais provenientes da luta por liberdade não venham contaminar a paz mundial.
            E na última ponta vê-se o Brasil, agora mais do que nunca, cheio de vitalidade, armado até os dentes com seus bilhões de dólares na reserva cambial, levantando-se do sono profundo no berço esplêndido alçado pelo elegante título de “celeiro do mundo” com o pé direito nos bilhões de barris de petróleo, que nos aguardam lá nas profundezas do pré-sal e o esquerdo na lama de um arranjo político retrogrado insistindo em manter o país refém do sistema tributário antiproducente, uma vez que manieta a iniciativa privada derrubando sua competitividade e, por outro lado, de um presidencialismo débil movido a nepotismo, aonde a autoridade máxima, o presidente da república, não tem autonomia nem para nomear ou demitir ministros, uma vez que os ministérios se transformaram em feudos partidários trabalhando em função de interesses paralelos, acobertando a corrupção, o banditismo, o desvio de conduta, engessando o fluxo decisório, perpetuando o status do Brasil doméstico como eterno moribundo colonial.
             O problema que antevejo é o risco do aumento da presença paternalista do estado ineficiente através do agigantamento de empresas estatais como a Petrobrás e o crescimento de uma economia focada na capitalização de reservas cambiais. Isso somado ao borbotão tributário sufocante e à política de juros estratosféricos, dará ao estado uma super-estatura de senhor do poder econômico em detrimento da iniciativa privada descapitalizada pela excessiva tributação e pela falta de competitividade. Esse poderá ser um tiro que sairá pela culatra capaz de sufocar o processo democrático que só se sustenta sobre o quadripé: educação, liberdade de expressão, liberdade de ir e vir e liberdade para investir. Se a sociedade entra numa camisa de força, onde o estado torna-se super-rico mantendo a massa popular ignorante se esbaldando nas bolsas assistencialistas com os empreendedores privados de chapéu na mão, estaremos experimentando uma espécie de bolchevismo à brasileira em pleno século XXI. Lembrando que essa foi a receita usada pela União Soviética, pela China e por Cuba no início do século passado e agora pelo Chavismo Venezuelano, obviamente com outras nuances políticas. A China e a Rússia estão acanhadamente tratando de reverter o processo com algumas colheres de chá para a iniciativa privada, que anda nas mãos dos apadrinhados, mas nada que desbanque o estado do seu rico pedestal e do trono centralizador. Lembro que quando faço referência à iniciativa privada brasileira estou excluindo desse grupo os gigantes com reportagem direta nos meandros governamentais e lobistas a postos no congresso, mas me referindo aos milhares de pequenas e médias empresas que não gozam do mesmo privilégio e que nem por isso deixam de gerar riquezas e mais de oitenta por cento dos postos de trabalho pelo Brasil afora.
            Como se não bastasse o espectro das más notícias temos a nova versão do grande vazamento de óleo no Golfo do México, felizmente de menor monta, mas com o mesmo potencial para provar ao mundo que a tecnologia de prospecção em regiões ultra-abissais demonstra-se sujeita a falhas mais freqüentes do que se imaginam, colocando em alto risco sistemas vitais cujos danos podem trazer conseqüências ainda desconhecidas para o planeta e sua mais tênue estrutura: a teia da vida.           
            Contudo os fanfarroneiros do governo federal anestesiaram a imprensa, a sociedade e os políticos com uma espécie de devaneio capaz de quase provocar um racha na federação pelas disputas entre Estados irmãos em vista de um eldorado gerador de impostos cujo sucesso operacional e econômico é duvidoso devido aos pesados custos da prospecção ultra-profunda, à instabilidade dos preços do petróleo capaz de, em certas condições mercadológicas, inviabilizar o investimento ou até mesmo a extração e aos altíssimos riscos ambientais concernentes a uma região quase inacessível que guarda segredos ainda desconhecidos mesmo para os mais experientes e aparelhados prospectores.  
            Incrível que diante de tantas incertezas ninguém se assuste com a grande possibilidade da torre de babel brasileira ruir permitindo que a seiva negra venha descontrolada à superfície para castigar nossos incautos governantes pela sua falta de responsabilidade e visão de futuro. Certamente, se investissem uma porcentagem desses bilionários investimentos previstos para o pré-sal em outras matrizes energéticas alternativas não poluentes, colocassem o Brasil na ponta para concorrer em condições de igualdade com as potências tecnológicas já empenhadas nessa conquista futurística. Nessa ode, além dos riscos, o Brasil vai correr de costas para o futuro e para a realidade de um planeta pequeno que não suportará muito mais as agressões que vem sofrendo. Mas os governantes brasileiros não se importam, porque, se algo der errado, podem punir com multas milionárias e encher seus cofres com mais dinheiro para custear as mordomias e os altos coturnos dos picaretas, deixando o povo a ver navios, pois se assim não fosse as cidades petrolíferas do Rio e do Espírito Santo não teriam favelas, nem hospitais públicos capengas, nem escolas caindo aos pedaços, nem professores ganhando miséria, nem ruas esburacadas, nem esgoto in-natura boiando nos rios.   


terça-feira, 22 de novembro de 2011

QUAL O SIGNIFICADO DE HONESTAMENTE?

                                     Outro dia um amigo remeteu-me uma dessas bobagens que diariamente recebemos pela internet com o seguinte relato: “A ONU enviou mensagem para cada país com a pergunta: Por favor, dêem honestamente vossa opinião sobre a escassez de alimentos no resto do mundo? A pesquisa foi um fracasso. Os Europeus não entenderam o que era 'escassez'; os africanos não sabiam o que era 'alimento'; os cubanos não entenderam o que era 'opinião'; os argentinos qual o significado de 'por favor' e os americanos, nem imaginam o que seja 'resto do mundo'. Quanto ao governo brasileiro, está debatendo o significado de 'honestamente’".
                                   Confesso que relutei em abri-la, mas vitimado pela curiosidade acabei apressadamente correndo os olhos pelo texto e sucumbi ao pé da criatividade de alguém, que aparentemente, como eu, vive acabrunhado diante dessas lamentáveis características que infelizmente rotulam os povos ou desonram o fato e o ato do exercício da política.
                                   Vergonhosamente o Brasil é qualificado como um dos países mais corruptos do mundo. Ou talvez fosse mais justo dizer que nós brasileiros somos um povo, cujas características culturais englobem também a conduta duvidosa, sempre tendente à impulsão incontrolável para levar vantagem a qualquer custo sem medidas de conseqüências? Parece-me que a resposta tem se configurado positiva em vista dos fatos que há séculos mancham nossa imagem através do mundo e da história. Não enumerarei tais fatos, pois seria impossível fazê-lo dentre os limites dessas parcas linhas, entretanto nos últimos dias novas informações recheadas de contundentes imagens vieram engordar nossa já inflada indignação com os corruptos que povoam a malta de homens sem escrúpulos e o quanto nos custa sua conduta antiética. Semana passada foi publicado relatório de alta confiabilidade, me enviado por um amigo, dando conta de que a corrupção custou ao tesouro nacional, num período aproximado de ano e meio, a fabulosa quantia de US$ 40 bilhões de dólares; equivalente ao PIB – produto interno bruto – da Bolívia no mesmo período. Ou seja, uma montanha considerável de recursos extraviada das engrenagens motoras brasileiras, que nos cobram pesadíssimos impostos, mas nos devem hospitais públicos menos parecidos com matadouros, estradas, portos, aeroportos e demais logísticas que atendam às demandas de uma nação pretendente à liderança mundial, salários à altura da nobre missão dos professores e escolas públicas que sirvam para algo mais que simplesmente gerar índices estatísticos maquiados. Mais marcante ainda foi ver os chefões do crime carioca tentarem passar, na pura cara lavada, pelas barreiras policiais, embarcados na certeza de que suas escoltas estreladas estariam incólumes ao crivo daqueles que não estavam dispostos a vender a honestidade. Forte sinal de que o expediente é comum e já rendeu sucesso noutras tantas vezes.
                                   Viver honestamente, portanto é o modus vivendi dos que, como aqueles policiais incorruptíveis cumprem seu dever sem intenções espúrias e se deitam em paz pousando suas cabeças sobre o travesseiro macio da honra, encarando seus filhos sem o peso do remorso a lhes sobressaltar o espírito. Lembrando que condutas dessa natureza custam menos em termos monetários, alavancam o progresso e minoram o sofrimento social.                     
                                   “Tenho vergonha de mim, pois faço parte de um povo que não reconheço, enveredando por caminhos que não quero percorrer. Ao lado da vergonha de mim, tenho tanta pena de ti, povo brasileiro”. Este célebre lamento foi proferido por Rui Barbosa no alvorecer do século passado, numa demonstração de que as coisas no Brasil não mudaram ou evoluíram desastrosamente para pior.
                                   Minha opinião sobre o desabafo de Rui Barbosa compõe-se de duas vertentes: Concordo com a verdade incontestável de que os justos devam se envergonhar da séptica lama onde estão obrigados a viver e conviver, entretanto não se deve esperar que rochas não se moldem à investida insistente das ondas; porquanto, por justiça, estes justos devem ser recompensados à altura das suas indeléveis atitudes em prol do bem. Foi triste e frustrante saber daquele policial, que rejeitou um milhão de reais em troca da sua honra, retornar ao lar localizado num subúrbio distante, obviamente sem demérito pelo local, mas embarcado num trem suburbano, que todos conhecemos a baixa qualidade devida à desídia governamental. Mau sinal e extremamente preocupante militares da força pública viverem vulneravelmente na camisa de força dos baixos salários, enquanto sabe-se quanto o Estado Brasileiro é perdulário e benevolente com outras classes e cidadãos ornamentados pelo indefectível colarinho branco sujo.
                                   Em segundo lugar, a crítica de Rui Barbosa não aponta solução para o problema, talvez porque, a seu tempo, o mundo ainda vivesse a utopia do socialismo marxista embalado na crença de que o paternalismo estatal fosse a solução para todos os problemas. Hoje, após o fiasco do marxismo, do socialismo bandeira branca e até mesmo do capitalismo carnívoro e excludente, concluiu-se que a solução mais eficiente está no maciço investimento em educação encarando-a como único meio de aperfeiçoamento do capital humano nivelando os cidadãos por cima, assim lhes garantindo liberdade de expressão, discernimento na escolha dos seus destinos, capacitação técnica e profissional, dignidade e respeitabilidade para o pleno exercício da cidadania.
                                   A administração, em todos os aspectos, inclusive a pública, no século XXI, será mais do que nunca, o encontro de imaginação e realidade. Através da alta velocidade da informação proporcionada pelas tecnologias de ponta em telecomunicações haverá cada vez mais integração entre os centros de decisão e os setores mais longínquos do tecido social. Nesta evolução morrem a ignorância, o assistencialismo cabresteiro e o favoritismo eleitoreiro; nascendo a conscientização, a interatividade, a coparticipação e a conseqüente diminuição da desigualdade entre ricos e pobres.
                                   Portanto, com o incremento da cultura, da informação, da participação social e do interesse político os cidadãos nunca se esquecerão que quando os gatos se ausentam, ratos sobem à mesa e que para combatê-los não bastam apenas ruídos, mas planejamento e ação com gatos bem treinados, honrados e alimentados.


EVANGELIZAÇÃO; NOVO ENFOQUE DA IGREJA CATÓLICA


           Cristo, nas suas célebres palavras: “Pedro, tu és pedra e sobre essa pedra edificarei minha Igreja” lançou o alicerce fundamental dessa, que, ao longo dos séculos, passaria a ser considerada a “Igreja Católica”. O termo católico é oriundo da palavra grega “Katholicos” que tem como significado: “total ou geral”. A Igreja de Cristo, mais tarde se constituiria em duas vertentes: A física; representada pela hierarquia, cuja cabeça é o papa sucessor do apóstolo Pedro, como também os monumentos edificados e utilizados a fim de abrigar encontros e comemorações dos cristãos católicos. A outra vertente, cujo objetivo primordial é a conversão ao ensinamento e à pessoa de Jesus Cristo, em vista do alcance do Reino de Deus, é a fundamental e a mais importante e, por isso mesmo, aquela que vamos retratar nesta reflexão.
          Naturalmente nos acostumamos a rotulá-la sob a ótica material necessária e muito importante, pois coexiste na materialidade e esta composta por homens tão fracos e falhos como outros quaisquer. Portanto, ofuscados nas brumas do enfoque crítico puramente mundano, tendemos a nos esquecer exatamente da questão principal, aquela que veio nortear a sua criação: a “FRATERNIDADE ENTRE OS HOMENS”; sua messe básica e único caminho para estar em consonância com a missão redentora de Cristo.
          Diante dessa afirmação a responsabilidade do cristão católico aumenta grandemente, pois a missão evangelizadora da sua igreja não deve e não pode estar unicamente depositada nas mãos da hierarquia que a compõe e representa, mas nos ombros de todos. Por isso mesmo a 5ª CONFERÊNCIA DE APARECIDA acentua a figura do leigo como verdadeiro discípulo de Cristo devido ao sacramento do Batismo. Se Cristo foi o grande missionário da mensagem de salvação, a igreja assumiu papel coadjuvante de natureza missionária e por isso todos devem incorporar sua personalidade missionária, não a atribuindo tão somente aos padres, aos bispos ou, até mesmo, ao Papa.
          No início a igreja compunha-se apenas de discípulos que viajavam com Cristo, amando-o, se aperfeiçoando e aprendendo na convivência diária, nas conversas com perguntas e respostas recheadas de explicações inteligentes sacadas da prática da vida e das escrituras. Hoje essa premissa é incitada a estar mais viva que nunca. A única e boa diferença é que a Igreja transformou-se numa legião de mais de um bilhão de católicos por todo o mundo.
          Na contrapartida da grande complexidade que caracteriza o mundo moderno, conturbado pelas controvérsias políticas visando tão somente poder e dominação e pelo grande número de homens que ainda sofre vitimado pela desigualdade ou por ditaduras sanguinárias, há, na conscientização humana e, portanto, nos horizontes futuros da humanidade, uma refrescante noção democrática que visa assegurar ao homem seu direito nato à liberdade em todos os aspectos, obviamente salvaguardando-se a ética. Segundo minha modesta opinião, a Igreja Católica, na esteira da sua missão evangelizadora de igualdade e fraternidade, está em perfeita sintonia no combate a esses problemas que fustigam o mundo moderno, com a filosofia democrática e com a dinâmica globalizante. Dentro dessa ótica ainda chamo atenção para um intrigante fenômeno atribuído mesmo ao poder máximo de Deus. A Igreja de Cristo é a instituição mais antiga na história da humanidade e por isso mesmo o mais emblemático exemplo de superação que se conhece. Da insignificância do seu nascimento, quando os primeiros cristãos eram jogados às feras e seu mentor supremo foi condenado à crucificação, chegou ao apogeu apoiada pelo imperador Constantino, que a promoveu como igreja oficial do Império Romano, para se impor sobre a mesma Roma que a execrara. Mais tarde, ao longo de séculos, denodou-se em disputas políticas, perseguições, condenações sumárias e guerras injustas promovidas por dirigentes inescrupulosos, mas finalmente reencontrou-se pelo restabelecimento da prática evangelizadora em nome de Cristo, como seu objetivo principal.
          Segundo o documento de Aparecida “A Igreja é chamada a repensar profundamente e a relançar com audácia sua missão confirmando, renovando e revitalizando a novidade do evangelho no presente e para a história. Entretanto isso não depende tanto de grandes programas e estruturas materiais, mas de homens e mulheres que abracem a missão de serem discípulos e missionários em diálogo ininterrupto, a fim de servirem-se mutuamente. Assim a Igreja católica e os cristãos são conclamados a assumir o papel de portadores da boa nova de Jesus, de preferência sem estrelatos, seguindo Suas atitudes, se lembrando de que Ele se fez servidor e obediente até a Morte de Cruz”.
          Jesus morreu na cruz para salvar a humanidade da subversão à justiça. Seu crime foi subverter a cultura da espoliação dos mais fracos pelos mais fortes. No entanto, hoje a injustiça social continua tão profunda quanto antes e a espoliação corporificada em fome, miséria, violência, corrupção, falta de oportunidades e outras desigualdades inadmissíveis numa era considerada como civilizada. Todos os católicos, portanto são convidados a trabalhar nessa missão evangelizadora moderna na sua roupagem, mas tão antiga quanto os pregos que prenderam braços e pernas de Cristo à Cruz, e abraçar com um amor incondicional, semelhante ao de Deus a todos, especialmente aos pobres e aos que sofrem toda ordem de injustiças. Mãos à obra é a nova ordem e deve estar acima de qualquer ação ou palavra crítica, pois os  críticos são os que menos trabalham e assim não merecerão a complacência, o perdão, nem o Reino de Deus.